sáb 16 out 2021
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Brasil pode integrar o maior consórcio de pesquisa astronômica do mundo

O VISTA é o telescópio mais novo do ESO (European Southern Observatory) e foi instalado no Observatório do Monte Paranal, no deserto de Atacama, norte do Chile. Foto: Divulgação/ESO

Se o Congresso Nacional aprovar, o Brasil pode passar a integrar o Observatório Europeu do Sul (em inglês, European Southern Observatory – ESO) e, assim, se tornará o único país não europeu a participar do grupo. O ESO é o maior consórcio de pesquisa astronômica do mundo, e conta com telescópios de última geração instalados no Chile. A adesão brasileira – que custará cerca de R$555 milhões em dez anos – prevê a participação do país na construção do observatório E-ELT (European Extremely Large Telescope), o maior telescópio do mundo.

A professora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG), Beatriz Barbuy, define a entrada do Brasil no ESO como um salto de qualidade para a astronomia brasileira. Para ela, não há dúvidas de que a utilização de telescópios do observatório alavancará as pesquisas de estudantes e astrônomos brasileiros. “Seria um grande passo na disponibilidade de instrumentos, e possibilitará ainda maior interação com outros países”, opina o professor titular da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências, Jacques Raymond Daniel Lépine.

Contudo, o professor titular do IAG, João Evangelista Steiner, acredita que a proposta de o Brasil entrar no ESO é irresponsável. “Seria um subsídio à ciência europeia com dinheiro do contribuinte brasileiro”. Para Steiner, seria um gasto do dinheiro público brasileiro sem um retorno correspondente.

A participação brasileira no consórcio já teve a aprovação dos Ministérios da Ciência e Tecnologia e das Relações Exteriores. Entretanto, o projeto ainda encontra-se sob a análise do Congresso brasileiro.

Brasil participa de outros consórcios internacionais

Apesar de ainda ser jovem, a astronomia brasileira alcançou importantes conquistas durante as últimas décadas: introduziu os primeiros programas de pós-graduação na área, nos anos 1970; na década de 1980, estabeleceu o primeiro laboratório nacional no país, o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), e, ainda, entrou nos consórcios Gemini e SOAR, na década seguinte.

Atualmente, os cientistas brasileiros possuem 5% do tempo de utilização do telescópio do Gemini e 33% no telescópio do SOAR. O Brasil participa também de diversos projetos internacionais, entre os quais o J-PAS (colaboração com espanhóis) e o PFS (colaboração em projeto coordenado pelos japoneses), ambos para mapear o universo em grande escala. Existem, ainda, vários projetos menores.

 

O Brasil na astronomia mundial

Através de colaborações a nível individual dos astrônomos e por meio de cooperações em programas de pesquisa, o Brasil está muito bem inserido na astronomia mundial, segundo Lépine. “O Brasil tem organizado reuniões científicas internacionais de grande importância, como foi a reunião da União Astronômica Internacional, no Rio de Janeiro, em 2009, com mais de 2000 participantes, ou o Simpósio de Cosmologia da USP, em 2013, com 250 participantes, incluindo um Prêmio Nobel”, conta. Para o professor Steiner, o fator principal que possibilita a boa inserção brasileira na astronomia mundial é a existência do LNA. “Durante os anos de 1970 a 2000, a produção científica cresceu a um ritmo médio anual de 11%”, informa.

A importância de o Brasil fazer parte de grandes projetos de astronomia mundiais está no estímulo da descoberta propiciada por eles, que também “impulsionam o desenvolvimento tecnológico, a superação de barreiras tecnológicas e barreiras de capacidade de organização”, segundo Lépine. De acordo com o professor João Steiner, os projetos competitivos “são muito caros e somente são viáveis se forem financiados por diversos países”, por isso, o Brasil precisa colaborar.

O estudante de astronomia brasileiro

Para que o estudante de astronomia brasileiro se torne requisitado nos principais projetos internacionais, ele deve ter o compromisso de fazer um estágio de pós-doutorado no exterior, explica o professor da USP, Jacques Lépine. “A experiência no exterior é essencial para que o estudante ou pesquisador se coloque logo no mais alto nível de pesquisa, para que ele veja como a pesquisa é organizada no exterior, para que melhore seu domínio da língua inglesa, uma ferramenta para a vida toda, e, para que estabeleça colaborações que podem ser duradouras”, explica.

Lépine ainda destaca: “Um bom número de jovens astrônomos brasileiros tem sido contratados no exterior. Não é vantagem para ninguém nos deixar de lado, pois temos bastantes pesquisadores jovens, criativos e motivados”.

 

A situação da astronomia no Brasil

O investimento do Governo Federal na astronomia brasileira provoca opiniões distintas entre os profissionais da área. Para Beatriz Barbuy, o governo brasileiro ainda não investe o suficiente no setor. Mas, para Steiner, “poucos países emergentes no mundo têm tido o apoio que temos tido no Brasil, pois o governo e o Estado de São Paulo têm feito investimentos muito significativos na astronomia”. O professor Jacques Lépine concorda e acrescenta: “Aparentemente a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) tem aumentado seus investimentos”. Ainda assim, o ex-presidente da Sociedade Astronômica Brasileira acredita que o governo brasileiro deveria investir mais na área.

A tecnologia espacial que o Brasil possui é, relativamente, atrasada se comparada à Índia e à China – países que, há 30 anos, estavam no mesmo nível. “Mesmo assim, os astrônomos brasileiros têm sido convidados a participar de projetos espaciais do exterior, como foi o caso do satélite francês COROT, que descobriu um bom número de planetas extra-solares”, destaca Jacques Lépine. Apesar disso, o país não possui investimentos nessa tecnologia. “Nunca produzimos um satélite científico”, sublinha a professora Barbuy.

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