sex 22 out 2021
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Jeitinho brasileiro

Está no Código Brasileiro de Trânsito (CBT): Acostamento é a “parte da via diferenciada da pista de rolamento destinada à parada ou estacionamento de veículos, em caso de emergência e à circulação de pedestres e bicicletas, quando não houver local apropriado para esse fim”.
Foto: Eleonora Mendonça

 

Sinceramente, tenho muita dificuldade para entender por que as pessoas se vangloriam tanto do “jeitinho brasileiro”. Jeito malandro não leva ninguém a lugar nenhum. Na verdade leva. Leva a três lugares antes na fila do banco, a cinco carros para frente no congestionamento, ao assento do idoso no ônibus. Grandes conquistas. Admiráveis. E, inclusive, já virou um dom, uma marca do canarinho sagaz.

E esse tal jeitinho aparece principalmente em situações-limite do cotidiano. Coisas simples e pontuais que são visíveis aqui e acolá, o tempo todo. Afinal, somos todos burros e tem sempre um esperto.

Diga-me se andas pelo acostamento que direi quem tu és

Comecei toda essa reclamação em decorrência das últimas perspicácias que vivenciei no feriado da Proclamação da República. Já era sabido que para se deslocar de carro até a praia, e de volta para casa, iria levar mais horas do que de costume. Também, que inúmeras obras que estão sendo “realizadas” na BR iriam retardar ainda mais o fluxo de veículos.

Contudo, já no retorno para a capital paranaense, descobri que a situação não seria assim tão admissível. O congestionamento era muito maior do que o previsível e o suportável. Fazendo 4 km em uma hora e sabendo que havia quase trinta quilômetros de carros parados, o jeitinho brasileiro foi absolutamente colocado à prova.

E, sem surpresa alguma, ele reprovou. É de se agradecer que essa BR possui pista dupla. Mas, para o sagaz motorista detentor do jeitinho brasileiro, duas não foram suficientes. Ele foi para o acostamento. E não só ele, mas também toda a torcida do Flamengo. Chegando mais à frente, quem estava na pista correta tinha a obrigação de dar vez à malandragem. Era deixar o carro do “jeitinho” passar, ou mandá-lo para o barranco.

Não adianta reclamar dos “colarinhos”

De nada adianta ir às ruas, falar mal de políticos e pedir o fim da corrupção. Sinto muito. É inviável requisitar respeito por parte de quem representa o povo, ou deveria fazê-lo, se esse mesmo povo nem ao menos sabe se apresentar. Faz parte daquele velho ditado que se aprende na infância: “Não faça com os outros…”. É claro que se rouba na “cara dura”. Afinal de contas se fura fila e se estaciona em local proibido na “cara dura”.

Não há como questionar grandes problemas se ainda não nos resolvemos com os menores. E quem não pratica esse jeitinho brasileiro, também não parece tentado a questioná-lo. A passividade se mostrava tão grande quanto a malandragem.

O poder de uma câmera

O mais engraçado, ou triste, é perceber que há a noção de que essa ação que entra no pacote “jeitinho brasileiro” é algo indevido. Falo isso porque logo que a “festa da terceira fila” começou, peguei a câmera, abri o vidro e comecei a clicar logo que mais um automóvel “jeitinho” passava pelo meu lado (o do copiloto).

No mesmo minuto em que o indivíduo via a câmera para fora do veículo, apontada para a infração gravíssima (sete pontos e 574,61 reais) que estava prestes a cometer, jogava o carro para a segunda pista. Quem não conseguia entrar, enfiava o pé no acelerador rezando para a placa não aparecer na foto. E não foi um, não foram dois. Inúmeros “jeitinhos” tiveram a mesma reação. Aí vem a certeza: sabem que estão errados, mas fazem porque são malandros.

A luz no fim do túnel

Lembro-me que vi uma propaganda na televisão falando sobre o jeitinho brasileiro. Mas não esse que lhes venho descarregar minhas lamentações. Uma coisa mais verde e amarela que dá para se orgulhar.

A questão do sorriso, do abraço, da água no feijão, do sofá de dois lugares para cinco. Aí sim o jeitinho brasileiro é digno de ser chamado de dádiva. Não são só flores, tampouco só espinhos. E era esse jeitinho que preferia ver, sem deixar de lado o questionamento e a vontade de mudança. Por que não trocar um pelo outro?

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