seg 18 out 2021
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O carnaval de Curitiba é um horror

Foto: Mariana Ceccon
Ataque zumbi em Curitiba
Foto: Mariana Ceccon

No princípio eram vinte e cinco. Agora já são dez mil. Assim como nos filmes apocalípticos, os zumbis se espalharam pela capital paranaense em uma velocidade impressionante.  A já tradicional Zombie Walk de Curitiba, realizada no último domingo (10), reuniu mais de três mil pessoas na Praça Osório para uma caminhada até as Ruínas de São Francisco. A forte chuva, protagonista do evento, espantou outros sete mil participantes que haviam confirmado presença pelas redes sociais.

Este ano, além da caminhada, os entusiastas dos mortos-vivos contaram com uma mostra de filme de terror batizada de Grotesc-O-Vision. Entre os dias 8 e 11 de fevereiro foram exibidos 14 títulos nacionais e internacionais, muitos deles inéditos, na Cinemateca de Curitiba. Diante de tantos fãs de filmes de zumbis e foliões ensanguentados no centro da cidade, o Jornal Comunicação foi investigar porque esses monstros viraram frisson entre os curitibanos.

Trocando finados pelo carnaval

A primeira edição da Zombie Walk, em 2008, foi realizada no dia de finados, a data oficial do evento em todo o mundo.  Um ano depois, os organizadores da caminhada em Curitiba, Flávia Noguera e Docca Soares, receberam um convite de um dos produtores do Psycho Carnival, Wallace Barreto, para incorporar a Zombie Walk nas comemorações carnavalescas. Não deu em outra. Desde 2009 o número de pessoas só vem aumentando, chegando a cinco mil no ano passado.

A produtora Flávia Noguera explica que cada vez mais pessoas procuram alternativas para se divertir em Curitiba, sem enfrentar trânsito e grandes multidões. A Zombie Walk se encaixa muito bem para quem está atrás desta comodidade.  “Muita gente diz que a Zombie Walk é um protesto contra o carnaval tradicional, mas não tem nada a ver. Não temos nada contra o samba ou desfiles, é só uma opção diferente de curtir a data”, afirma Flávia.

Além de ser diferente, é uma opção tranquila. A caminhada é segura e silenciosa – exceto por um grito ou outro proveniente de algum zombie que incorporou a personagem. Desde a primeira edição nenhuma ocorrência policial foi registrada.

Mas o que leva tanta gente, por vezes famílias inteiras, às ruas procurando as maquiagens horripilantes e as roupas esfarrapadas? Para Flávia é a vontade de fazer parte de um dos filmes hollywoodianos sobre o tema. “Zombie está na moda, saíram muitos filmes e séries e todo mundo quer entrar no personagem”, resume a organizadora do evento.  Todavia, há aqueles que preferem fazer cosplay, fantasiar-se de personagens de HQ’s, filmes e jogos.  Mesmo os que capricham nessa modalidade de fantasias não dispensam uma cicatriz no rosto. Quem passou pela Praça Osório nesse dia pôde conferir uma variedade que vai desde Amy Winehouse zumbi até o pirata Jack Sparrow recém-desenterrado.

Cinema com ducharada de sangue

Quando o diretor de teatro e cinema Paulo Biscaia Jr. foi convidado pelo produtor Docca Soares para realizar uma mostra de filmes grotescos, já era dezembro. Em um prazo curtíssimo e inspirado no Festival Internacional de Filmes Fantásticos de Bruxelas, o cineasta programou uma tarde de filmes de zumbis para acompanhar a demanda do público da Zombie Walk. Uma tarde de exibições virou quatro dias, com direito a filmes inéditos e consagrados, como “Mangue Negro” de Rodrigo Aragão.

Curitiba é conhecida por ter as piores bilheterias quando o assunto é cinema nacional e quando o tema envolve filmes de horror o mercado é ainda mais complicado. Inesperadamente a Grotesc-O-Vision foi um sucesso. O ápice do evento foi o filme “Nervo Craniano Zero”, do próprio Biscaia Jr. nas Ruínas de São Francisco. O áudio do filme poderia ser ouvido sincronizando em uma frequência de rádio FM, na mesma lógica dos drive-in americanos.

Para Ian Teodoro, 19 anos, um dos expectadores da mostra, a Zombie Walk e a Grotesc-O-Vision estão crescendo porque as pessoas gostam do grotesco. “É mais pela pira de se fantasiar e sair pelas ruas como nos filmes”. Ele se diz um entusiasta dos filmes de terror e participou de outras edições da caminhada dos mortos.

“Curitiba está criando uma cara para o carnaval, que é a cara do eclético”, caracteriza Biscaia Jr. O diretor aposta que a experiência dos filmes atraiu o público para as exibições. O próprio “Nervo Craniano Zero”, exibido na mostra Blood-O-Rama, também na Cinemateca , ofereceu capas de chuva ao público, que recebia um jato de sangue artificial junto com as cenas sanguinolentas do filme.

Já para o estudante Lorenzo Zanetti, 18 anos, a Grotesc-O-Vision foi o primeiro contato com a experiência do carnaval alternativo. Junto com um grupo de amigos, o estudante que ficou sabendo da mostra pelo site da Fundação Cultural, assistiu aos filmes da mostra e cogitava a possibilidade de fazer parte da Zombie Walk também.

Se depender da animação do público e do cineasta Biscaia Jr. o Grotesc-O-Vision terá vida longa nas telas da capital.  Mesmo não tendo uma confirmação oficial ainda, o diretor revela que seu desejo é levar os filmes grotescos como mais uma opção para brincar o carnaval, além dos desfiles e blocos de rua.

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