Foto: Arnaldo Alves / AEN
Quinta-feira, 6h30 da manhã, dentro de casa, Bacacheri — Não gosto de compromissos antes das 10h. Valorizo o sono de tal forma que daria inveja ao mais preguiçoso dos cachorrinhos. Minha rotina só me obriga a sair da cama nos dias em que tenho aula. Nestes, saio de casa com a aparência de uma inefável alma penada.
Naquele dia, desliguei o despertador, olhei para o teto e pensei: de novo não…
Na tela do celular, as notícias não eram boas. O termômetro marcava 15 graus, mas o vento penetrava em meus ossos, baixando a sensação térmica em pelo menos cinco. Levantei-me heroicamente. Ainda enrolado no cobertor, agarrei meu jeans azul de lavagem escura, uma camiseta qualquer e um casaco preto com detalhes em azul nos ombros e mangas, que comprei no brechó por 80 pratas.
No banheiro, enquanto me vestia em frente ao espelho, pensei que, com um destes no quarto, talvez ganhasse alguns minutos a mais de sono. Liguei o aquecedor elétrico, bom companheiro há 10 anos, e percebi que, pelo caimento das peças, a estética não me sorriria naquele dia.
Com a mão direita, escovei os dentes de maneira agressiva, até a gengiva pedir arrego, o contrário do que os dentistas recomendam. Com a esquerda, pedi meu Uber para chegar a tempo ao local em que havia marcado. Quem me levou ao centro da cidade foi o Jonas, cujo carro não lembro qual era e, antes de me abrigar em seu estofado, abri a térmica do café do dia e dei alguns goles. Mesmo gelado, foi o suficiente para abrir os meus olhos um pouco mais.
7h30 da manhã, Alameda Doutor Carlos de Carvalho, Centro— Após a viagem caótica em que atravessei as ruas de maior movimento da cidade, cheguei ao meu destino. No trajeto, aproveitei para ouvir alguns sucessos da maior banda de rock de todos os tempos: os Beatles. Fiquei com brilho nos olhos após ouvir o riff de Something, dedilhado pelo meu beatle favorito, enquanto pensava em minha amada.
Abri a porta do carro quentinho para pisar na calçada e tive a certeza de que estava no lugar errado. Tenho o costume de me enganar quando se trata de endereços. Fitei os números dos prédios comerciais da Alameda e vi que estava apenas a uma quadra do edifício correto. Depois de sapatear pelas calçadas, avistei o homem que me esperava. Um advogado. Com 1,85 de altura, olhos claros e cabelos louros — o autêntico polono-brasileiro.
Imagino que ele tenha percebido o tamanho de minhas olheiras e a pequenez de meus olhos, já que logo me chamou para beber uma xícara de café na Panificadora Elite, ao lado de seu escritório. Enquanto aguardávamos nossas bebidas, o papo foi da revolução aos caminhos da amizade. Atrás dos traços polacos, existe um anarco-comunista convicto de sua ideologia.
Quando fui pegar meu café no balcão, fui questionado pela atendente sobre a necessidade ou não de pôr açúcar. Amargo como sou, tomei-o como os velhos barrigudos dos botequins degustam uma cachacinha.
8h30, Central de Abastecimento do Paraná (Ceasa), Tatuquara — Quarenta minutos e 13 km de distância depois, chegamos ao Ceasa, e a sensação foi parecida com a de Cabeza de Vaca quando viu pela primeira vez as cataratas do Iguaçu. O local de origem de boa parte dos alimentos que consumimos no dia a dia.
Ainda dentro do carro, observei os homens se deslocando com carrinhos cheios de frutas e legumes apoiados nos ombros. Coisa que só tinha visto em filme. Ao longo do caminho, recebi algumas recomendações do advogado sobre como eu deveria me portar dentro do local.
Devido a um programa de ressocialização do governo estadual, boa parte dos funcionários do Ceasa são egressos do sistema prisional. Inclusive, foi isso que me levou a conhecer essa feira gigantesca. Meu objetivo era colher informações para uma reportagem sobre o tema.
Já estou quase no fim da faculdade, momento em que o esforço mínimo se torna quase regra entre os estudantes. Nesse caso, não seria errado dizer que fui contra a maré. O advogado me alertou que a linguagem e os interesses dos trabalhadores eram diferentes dos meus, universitário de bigode e fã dos Beatles. Assenti com a cabeça, desci do carro e comecei a andar de forma que me fizesse parecer o mais humilde possível.
O jogo The Sims, simulador de vida popular entre os adolescentes, que joguei muito enquanto deveria estudar para provas, me ensinou que existem maneiras de andar arrogantes, animadas, soturnas e raivosas. Não havia a opção dos passos “humildes”, mas fiz meu melhor em emular a virtude com meus pés.
O grupo ao qual fui apresentado era diverso: homens corpulentos, velhos, novos, tatuados e com camisas de time. Apesar do estranhamento inicial, todos me trataram como parte da equipe. Após inúmeros “prazer”, “olá!”, “tudo bem?” e outras mesuras do tipo, fui até a parede mais próxima para começar minha atividade predileta: apoiar o pé na parede enquanto perscruto o ambiente em que estou inserido. Vi cogumelos, mangas, abacates, mamões e bananas.
9h30, dentro da associação, Ceasa, Tatuquara — O galpão onde fica a associação do Ceasa é simples. Teto com telhas aparentes. Móveis gastos pelo tempo. Paredes com lascas de tinta ameaçando se desprender e inúmeros carrinhos. Todos iguais, com rodas de pedra e madeiras maciças para aguentar toneladas de frutas. Estima-se que cada um destes custe cerca de 2 mil reais.
Os carrinheiros, em geral, alugam os exemplares de empreendedores do Ceasa. Alguns deles possuem centenas de carrinhos, o que é suficiente para arrecadarem uma renda grande o bastante para ser a única fonte de dinheiro do mês.
Após andar em torno do galpão da associação e observar o Ceasa dos mais diferentes ângulos, passei a conversar com os funcionários que foram mais simpáticos comigo. Entre esses, um homem na casa dos 70 anos, desdentado e com dificuldades de locomoção, me chamou atenção em especial.
Mesmo com os obstáculos, o senhor vai todos os dias de bicicleta para realizar seu trabalho e garantir o sustento do mês. Os trabalhadores ganham 15 reais por carrinho que levam ao objetivo final. Na associação, alguns dos carrinheiros estão em busca de garantir algum tipo de aposentadoria, mas a dificuldade em provar os vínculos trabalhistas traz uma complexidade que sou incapaz de compreender.
Um destes trabalhou por tanto tempo carregando os carrinhos que desenvolveu artrose nos dedos. Seu polegar apontava para a direção contrária do mindinho, que se enrolava como um gato tentando dormir.
Apesar de todas as dificuldades, todos me trataram com exímio respeito e curiosidade.
“Você vai escrever sobre a gente?”
Queria ser capaz de salvar o mundo com as palavras. Mas isto é impossível.
11h30, Restaurante Universitário, Reitoria da Universidade Federal do Paraná, Centro — O advogado me deixou no mesmo lugar em que nos encontramos. Como o Restaurante Universitário já estava aberto, fui andando até ele.
O frio do início do dia já havia sido substituído por uma brisa quente insuportável. Quando está calor e tenho que me locomover pelo centro, começo a me coçar como um sarnoso.
O cardápio do dia era arroz, feijão, salada de alface, um refogado pouco atrativo com cebolas e cenoura, e a maldita copa-lombo, proteína que menos me apetece entre todas as que são servidas no R.U.
Comi o prato de má vontade, enquanto escutava um podcast sobre a revolução brasileira, ainda inspirado pelas ideias do advogado.
Ao longo de toda a refeição, uma culpa me perseguiu. Como é possível eu estar insatisfeito tendo a possibilidade de bandejar por míseros 1 real e 30 centavos? Se a comida fosse boa, desejaria que todos pudessem acessar o local. Mas não sei como o carrinheiro seguraria o garfo com seus dedos encruzilhados.
13h, escritório, Alameda Prudente de Moraes, Centro — Nesta tarde, não trabalhei. Meu dia já havia acabado horas antes. Acho que eu não ganharia nem 100 reais por mês se trabalhasse no Ceasa.
Vou começar a revolução no primeiro barzinho que encontrar hoje.


