ter 26 out 2021
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Fernando Pessoa em cena

Rafael Camargo é ator consagrado em Curitiba, premiado com Troféu Gralha Azul na categoria melhor ator com a peça Pessoalmente Fernando. Apesar da vida corrida mantém uma relação intima com a cidade em que nasceu e onde morou até os 12 anos: Antonina. “As pessoas, as festas populares e religiosas da cidade foram muito marcantes na minha infância e até hoje esse imaginário influencia muito meu trabalho”, revela.

Em Antonina para três apresentações durante o 18° Festival de Inverno da UFPR, Rafael Camargo fala da peça que conquistou quatro das seis indicações ao Troféu Gralha Azul 2007. “Pessoalmente Fernando diz muito do humano, muito do quanto somos sozinhos. Fala da alma humana, dessa coisa espetacular e dolorosa que é viver”. O ator conta que além do contato com a literatura e a vida de Fernando Pessoa, seu passado também foi um elemento importante na preparação. “A peça fala de memória, fala de passado, de recuperar a criança que você perdeu. Foi um processo muito afetivo”.

Comunicação: Como foi apresentar Pessoalmente Fernando aqui em Antonina?
Rafael Camargo: Encenar nesse lugar, onde estudei o jardim de infância, no primeiro palco em que eu pisei é emocionante. Ontem eu fui agradecer a presença do público e não consegui, fiquei chorando. A adaptação do Edson Bueno usa o Fernando Pessoa, usa alguns heterônimos, mas tem um pouco dele, um pouco da minha infância, do meu passado. A produção toda foi um processo afetivo de despojamento, deixar que aparecesse o que era verdadeiro, o que era natural e humano.

Comunicação: A peça tem um texto denso que exige muito do ator. Como foi o preparo para encenar Pessoalmente Fernando?>
Camargo: Esse foi um exercí­cio bonito de fazer, uma provação como ator. O trabalho maior foi com a voz, buscando uma voz menos empostada, mais próxima da minha mesmo. E com as passagens de emoção que são muito difí­ceis de fazer. As cenas são muito entrecortadas, quase como uma edição de cinema. Eu estou em um tipo de emoção e na próxima cena preciso entrar em outra época e outro estado de espí­rito. Além do Fernando e dos heterônimos, tem as emoções do pai, mãe, um pouco de mim. E isso é muito rápido. Então eu tive que me abrir, quase virar criança, que consegue passar de um estado para outro muito rápido: chora e no momento seguinte já está bem.

Comunicação: Como você avalia a vida cultural da cidade. Existe incentivo para a produção local?
Camargo: Acho que não tem, não. A cidade tem muita gente talentosa, com muito potencial, mas precisa de fomento e é uma cidade muito pobre. Como os polí­ticos vêem a cultura como uma cereja, como um confeito no bolo ela sempre fica por último. A cultura é o reflexo da nossa vida, até na economia ela é um marco. A cultura é o bolo todo: comportamento, maneira de viver, o lixo que se joga na rua, sotaque, mas os polí­ticos acham que cultura são só os espetáculos, as festas.

Comunicação: O Festival de Inverno da UFPR consegue ser um incentivo para os grupos e artistas que se apresentam aqui?
Camargo: Eu tive experiências sempre muito felizes com o Festival. Já ministrei oficinas, fiz espetáculos, trabalhei como apoio do evento. Passaram pela minha alguns atores que hoje são diretores importantes. Acompanhei um grupo de teatro que surgiu durante uma oficina e depois virou um centro cultural em Curitiba. É uma semana só, mas como existe um grande número de espetáculos, oficinas e artistas, Antonina se torna um lugar de encontro, de possibilidades e projetos.

Comunicação: Você acompanhou muitas edições do Festival. Quais mudanças percebe ao longo desses 18 anos?
Camargo: O Festival já foi mais criativo, mais inovador e transgressor. Hoje ele é um pouco tí­mido e burocrático. O Festival era mais ousado, a cidade se modificava e os participantes eram mais artistas, mais experimentais. Hoje, eu vejo quase como uma festa: as pessoas vêm tomar vinho e brincar. Não vejo mais aquela curiosidade artí­stica experimental que eu acho que devia ser retomada. Talvez seja hora de diminuir um pouco o tamanho porque o Festival ficou imenso e não tem dinheiro para fazer uma coisa tão grande. Diminuir um pouco na quantidade, e melhorar na direção da qualidade.

Comunicação: Você foi secretário da Cultura de Antonina. Como foi essa experiência?
Camargo: Foi uma experiência interessante, mas que a princí­pio eu não quero repetir. É muito difí­cil, tem que ter um preparo muito grande. É um trabalho muito sério você ser um funcionário público, servir e respeitar a comunidade, mas as pessoas ocupam esses cargos sem estarem preparadas. Tomam isso para si e viram donas do espaço publico. Eu fiquei assustado, me vi também um pouco despreparado. Eu até consegui fazer algumas coisas, reorganizamos o Carnaval e alguns eventos, mas não consegui fazer uma base de resgate da memória cultural.

Rafael Camargo fez três apresentações do espetáculo <i>Pessoalmente  Fernando</i> em Antonina
Manuela Salazar
Hendryo André
Professor do curso de Jornalismo da UFPR. Orientador do Jornal Comunicação.
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