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Notícia de um Sequestro: a relação entre o jornalismo literário e o realismo mágico

Uma narrativa jornalística que atravessa o simples relato dos fatos

Colômbia, 1990. Numa era do apogeu do narcotráfico e das guerrilhas paramilitares, o país sul-americano recebeu a pecha de ser o mais violento do mundo. Nesse cenário, as abundantes remessas de cocaína para os países desenvolvidos transformaram os cartéis colombianos em impérios, dos quais o poder público não tinha munição suficiente para vencer a batalha interna.

Em meio a uma crise de segurança nacional, a explosão de diversas bombas na cidade de Medellín, a morte de milhares de cidadãos, o assassinato de um candidato à presidência e o crescente clima de tensão foram considerados uma resposta à medida tomada pela classe política apoiada pela opinião pública: a extradição dos narcotraficantes para os Estados Unidos.

O livro “Notícia de um Sequestro” é uma obra sobre esta Colômbia com foco na captura de dez jornalistas renomados do país, visto como o plano mais complexo de Pablo Escobar e dos extraditáveis (união dos cartéis) contra o governo. O sequestro era uma forma de pressão e negociação visando adequar as condições estabelecidas na lei de extradição. Em troca, os narcos reivindicavam a proteção de seus familiares e dos seus negócios, além de condições específicas na rendição, como, por exemplo, uma cadeia de luxo projetada pelos réus.

Pablo Escobar foi um dos criminosos mais famosos do século XX e líder do tráfico de drogas na Colômbia nos anos 90. Foto: VIAVANT/SIPA

A partir deste caso que Gabriel García Márquez nos convida a conhecer as histórias e as angústias vividas pelos colombianos nos anos 1980 e 1990. De forma minuciosa, mas objetiva, o escritor insere o leitor na Colômbia da época e mostra um amplo contexto geográfico do país.

Rico em detalhes, a obra estimula os sentidos sensoriais ao mesmo tempo, promovendo um imaginário cinematográfico. É possível idealizar o odor característico dos quartos mofados e dos banheiros insalubres, além da sensação de desconforto pelo calor, pelo frio e pela sensação de fome. Nos diálogos, o uso de travessão afasta a imagem do escritor e da narração, aumentando a relevância das fontes no enredo. A interação é digno de um filme: abrimos o livro e, com Maruja Pachón e Beatriz Villamizar, também somos sequestrados e conduzidos para ruas desconhecidas de Medellín. Quando nos tiram os tapa-olhos, conhecemos o mísero lugar onde ficaremos até o final da leitura.

Categórica, a exemplificação demonstra o domínio do jornalismo literário em narrar fatos com assertividade e maestria. A organização de um livro que reúne relatos, diários, reservatórios de notícias e dados oficiais é uma tarefa complexa, mas Gabriel Garcia Márquez consegue fazê-la com eficiência. Apesar de ser necessário um maior conhecimento sobre o narcotráfico colombiano pelo leitor para uma melhor compreensão.

Gabo — o famoso apelido — é considerado um dos maiores nomes do realismo mágico, tendo a verossimilidade como uma forma de narrar eventos sem testemunhas, mantendo-se fiel aos fatos. Alguns críticos consideram essa prática como uma ferramenta do jornalismo literário, ao passo que outros argumentam que ela ultrapassa os requisitos de uma obra de não-ficção. O escritor sustenta que, na América Latina, tudo é possível e real, e que a literatura deve abordar sobre essa realidade, ao invés de seguir um caminho racionalizado.

Vivemos rodeados dessas coisas extraordinárias e fantásticas, e os escritores insistem em nos contar uma realidade imediata sem nenhuma importância. Creio que temos que trabalhar na pesquisa da linguagem e de formas técnicas do conto, para que toda a fantástica realidade latino-americana faça parte dos nossos livros e que a literatura latino-americana corresponda na realidade à vida latino-americana, em que acontecem as coisas mais extraordinárias todos os dias.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel, VARGAS LLOSA, Mario. Duas solidões: um diálogo sobre o romance na América Latina. 2022, p.12.

O autor apresenta uma narrativa com fontes distintas e recursos variados que resultam numa leitura fluida e dinâmica, como o relato dos sobreviventes e testemunhas, que revela um aspecto cinematográfico; as notícias da imprensa e as informações dos meios oficiais, que acrescentam um olhar informativo pragmático; e a verossimilidade nos detalhes e passagens, a qual é uma característica inerente aos princípios do jornalismo literário.

O doutor Guerrero havia esperado por ela no apartamento dos Villamizar, pensando que Maruja também seria solta e que as duas iriam para lá. Esperou com três copos de uísque até o noticiário das sete. Vendo que não chegaram, achou que se tratava de outra notícia falsa como tantas outras daqueles dias, e voltou para casa. Vestiu o pijama, serviu outro copo de uísque, deitou na cama e sintonizou a Radio Recuerdos para dormir ao arrulho dos boleros. Desde que começou seu calvário não tinha tornado a ler. Já em meio aos sonhos ouviu o grito de Gabriel.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. 2001, p.185

Dando nomes aos envolvidos

Dos dez sequestrados, três foram os protagonistas: Diana Turbay, Maruja Pachón e Alberto Villamizar. A jornalista Diana, primeira sequestrada, era editora do telejornal Criptón e da revista Hoy x Hoy, além de filha do ex-presidente da Colômbia, Júlio César Turbay. Diana, que demonstrava determinação e personalidade forte, tinha como objetivo exercer a profissão de jornalista em cativeiro, chegando a projetar entrevistas com Pablo Escobar. Durante o livro, a jornalista revelará sua curiosidade em relação à vida dos jovens encarregados de impedi-la de fugir. Essa atitude criará uma ligação profunda com diversos capangas que trabalham para os extraditáveis. Na ocasião em que seria resgatada, foi vítima de uma bala perdida em um confronto entre a polícia colombiana e os narcos.

Maruja trabalhava como editora do Focine quando foi sequestrada. Anos antes, em 1982, integrou a equipe da campanha presidencial de Luis Carlos Gálan — Galán foi assassinado a mando de Escobar sete anos depois. No cativeiro, a jornalista desenvolveu diversas nuances comportamentais: ora estava acomodada, ora elétrica e decidida a contestar a situação em que se encontrava. Esteve próximo da morte em diversas ocasiões, especialmente quando o segurança ‘Monge’ estava presente — este que tinha rancor da refém e desejava matá-la. A captura de Maruja pode ser considerada uma etapa crucial para a negociação, pois, além de ser uma comunicadora reconhecida, Maruja tinha uma ligação direta com a classe política colombiana.

Luis Carlos Galán, líder do Nuevo Liberalismo que concorreu à presidência da Colômbia em 1989, foi assassinado a tiros pelo Cartel de Medellín em um palanque. Foto: Vanguardia Liberal.

Villamizar, deputado do Nuevo Liberalismo, era uma das principais vozes a favor da extradição. De modo que, anos antes da onda de sequestros de jornalistas, o político havia sofrido uma tentativa de atentado sob a liderança do ditador Pablo Escobar, que só falhou graças aos detalhes que ultrapassam os limites do sobrenatural.

O livro apresenta o parlamentar como uma figura pública que mantinha uma ligação próxima com o presidente César Gaviria — membro da chapa de Galán, eleito após a morte do candidato —, o que o tornou um político de confiança do governo. A sua atuação teve um papel crucial na comunicação entre os extraditáveis, o congresso e o presidente, justificando a longa permanência de sua esposa no cativeiro durante sete meses. Além disso, a sua irmã, Beatriz, também foi sequestrada.

Maruja e Villamizar, de fato, têm ligações mútuas. Eles são firmes e corajosos. E é essa relação dará um caráter divergente da não-ficção à obra, que se aprofundará em diversas passagens típicas dos romances. Alberto Villamizar é um personagem central no enredo, uma vez que demonstra resiliência em lidar com a complexidade diante de um estado de alerta, apesar da sua vulnerabilidade emocional. É ele quem está em todas as articuladores entre governo e extraditáveis. A leitura revela que todos os setores colombianos (políticos, midiáticos e sociais) têm dificuldades para encontrar soluções efetivas para o acordo sem mortes e sangue.

As feridas abertas da América Latina

A desigualdade social é uma característica marcante da literatura latino-americana que emergiu no século XX nas obras de Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Eduardo Galeano e outros. Apesar de os tempos terem mudado, os problemas permaneceram os mesmos. Sob a tutela dos cartéis, uma grande parte dos colombianos vislumbravam uma imagem popular de homens como Pablo Escobar, que, ao oferecer benefícios materiais e financeiros, conseguia um apoio amplo das classes desfavorecidas.

O mais difícil para todos, sem dúvida, foi aprender a conviver com os guardiães. Os de Maruja e Beatriz eram quatro jovens sem nenhuma formação, brutais e instáveis, que se revezavam de dois em dois a cada doze horas, sentados no chão e com as metralhadoras preparadas. Todos com camiseta de propaganda comercial, tênis e bermudas, que às vezes eram calças recortadas por eles mesmos com tesoura de jardim.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. 2001, p.69.

O presente cenário pode ser considerado um único caminho para os homens que passavam fome e não tinham perspectivas de vida. A aceitação de integrar os serviços do crime era vista como uma maneira viável de assegurar o sustento dos familiares e acesso aos itens que proporcionavam uma ascensão social. Qual a diferença entre esta realidade e a de outros países latinos, como o Brasil, o México, a Venezuela, a Bolívia e o Haiti?

A condição comum era o fatalismo absoluto. Sabiam que iam morrer jovens, aceitavam esse fato, e só se importavam em viver o momento. As desculpas que davam a si mesmos pelo seu ofício abominável era ajudar a família, comprar boa roupa, ter motocicletas — e velar pela felicidade da mãe, que adoravam acima de tudo e por quem estavam dispostos a morrer.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. 2001, p.69 – 70.

Uma das principais mensagens diz respeito à conexão entre a política e a segurança pública com o crime organizado colombiano. Este é um desafio intrincado e similar em todos os países latino-americanos subdesenvolvidos e com estruturas democráticas fragilizadas.

Notícia de um Sequestro apresenta uma série de elementos socioculturais da Colômbia que estão intimamente relacionados, como o narcotráfico e a classe política, a mídia e a religiosidade. Esses elementos serão fundamentais na construção da narrativa do livro, bem como na contextualização historiográfica do país.

No que diz respeito às interações entre o narcotráfico e a política nacional, Colômbia sofreu — e ainda sofre — um estigma no funcionamento do estado democrático de direito, o que se deve aos constantes embates do Estado com as frentes guerrilheiras e os narcos. Com a lógica dos “inimigos internos”, a sociedade vive em constante alerta e fica a mercê da ação do Estado, dando-lhe outorga para tomar medidas protetivas na área da segurança pública.

Outro problema intrínseco é o entendimento do poder que os narcos encontraram na política, o que os permitiu continuar com seus negócios com potencial de expansão imperial.

A Colômbia não havia tomado consciência de sua importância no tráfico mundial de drogas até que os narcotraficantes entraram na alta política do país pela porta traseira, primeiro com seu crescente poder de corrupção e suborno, e depois com aspirações próprias. Pablo Escobar tinha tentado se insinuar no movimento de Luis Carlos Galán, em 1982, mas Galán tirou-o das listas de candidatos e o desmascarou em Medellín diante de uma manifestação de cinco mil pessoas. Pouco depois Escobar chegou como suplente à Câmara de Deputados por uma ala marginal do liberalismo oficialista, mas não esqueceu a afronta e desatou uma guerra mortal contra o Estado, em especial contra o Novo Liberalismo.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. 2001, p.28 – 29.

A mídia colombiana teve um papel essencial na conexão entre os reféns e o mundo externo. Nesse aspecto, a imprensa deixou um espaço considerável na programação para falar sobre o caso, trazendo os seus familiares e mostrando as suas casas. De certa forma, essa comunicação reconfortava os reféns — que tinham acesso aos televisores e jornais —, pois era adotada uma linguagem direta e pacificadora, transmitindo um sentimento aos sequestrados de que, em breve, voltariam à normalidade.

O catolicismo, considerado um poder divino pelos narcotraficantes, revela uma faceta de Pablo Escobar e seus homens, que, em diversas ocasiões, citam nomes de santos, guardam objetos religiosos e até frequentam as missas.  Além disso, era comum que os matadores buscassem os templos religiosos para pedir proteção nas execuções, ou para que não houvesse obstáculos na exportação das drogas. Essa aproximação é compartilhada por outros países latinos, e pode ser interpretada como um legado da colonização europeia.

Antes das despedidas, Escobar pediu-lhe a bênção para uma medalhinha de ouro que usava no pescoço. O padre benzeu-a no jardim assediado pelos guarda-costas. — Padre — disseram eles —, o senhor não pode ir embora sem benzer a gente. Todos se ajoelharam. Dom Fabio Ochoa havia dito que a mediação do padre García Herreros seria decisiva para a rendição do pessoal de Escobar, que na certa devia achar a mesma coisa e por isso se ajoelhou com eles para dar o bom exemplo. O padre abençoou todos e soltou-lhes uma advertência para que voltassem à vida legal e ajudassem o império da paz.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. 2001, p.268 – 269.

O título do livro pode ser interpretado como uma referência aos perfis sequestrados — jornalistas renomados —, como se os extraditáveis desejassem notificar os sequestros na grande imprensa, o que se tornaria uma arma poderosa para a negociação. Afinal, se não fosse noticiado, não haveria relevância; e se não tivesse relevância, a extradição não seria revisada.

Gabriel García Márquez, através deste livro, apresenta uma história densa e fidedigna com qualidade, precisão e, sobretudo, discrição profissional. É importante reconhecer a capacidade do escritor de transitar com eficiência entre o jornalismo e a literatura, o que o torna um dos melhores escritores do mundo e um dos precursores do jornalismo literário na América Latina.
          

REFERÊNCIAS

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. Tradução: NEPOMUCENO, Eric. 1º edição. Rio de Janeiro: Record, 2001.

GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel, VARGAS LLOSA, Mario. Duas solidões: um diálogo sobre o romance na América Latina. Tradução: NEPOMUCENO, Eric. 1º edição. Rio de Janeiro:Record, 2022.

Eric Rodrigueshttps://ericrodrigues.portfolial.com
Estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
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Eric Rodrigueshttps://ericrodrigues.portfolial.com
Estudante de jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
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