sáb 23 out 2021
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Descobrindo a fotografia além do olhar

O primeiro encontro da oficina de fotografia para deficientes visuais na Biblioteca Pública do Paraná, que aconteceu no dia 15 de abril, começou cinco minutos depois do horário inicial previsto. Antes disso, vários alunos já estavam presentes, distribuídos aleatoriamente nas três fileiras horizontais de cadeiras cor de areia que compunham a sala.

A heterogeneidade dos discursos e objetivos que os levaram até ali foi o que prevaleceu durante a apresentação dos 19 alunos presentes, entre deficientes visuais totais e parciais. Apesar das diferentes histórias de vida, eles foram reunidos ali por um ideal em comum: aprender um olhar da fotografia que vai além da visão.

Juliana Stein mostrando a foto que preparou em alto relevo para a turma (Créditos: Heloisa Nichele)
Juliana Stein mostrando a foto que preparou em alto relevo para a turma (Foto: Heloisa Nichele)

Após uma breve apresentação, Juliana Stein, a ministrante e idealizadora da oficina – que já expôs seu trabalho fotográfico em mais de dez países e foi representante do Brasil na Bienal de Veneza em 2013 -, passou a palavra ao primeiro da fila, para que começassem as apresentações. Era Anastacio Braga, analista de sistemas que trabalha na Biblioteca há 17 anos e encara a proposta como um teste a si mesmo. “Se é acessível a mim, por que não tentar?”, disse sorrindo. Ao seu lado estava Nelson, que ouviu o anúncio da oficina no rádio e, pelo interesse no tema, resolveu conferir. “Há exatos 40 anos, quando eu ainda enxergava, saía com uma Pentax por aí fotografando”, relembra Nelson, e dá um tom descontraído às apresentações. “Devo ter uns 8% de percepção de luz, consigo ver alguma coisa. Estou vendo você. Você é loira? Está sorrindo e é muito bonita”. Alguém ao fundo da sala brinca: “Dá dez pra ele!”.

Na mesma fileira sentava-se Maurício Rodrigues, que recebeu aplausos da turma ao se apresentar com orgulho: “sou campeão de natação, tenho 231 medalhas”. E completou: “perdi a visão na incubadora quando nasci, mas eu consigo diferenciar o dia da noite. Meu objetivo é tirar fotos e poder mostrar pras pessoas”. Ao seu lado, estava o casal Irene Collaço Herrmann e Edison Luis Herrmann, que pretendem maior autonomia ao tirar fotos. “Gosto de fotografar os momentos e o meu objetivo é criar independência porque sempre temos que pedir ajuda para os outros”, afirma Edison, deficiente visual total.

Como funciona

Segundo a fotógrafa Juliana Stein, a reação da sociedade ao saber sobre a proposta da oficina é sempre a mesma. “Quando eu digo que vou dar um curso de fotografia para deficientes visuais, as pessoas me dizem ‘mas como, se eles não veem?’. Então cheguei à seguinte sentença: eles não veem como eu vejo, mas eu também não vejo como eles veem”, ela conta.

A oficina pretende trabalhar a produção fotográfica desde técnicas até questões ligadas a experimentação da imagem, que explora sentidos do corpo como o toque e a audição. “A descrição é uma parte importante no processo, mas o mais importante é o deficiente visual poder tocar e conceber a própria experiência. Vou preparar a foto com relevos e espessuras para que ele possa tocar e sentir a foto”, explica a fotógrafa.

Para participar, não é necessário equipamento fotográfico profissional. “Vamos ver se conseguimos umas máquinas durante a oficina. Por enquanto vamos utilizar o que a gente tem”, esclarece Juliana. A maioria conta com a câmera do celular. “Dizem que essa câmera é boa”, brinca um deles sobre seu telefone. Gilberto Ozawa, com a última aquisição em mãos, falou para a turma sobre o gosto em fotografar. “Eu sou de descendência oriental, e como todo oriental eu adoro fotografia. Sempre estou em busca de máquinas com visor grande. A última que encontrei foi essa aqui, de 5 polegadas e acessibilidade por voz”, descreve Gilberto.

“Tenho baixa visão de nascença, enxergo um pouco com o olho direito, mas sempre me interessei por fotografia. Minha primeira máquina digital era pequena, com um visor de duas polegadas, com esforço eu conseguia tirar algumas fotos. Fui me aprofundando até achar essa, no final do ano passado”, conta Gilberto Ozawa (Créditos: Heloisa Nichele)
“Tenho baixa visão de nascença, enxergo um pouco com o olho direito, mas sempre me interessei por fotografia. Minha primeira máquina digital era pequena, com um visor de duas polegadas, com esforço eu conseguia tirar algumas fotos. Fui me aprofundando até achar essa, no final do ano passado”, conta Gilberto Ozawa (Foto: Heloisa Nichele)

Inclusão e acessibilidade

De acordo com os resultados do Censo 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 15% da população em Curitiba apresenta algum grau de deficiência visual, sendo que mais de 40 mil são deficientes visuais parciais ou totais.  No curso, a diferença é mais da metade: são quatro deficientes visuais totais e quinze com baixa visão. Para a fotógrafa, o processo de produção das imagens para cada um dos grupos é diferente. “Um utiliza um canal e o outro utiliza outro para produzir. São dois processos que se aproximam mas não são idênticos. Vamos pensar juntos como se converge o fundo de quem vê e de quem não vê na fotografia como uma linguagem de expressão”, esclarece Juliana.

Na Seção Braille da Biblioteca Pública do Paraná passam cerca de 10 deficientes visuais por semana procurando atendimento especializado. Para Cleomira Burdzinski, responsável pela Seção, projetos como a oficina de fotografia são importantes para a inclusão e acessibilidade do deficiente visual. “Não podemos viver num mundo só para alguns. Então procuramos tornar acessível para que o deficiente visual se inclua na sociedade”, declara.

Produzindo conhecimento

Ao final do encontro, Juliana distribuiu a descrição em braille e em caixa alta uma de suas fotos, que também estava em alto relevo num painel dentro da sala à disposição dos alunos. Para ela, que já trabalhou fotografia com um grupo de adolescentes deficientes visuais durante mais de um ano, a oficina continua sendo um desafio e uma produção de conhecimento que deve ser pensada em conjunto. “Não vou despejar um conhecimento morto em cima de vocês, nosso conhecimento vai ser vivo, vamos produzi-lo”. Aqui cada um tem sua expectativa, sua limitação e seu objetivo. É importante que possamos trabalhar como uma família, todos juntos’, declara ela.

As aulas são todas as quartas a partir das 14h e vão até dezembro. Se possível, Juliana pretende montar uma exposição no final do projeto. “Expor a fotografia como linguagem e como ela funciona para o deficiente visual. Como ele percebe o mundo e como pode expressar isso”, explica. E sobre a presença dos alunos na oficina, completa. “Se você não veio, nós vamos sentir a sua falta. Essa é a coisa mais importante que tenho a dizer”.

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