qui 29 set 2022
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Em meio à guerra, descendentes valorizam tradições ucranianas

Mais de 70 mil descendentes ucranianos residem em Curitiba. Iniciativas culturais, como do Grupo Folclórico Poltava, buscam preservar memória de um povo com nacionalidade ameaçada

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia (24/02), país que integrou o bloco socialista até extinção da União Soviética, parte da comunidade ucraniana que vive no Brasil, a maior concentração da América Latina, luta para manter informações da guerra mesmo distante. Só o Paraná concentra meio milhão de descendentes ucranianos, 70 mil deles vivem em Curitiba.

Atualmente, com a conflito envolvendo a Ucrânia, grande parte dessa comunidade teme o estado de ameaça que o país sofre desde o momento em que foi criado, quando ainda estava sob protetorado russo e polonês. Entre as motivações do atual conflito envolvendo os dois países europeus está a recente tentativa da Ucrânia em entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) — atitude vista pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, como atentado à segurança do país. Além disso, Putin alega também se tratar de uma tentativa de defesa às pessoas que durante oito anos teriam sido submetidas à intimidações e genocídio pelo regime de Kiev.

“O que está acontecendo agora é mais uma tentativa do que vem ocorrendo desde 2014, quando a Rússia, forçosamente, iniciou uma anexação da Crimeia [uma ilha ao sul da Ucrânia] ao seu território, assim como Donetsk e Lugansk, cidades ucranianas. Nós temos registros do povo ucraniano desde o Século V, mas a Ucrânia só foi considerada como um país independente, de fato, há 30 anos. A Rússia nunca parou, sempre tentou dominar a Ucrânia por motivações políticas e estratégicas, principalmente”, comenta a jornalista e participante do Grupo Folclórico Ucraniano Poltava, Bruna Remes.

Na foto, Bruna toca bandura, instrumento típico ucraniano. Foto: Oksana Kovaliuk/2015

Segundo ela, para se estabelecerem no Brasil, os ucranianos precisaram alterar documentos e até mesmo a grafia dos sobrenomes, devido a passagem do alfabeto cirílico para o ocidental. “Pelo fato deles [ucranianos] não terem a nacionalidade correta nos documentos, porque tiveram que alterar para polonês ou austríaco, eu não consigo afirmar com certeza qual geração dos meus antepassados veio para o Brasil”, explica a jornalista antes de frisar o vínculo com o país do leste europeu: “Mas mantenho minhas origens por meio do Grupo Folclórico Poltava, onde realizamos festividades com danças e músicas, e outras atividades como o artesanato”. 

“Minha vó tem duas primas que ainda moram na Ucrânia, que são de idade próxima a dela [86 anos], e elas estão em uma cidade chamada Stryy, a oeste, próxima à Polônia, por isso não é uma cidade que está recebendo tantos ataques como Kharkiv e Donetsk. Mas, mesmo assim, elas estão vivendo sob um regime de guerra, com toque de recolher, alerta de ataque aéreo, precisando se esconder. Meus parentes estão vivendo com muito medo, mas estão ligados a uma causa humanitária pelos militares e pessoas feridas, e ajudando pessoas que estão tentando fugir pela parte oeste e noroeste ucranianas”, declara o cantor lírico e arquiteto Vitorio Scarpi.

Acompanhando o desenvolvimento da guerra, a Representação Central Ucraniano-Brasileira lançou na quinta-feira (3) o Comitê Humanitas Ukraine Brasil, que coordenará ações de ajuda humanitária de emergência necessárias à Ucrânia. Conjuntamente com igrejas e centros culturais, o comitê tem por objetivo levantar fundos para realizar doações diretamente ao povo ucraniano e também recolher cadastros de voluntários brasileiros a receberem refugiados em suas casas. 

Na sexta-feira (11), membros da Representação Central Ucraniana Brasileira participaram de reunião para articular apoio aos imigrantes da guerra da Ucrânia junto ao Ministério de Direitos Humanos. Foto: RCUB/Facebook

“A geração da minha família que se mudou aqui para o Brasil foi a dos meus bisavós, tanto os paternos como os maternos. Vieram diretamente da Ucrânia para cá por estarem fugindo das guerras que estavam acontecendo no país naquela época e, como o Brasil estava promovendo grandes propagandas de prosperidade em seu território, escolheram ele como novo lar. Quase todos os meus antepassados vieram para áreas rurais, para serem agricultores. A primeira língua que eu aprendi foi o ucraniano, e até hoje nossa família se comunica assim internamente, porque além de ser uma língua mais usual entre nós, a missas ucranianas que frequentamos são todas na língua falada lá”, relata o agricultor Gabriel Nicodemos Nogas, de 24 anos.

“Tudo o que está ocorrendo entre a Ucrânia e a Rússia é muito sentido entre a minha família, porque os nossos antepassados vieram fugindo de guerras, procurando uma vida melhor. E as canções populares que eles trouxeram retratam, também, o que está acontecendo agora. Nestas músicas, traduzindo para o português, os homens dizem para as suas mulheres, que não era para elas esperarem as suas voltas, que fujam e guardem a família. Eram canções muito pesadas”, complementa.

Louize Lazzarim
Estudante de Jornalismo da UFPR.
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