dom 21 abr 2024
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Fringe traz artistas de vários lugares do Brasil e da América do Sul para Curitiba

Grupos chegam a percorrer 4.000 km para participar do evento

Não é só dos grandes espetáculos que o Festival de Curitiba vive. O Fringe , cartão de visitas e porta de entrada para muitos grupos independentes, é a parte que leva ritmo e cor para as ruas da cidade com apresentações gratuitas, trazendo artistas de todos os cantos do pais. Nesta edição, além de companhias brasileiras, a mostra, paralela à principal, conta com a participação de companhias vindas de países como Argentina, Bolívia, Chile e Peru.

Entre os mais de 300 espetáculos, tanto nas ruas quanto nos teatros, é fácil encontrar uma que você vá gostar. No entanto, o que poucos sabem é que por trás dessas produções cativantes há, muitas vezes, histórias de artistas que enfrentaram jornadas longas e desafiadoras para estarem no Festival.

Ao mesmo tempo que sua chegada representa um importante momento de troca cultural e artística, ela acaba revelando desafios logísticos e financeiros enfrentados pelas companhias. Estes vão desde os custos de deslocamento e estadia, até a adaptação aos diferentes espaços que irão se apresentar — seja a rua ou o palco. 

Um exemplo é o caso do grupo Flor de Chita, que percorreu cerca de setecentos quilômetros para chegar em Curitiba. Vindos de Catanduva (SP), eles passaram cerca de 11 horas em viagem de ônibus — transporte bancado por eles próprios. Apesar do Festival subsidiar a hospedagem, a alimentação e os gastos com a produção da peça ficaram por conta dos artistas.

Pela quinta vez no Fringe, o grupo traz peças com a temática do sertão nordestino. Este ano se apresentam com o espetáculo O Menino sem Lugar, adaptação de um trecho do livro “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa. Criado há quinze anos, o Flor de Chita é composto pelos atores Celso Zukovksi, Luana Scandelai, Lucas Alves, Martha Ocon, Rafael Back, Rafael Jorda e Yara Maria.

Flor de Chita já esteve presente em cinco outras edições do Festival de Curitiba, com ínicio em 2012. Fotos: Giovana Bonadiman.

A trupe, que apresenta sua peça de forma gratuita, conta que enfrentou dificuldades para vir a Curitiba. De acordo com o ator e integrante Lucas Back, o grupo teve que encontrar soluções fianceiras para custiar a viagem. “A gente pede patrocínio, põe dinheiro do bolso, trabalha um ano pra conseguir vir para cá, então é difícil, são cerca de R$ 6 mil”, revelou o ator.

Porém, mesmo com as dificuldades, Back enxerga o Festival como algo valioso e uma oportunidade de se criar uma relação de troca com outras companhias. “Tem grupos que nós conhecemos aqui, que levamos para lá (São Paulo), em um festival independente que fazemos.”

Grupo Flor de Chita apresentado Travessias de Guimarrães Rosa, no Fringe de 2023. Foto: Giovana Bonadiman

Mesmo sendo de outra região do país, o grupo não sente a necessidade de adaptação na forma de atuação. Os atores não negam o apreço pelos curitibanos e até mesmo fazem uma comparação com o público que tem em São Paulo. “Nós temos um choque porque no nosso município o público é um pouco difícil”, contou o ator e integrante Celso Zukovksi. Para os dois integrantes, o Festival de Curitiba aproxima as pessoas do teatro, o que resulta em plateias mais receptíveis na capital paranaense. “Aqui o pessoal é super parceiro, quando a gente vem pra cá, temos uma facilidade com o público”, completou Lucas Back. Em 2025, a companhia pretende voltar com a peça As Cores de Tarsila, para mais um ano de parceria.

Durante a apresentação, a trupe arrancou aplausos calorosos do público. Video: Giovana Bonadiman.

Pablo Aguiar, um viajante solo

Dando um passo além das fronteiras brasileiras, mas ainda dentro do Festival, podemos encontrar outras histórias parecidas com a do grupo Flor de Chita. Vestido de pipoqueiro e com um portunhol enferrujado, o ator argentino Pablo Aguiar prometia contar uma história ao público que caminhava pelo Passeio Público no último sábado (30). Logo o espectador era convidado a se sentar em um banquinho e olhar dentro de uma perfuração em uma caixa com um pequeno palco. Chamado de lambe-lambe, este é um estilo teatral genuinamente brasileiro, onde bonecos e objetos são usados para se apresentarem em espaços pequenos, como uma miniatura de palco dentro de uma caixa preta ou qualquer ambiente fechado.

El Niño Fantasma é uma peça lambe-lambe criada por Pablo Aguiar. Foto/Giovana Bonadiman
El Niño Fantasma é uma peça roterizada e produzida por Pablo Aguiar. Fotos: Giovana Bonadiman.

Marionetista desde 2005, Aguiar começou sua própria companhia, a Alquimia Títeres, em 2010. O artista veio de Rosário, cidade da província de Santa Fé, na Argentina, e mostrou seus talentos no Fringe pela segunda vez. Este ano, trouxe o espetáculo El Niño Fantasma, que fez parte da Mostra de Teatro de Formas Animadas de Rua – Animarua. Para custear sua estadia, ele contou com patrocínio privado e incentivos do governo argentino.

O ator conheceu o Festival de Curitiba por meio da companhia paranaense Trágica Cia de Arte, das dramaturgas Inecê Gomes e Jacques Beauvoir. O processo de levar sua arte para mais de 1700 quilômetros longe de casa começou na concepção: “Ao construir um espetáculo, já tem que ter pensado se quer levar para fora do país”, explica ao falar sobre as limitações de tamanho e peso dos equipamentos.

O Teatro Lambe-Lambe de Aguiar chamou atenção de quem circulava pelo Passeio Público. Vídeo: Giovana Bonadiman.

Para o engenheiro aposentado Nilo Reifur, que assistiu a peça, os estrangeiros parecem ter mais afinidade com a arte, principalmente em apresentações como a de Aguiar, em praças. Depois de prestigiar os amazonenses em “Caprichoso e Garantido”, no show de abertura, Nilo aproveitou a variedade dos espetáculos vindos de outras regiões para trazer os netos para prestigiar o evento. “É muito gostoso, são artes que vem desde a antiguidade e que a gente vê aqui, agora, na era da internet”, comentou. 

Entre os espectadores também estava o servidor público Matheus Mafra, que se impressionou com El Niño Fantasma. Para ele, a presença de artistas como Aguiar revelam a força do Festival: “Mostra como é relevante, que chama gente do Brasil inteiro, do mundo inteiro para se apresentar aqui e movimentar a cidade, é muito importante”. Mafra, que descobriu por Pablo que o lambe-lambe era um estilo brasileiro, se surpreendeu ainda mais ao saber que era tão difundido entre artistas sul-americanos – exemplo perfeito dessa troca de culturas proporcionada pelo Festival.   

Ainda que questionando a falta de apoio à arte de rua no Brasil, Pablo quer voltar mais vezes e elogia o público curitibano, “é um público muito atento, caloroso e colaborativo. Respeita muito o trabalho do artista”, relatou o artista argentino.

Por Emilly Cristina Domingues, Giovana Bonadiman e Rafael Maldonado.

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