qua 05 out 2022
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Jovens discutem geopolítica por meio de simulações de conferências da ONU

Por meio de debates da atualidade global, os participantes representam um Estado e argumentam com base nos interesses locais

As simulações da Organização das Nações Unidas (ONU) são eventos acadêmicos em que os alunos, chamados de delegados, representam países em comitês da ONU, como a Organização Mundial do Comércio ou Conselho de Segurança. Também podem ser representadas outras instituições internacionais, como a Organização dos Estados Americanos, e entidades nacionais, como o Supremo Tribunal Federal. Alguns dos participantes, ainda, atuam como membros da imprensa, como dos jornais internacionais Pravda ou Al Jazeera.

Nos eventos, que acontecem por todo o país, os estudantes de Ensino Fundamental, Médio e Superior podem desenvolver habilidades, discutir temáticas de relevância mundial e tentar solucionar conflitos através da diplomacia propondo resoluções. “Além de um certificado ou das experiências acadêmicas, as simulações representam uma forma diferente de enxergar o mundo, uma oportunidade de mudar os acontecimentos globais de maneira democrática”, conta a estudante Luiza Peres Krachefski, de 16 anos, que já participou de 20 edições.

Ela aponta que as simulações trouxeram uma mudança muito positiva em sua vida, bem como a transformaram em uma pessoa diferente. “Elas me trouxeram amizades de todos os lugares, amigos que eu considero demais. Os aprendizados sobre geopolítica, história e sociologia também mudaram a forma com que eu encaro os acontecimentos do mundo”, relata. 

Os delegados discutem questões relativas à globalização, como “Pirataria marítima no Chifre Africano”, “O Direito à educação para mulheres no Oriente Médio”, “Narcotráfico na América Latina” e “Bioética e modificações genéticas”. Existem também comitês que simulam como seria participar de uma discussão que ocorreu anos atrás. É o caso da experiência mais marcante de Luiza, quando um comitê da Liga das Nações sobre a eficiência do Tratado de Versalhes, para debater os efeitos do pós Primeira Guerra Mundial.

“Decidimos incluir a Alemanha em novas políticas, diminuindo as punições que quebraram o país na época. Se isso acontecesse na vida real, provavelmente a Segunda Guerra não teria os mesmos efeitos do que ocorreu, isso se a guerra realmente fosse travada”, argumenta a estudante. 

Morena Abdala, professora de Ciências Humanas, já foi secretária geral de simulações e é mentora do clube de simulações da Escola Internacional de Curitiba. Ela afirma que realmente os participantes pensam em soluções condizentes. “A gente já viu resoluções sendo feitas antes das reais da ONU e que tem a mesma coluna dorsal – o mesmo foco, mas menos estrutura até por causa do tempo e do que os alunos estudam pela própria idade”, explica. 

Os participantes, chamados de delegados, representam  países em comitês da ONU, como o Conselho de Segurança. Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal

A estudante de Relações Internacionais Nathalia Hruschka Marini, de 19 anos, mais do que de participar de cerca de 30 simulações, decidiu organizar os eventos próprios também. Para isso, criou o grupo MicroMUN, junto com a amiga Ana Clara Soares. De acordo com Marini, o objetivo é “democratizar o acesso às simulações”,  realizando edições gratuitas e online para estudantes de todo o país. “É uma conquista maravilhosa, a MicroMUN é uma escola para mim, eu aprendo todos os dias com a Micro. Eu tenho muito orgulho do que a gente se tornou, dos nossos princípios e de ver como ajudamos muitas pessoas com o projeto”, conta. 

Para ela, as simulações da ONU ajudam na formação profissional, tanto que foram essenciais para a estudante conseguir um estágio ainda no primeiro semestre da graduação. “Em simulações você aprende a lidar com conflitos, trabalhar em grupo e ter liderança,  isso são  vivências constantes no ambiente de trabalho. As simulações são um aprendizado constante, aprendo algo novo a cada uma que participo”, afirma.

A professora Morena Abdala concorda: “Quando você está fazendo um processo de entrevista de emprego para uma empresa, organização internacional, se você passou por uma simulação, ganhou prêmios, as menções, você tem mais chances de provar uma certa liderança com isso”.  

Como superar o medo

“Hoje, as simulações da ONU estão crescendo bastante nas escolas brasileiras. Antes era algo mais restrito. Temos uma expansão no mercado”, expõe Abdala. Com isso, muitas pessoas conhecem a atividade e têm vontade de simular, mas algumas têm receio de iniciar esse processo.

Em sua primeira experiência, Luiza Krachefski ficou nervosa e não conseguiu discursar muito. “Era um ambiente novo, então eu busquei observar como tudo funcionava, ao mesmo tempo que já senti que gostava de participar”. Nessas situações, ela recomenda que os interessados encarem esse medo, apesar de ser um processo complexo. “Todo o esforço é recompensado. A sensação de terminar um discurso, um comitê ou documento, de negociar e debater uma solução e de vestir uma roupa social são incomparáveis. Meu conselho é experimentar”, completa. 

Algumas simulações contam com treinamentos para familiarizar os delegados com a dinâmica do evento. No caso da MicroMUN, além do treinamento, também existe a tutoria. “Disponibilizamos tutoras individuais para cada participante durante todo o processo de simulação, assim tem sempre alguém da equipe disponível para tirar as dúvidas”, conta Marini. 

A estudante reconhece que os participantes sempre se aperfeiçoam durante o percurso, principalmente quando estão dispostos a aprender e viver essa experiência. “É extremamente gratificante ver a evolução dos participantes ao longo do evento, eu amo dar treinamento e tirar as dúvidas, para mim é a melhor parte”.

Chananda Buss
Estudante de Jornalismo na UFPR
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