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A luz vermelha de Eliane Prolik

Ao passar pelo primeiro andar da torre rumo ao “Olho”, no Museu Oscar Niemeyer, dá para ouvir: logo ao pé da escada, a trilha sonora sinuosa – gravação ao contrário de um violão – do vídeo que transporta para dentro de um universo vermelho. A representação do fluxo sanguíneo ou do trânsito caótico dos carros a noite é o trabalho da artista plástica Eliane Prolik na Bienal Internacional de Curitiba, neste ano com a temática “Luz do Mundo”. As obras de artistas nacionais e internacionais então em mais de 100 lugares na cidade, entre museus, centros culturais e galerias.

Para Eliane, a luz é parte fundamental de suas obras. “Ela relativiza e ao mesmo tempo intensifica seu estado do aqui e agora” (Foto: Divulgação)
Para Eliane, a luz é parte fundamental de suas obras. “Ela relativiza e ao mesmo tempo intensifica seu estado do aqui e agora” (Foto: Divulgação)

Eliane Prolik expõe suas obras tridimensionais há mais de 30 anos, sua produção se conecta com elementos da vida urbana. Expõe em várias cidades do Brasil e outros países.  Em entrevista exclusiva, conta sobre seu trabalho na Bienal, dá dicas de outras exposições pela cidade e fala sobre o cenário artístico curitibano.

Jornal Comunicação: Qual o significado da sua exposição na Bienal deste ano?

Eliane Prolik: Esse é um trabalho que eu venho me interessando há uns dois anos. Ele é basicamente uma pesquisa, um andar pela cidade e perceber esse fluxo que os faróis vermelhos de carros fazem na cidade. Principalmente tentar olhar mais profundamente ou mais detalhadamente sobre esses faróis. A luz vermelha enquanto invasão, enquanto presença, acaba se relacionando com nosso próprio fluxo orgânico, visceral, da própria libido ou até intrauterino.

JC: Como foi o processo de montagem da obra?

EP: Existe uma parte do trabalho que é um grande painel de acrílico vermelho transparente, que na verdade não é um objeto, mas um conjunto de objetos que  se tornam uma arquitetura e essa arquitetura também é rebatida por uma parede em  curva de espelhamento, propondo que a gente  veja as coisas não só de uma única forma. Acho muito importante colocar o corpo, a escala humana, dentro disso, e por isso além dos reflexos do próprio trabalho nessa grande parede espelhada, existe o reflexo do espectador se olhando, imerso nesse ato de percepção e leitura. O trabalho tem um vídeo feito com fotografias de olhar muito próximo: uma lente macro dos faróis de uma infinidade de veículos. É a primeira vez que eu exponho um vídeo e eu acho que esse trabalho pedia mesmo isso, porque se ele rouba da cidade um fluxo urbano – que significa falar de um fluxo que é nosso, interno – ele também tinha que ser um fluxo, também tinha que ter esse tempo, essa duração.

JC: Em relação à temática da Bienal deste ano, a “Luz do Mundo”, como você vê a presença da luz na arte e a luz como arte?

EP: Quando se fala em artes plásticas se está falando de uma visibilidade, da construção de uma herança artística e cultural que acontece através da construção da visualidade, e sem luz a gente não enxerga. Eu acho que nessa Bienal todos os trabalhos têm uma densidade muito grande para ser experimentada. São trabalhos que valorizam a sua presença, seu instante de leitura e afinidade com o trabalho.

“É o olho que cansa de estar na cidade e o horizonte é o farol de carro que está na sua frente”, explica Eliane sobre sua exposição. (Foto: divulgação)
“É o olho que cansa de estar na cidade e o horizonte é o farol de carro que está na sua frente”, explica Eliane sobre sua exposição. (Foto: Divulgação)

JC: O cenário da vida urbana está sempre presente nos seus trabalhos, seja nos elementos e materiais da cidade que você utiliza para criar as exposições dentro de museus e galerias, seja como manifestação artística na própria cidade. Qual a importância dessa ressignificação no campo das artes com o crescimento das intervenções urbanas em Curitiba?

EP: Quando a produção está sendo executada, ela vem captar e se instaurar dentro da cidade. A cidade de Curitiba está muito vigorosa neste sentido. Existem alguns artistas que dão conta de colocar a cidade dentro de um trabalho e o trabalho dentro da cidade.  Isso é cultura, isso é arte. Eu não crio fechada dentro do ateliê, eu crio andando na cidade. Eu gosto muito de pensar nesta abrangência do corpo humano. O nosso corpo está imerso na cidade, e relatar isso de uma forma poética dentro da produção, trazer elementos que estão por aí – que não fazem parte do mundo da arte em especifico – para dentro do museu e tentar remeter exatamente a esta experiência urbana, é muito importante.

JC: Como você vê o cenário artístico curitibano?

EP: Você percebe até por esse evento da Bienal, com inúmeras exposições em vários espaços, que há um interesse, uma consolidação do meio artístico. Bolsas, residências ou leis de incentivo vão dando vigor e possibilidade a essa produção. Ainda falta um corpo teórico sobre essa produção histórica do Paraná, mas as obras têm uma produção de qualidade. Curitiba é muito pulsante, mas precisamos nos conhecer um pouco melhor através de nossos trabalhos, através de uma leitura crítica deles e da nossa história dentro das artes plásticas. O olhar do outro, daquele que não é de Curitiba, sobre nossa arte é muito gratificante e é o que vai causar mudanças e vai levar os trabalhos também para fora.

JC: O que está achando da Bienal neste ano? Indica as outras exposições?

EP: Tenho várias dicas. Existem trabalhos muito potentes e importantes dentro da arte internacional, por exemplo o trabalho do Dan Flavin, que está exposto no MON. Uma obra-prima, realmente muito representativa. Ela coloca em xeque onde você está, como se prolifera e como se dá sua presença no mundo. É um trabalho antigo com uma potência tão bem construída que não ficou datada. Este é um trabalho fundamental para mim. Também o trabalho que está na Catedral, do Bill Viola, um dos grandes artistas da linguagem da vídeo-arte. É importante [a obra] estar naquele lugar [catedral], porque todo o silêncio que lá existe é necessário para o trabalho, você não sai de lá como entrou.

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Ombudsman: Os critérios da notícia

Qualquer jornalista que batesse os olhos no site nos últimos dias provavelmente teria a mesma impressão que eu tive ao vistoriá-lo para dar o primeiro palpite pós-greve: o olho pulou quando surgiu a manchete anunciando uma exclusiva do delegado Igor Romário, um dos principais nomes da Lava Jato. Primeiro: palmas e loas a todos os envolvidos.

Pode ser que nem seja a preferência de vocês. Exclusivas, digo. Isso de entrar no noticiário do dia e tentar achar algo que só vocês fizeram, meio que furar a imprensa. Ainda mais em política (quantos de vocês querem fazer jornalismo de política? Não faço a menor ideia, mas serão bem-vindos ao clube).

Fato é que eu, pelo menos, fui direto lá. Ouvir o delegado. E a entrevista estava bem feita. Dentro das formalidades, com perguntas interessantes. Até minha primeira reação foi de me perguntar por que isso não estava na manchete principal. Por que vocês não transcreveram e aproveitaram para fazer também em texto? A gente tem que ordenhar bem a vaquinha leiteira: quando acha um furo como esse, tem que fazer render. Cacarejar, alardear. Dar o devido valor.

Digo isso como um elogio. Vocês ainda estão no começo de carreira. Que nada! Estão antes do começo da carreira. E às vezes acertam coisas como gente grande. Não é fácil. E não vai ser sempre. Mas neste mundo digital em que tanta coisa é ruído, repetição, é bom ver algo novo.

E não precisa ser algo ligado ao noticiário, aos fatos quentes. A matéria sobre tatuagem escapa ao estilo hard News mas traz também algo que as pessoas podem não ver no jornal. Original. Não redundante. Lembrem sempre: a redundância é a morte do jornalismo.

Quando fui ombudsman deste jornal pela primeira vez, anos atrás, sugeri uma ideia que não foi acatada. Como sou teimoso (e tenho poucas ideias) aproveito o bote para fazer novamente a mesma proposta. Por que não se aprofundar em um assunto, ou em uns poucos, e tornar o Comunicação referência neles. Não é preciso deixar de ser generalista para isso.

Imagine que alguns de vocês se interessem por transporte coletivo. Ou feminismo – ou algo mais específico, como a polêmica do excesso de cesáreas no país. Ou sobre teatro curitibano. Seria absolutamente genial vocês fazendo pedidos de informações (por meio da Lei de Acesso a Informações, perguntem aí pros professores); lendo Diários Oficiais; indo a seminários específicos; descobrindo pesquisadores e relatórios de fora do país. E se transformando em uma referência para algo.

Quem quisesse saber mais sobre latrocínios em Curitiba ia dizer: peraí, dizem que onde tem esses dados é no jornal da UFPR. O melhor lugar para saber de tatuadores profissionais? Dizem que tem um site de uns estudantes sobre isso.

Eu, particularmente, acho muito melhor a gente saber mais de algumas poucas coisas e se aprofundar nelas (sem perder a curiosidade e o gosto pelo geral) e poder ajudar a aprofundar um debate. Ajudar as pessoas a conhecer o mundo em que elas vivem, esse é o desafio do jornalismo. Quanto mais original e mais completa, quanto mais profunda e confiável for a informação que vocês derem às pessoas, melhor estarão fazendo esse belo trabalho em que vocês estão se iniciando.

 

Rogerio Waldrigues Galindo é jornalista formado pela UFPR e trabalha na Gazeta do Povo como repórter e colunista.

Projeto de lei de Cunha quer exigir queixa na polícia antes de atendimento de mulheres vítimas de violência sexual

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, lançou, no mês passado, um projeto de lei que restringe o atendimento a vítimas de violência sexual no Sistema Único de Saúde, o SUS. De acordo com o novo texto, as mulheres teriam a obrigação de prestar queixa da polícia antes de receber atendimento, e a concessão de medicamentos atualmente obrigatórios, como coquetéis anti-AIDS e pílula do dia seguinte não seria mais realizada. O Projeto propõe também o fim da prerrogativa de aborto por parte da mulher em casos de estupro.

Direito de não se expor

Para Xênia Mello, formada em Direito pela UFPR, esse projeto de lei é um retrocesso, quando se considera que a vítima sempre tem o direito de não fazer o Boletim de Ocorrência: “é direito da vítima não querer denunciar, em razão de que uma ação penal pode lhe trazer muito mais sofrimento. Ela pode reviver a violência”, explica. “Se entende, no Direito, que os casos de violência sexual trazem à tona questões de muita intimidade, por isso a mulher tem o direito de não prestar queixa. Também devemos considerar que as delegacias não têm capacitação e sensibilidade pra entender as mulheres vítimas de violência”, completa.

Além da exposição da mulher, Xênia enfatiza os ricos da não medicação e cuidado para com as mulheres: “o mais grave desse projeto é que ele limita o acesso aos medicamentos antirretrovirais, que são muito importantes para evitar DSTs, como a AIDS. O Projeto é extremante violento em relação às mulheres”, destaca a advogada.

Os atendimentos atualmente

Para a enfermeira Rosane Ferreira o Projeto seria um equívoco, “os profissionais de saúde não estimulam a realização de abortos, apenas orientam vítimas de violência, como estupros, de seus direitos legais”. Atualmente, mulheres e adolescentes vítimas de violência sexual são atendidas em instituições hospitalares onde são examinada e submeidas a exames laboratoriais. Então, recebem os medicamentos necessários para prevenir doenças sexualmente transmissíveis como a AIDS e uma possível gravidez indesejada.

A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) cedeu à pressão e tirou o Projeto de pauta, mas ele volta a ser discutido nessa semana Foto: Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados
A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) cedeu à pressão e tirou o Projeto de pauta, mas ele volta a ser discutido nessa semana
(Foto: Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados)

A posição do Projeto

O texto do Projeto de lei enfatiza que isso seria um mecanismo que refrearia a prática de aborto, que, segundo o PL, é estimulada pelo Poder Público em alguns casos. Por exemplo, atualmente o aborto em casos de estupro é legalizado, ou seja, se a mulher afirma ter sido violentada, ela é totalmente amparada pela lei e o Estado para fazer o aborto.

O Jornal Comunicação tentou entrar em contato com a liderança do PMDB em busca de uma declaração sobre o projeto, mas o partido se absteve de comentários.

 

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Jogo criado por alunos da UFPR ajudará no desenvolvimento de crianças autistas

Aplicativo está sendo desenvolvido para aparelhos celulares com Android Foto: Divulgação/PET Computação
Aplicativo está sendo desenvolvido para aparelhos celulares com Android
Foto: Divulgação/PET Computação

No começo do ano, os alunos participantes do PET de Computação da UFPR começaram a criar um jogo que auxiliasse crianças de seis a dez anos de idade com autismo. A sugestão de trabalhar com esse público surgiu de uma ex-participante do projeto que tinha contato com autistas. Eles desenvolvem o jogo chamado J.A.P.A, Jogo de Apoio Psicológico para Autistas.

Para a criação e o conteúdo dessa plataforma, os estudantes entraram em contato com a psicóloga Cristiane Dluhosch, que orientou a utilização de exercícios e temáticas baseadas no método Sonrise. Esse método funciona através de recompensas e usa o que a criança autista preferir, sejam objetos, desenhos ou outras coisas. Cristiane fala dos resultados que esse método causa: “Quando você faz isso, ajuda ele, ele entende que consegue fazer as coisas e que as coisas que ele precisa fazer podem ser prazerosas. Porque as crianças autistas são hipersensíveis a sons, imagens e toques, então poucas coisas dão prazer a elas”.

A participante do projeto Ana Vilela Silva explica como foi a orientação com a psicóloga e as necessidades supridas no jogo em relação ao conteúdo que deveria ser utilizado: “A gente pegou a orientação dela para saber que tipo de habilidades a criança tinha que desenvolver ao longo do jogo. Tanto como chamar a atenção quanto, por exemplo, identificar expressões faciais, que ela falou e achou que era importante trabalhar”, ressalta.

O jogo contará basicamente com quebra-cabeças de vários níveis de dificuldade para as crianças explorando vários campos importantes no desenvolvimento dos mesmos. Ele está sendo desenvolvido para celulares com o sistema operacional Android.

Este foi o maior desafio da equipe, pois é uma plataforma nova e mais difícil de trabalhar, como relata Ana: “Acho que (o maior desafio) foi se adaptar à ferramenta. Porque a gente quis usar uma plataforma de trabalho diferente, que é trabalhar com jogos para Android. Não é uma coisa que a gente aborda naturalmente na faculdade, então a gente teve que estudar por fora pra se desenvolver”, afirma.  A previsão dos participantes do PET de Computação é de que o jogo seja terminado e lançado no meio de 2016.

Autismo

O autismo é um transtorno de comportamento, que pode ser de origem genética ou biológica. Não há um diagnóstico simples para o transtorno, mas é notado por sintomas gerais. A criança, desde muito nova, pode não apresentar contato visual com a mãe, demorar em aprender a falar e andar ou não querer falar. Evita o contato com pessoas e se irrita ou se incomoda com esses contatos.  Geralmente ocorre mais em meninos e em crianças. Para um diagnóstico seguro, são recomendados sempre dois ou mais especialistas para avaliar a pessoa e dizer se ela realmente é autista.

Há três níveis de autismo que são considerados nas avaliações médicas. Uma pessoa pode ter autismo leve, moderado ou grave. Nos casos mais leves, o indivíduo consegue se expressar e, através do tratamento e acompanhamento com especialistas, convive  socialmente sem se sentir incomodado. Já existem casos mais graves aonde a pessoa se comunica menos ou nem se expressa. Há dificuldades motoras e os fatores externos, como sons e interações pessoais tendem a mudar o temperamento da pessoa com autismo.

Apesar da sociabilidade e comunicação poderem ser afetadas pelo autismo, muitos autistas têm uma inteligência acima do normal, com tendência a serem superdotados em uma determinada área do conhecimento.

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“Que horas ela volta?” questiona relações de trabalho entre empregadas domésticas e patrões

Regina Casé e Camila Márdila retratam bem o conflito entre mãe e filha que, após anos separadas, criaram visões de mundo opostas (Foto: Divulgação)
Regina Casé (direita) e Camila Márdila (esquerda) retratam bem o conflito entre mãe e filha que, após anos separadas, criaram visões de mundo opostas
(Foto: Divulgação)

“Você é quase da família”, é o que a empregada Val (Regina Casé), personagem principal de “Que horas ela volta?” (Anna Muylaert, 2015), ouve de seus patrões – com os quais ela mora. Ingenuamente ela acredita nisso, até a chegada de sua filha Jéssica (Camila Márdila) mostrar-lhe que não é bem assim.

Por trás do ar ingênuo transmitido pelo seu trailer e pela presença carismática de Regina Casé, “Que Horas Ela Volta?” – filme escolhido para representar o Brasil no Oscar – traz uma reflexão necessária sobre a controversa relação existente no Brasil entre patrões e empregadas domésticas, especialmente as que “moram no serviço”, como Val.

Obrigada a deixar a filha para trás após sair de Pernambuco e se mudar para São Paulo em busca de emprego, a personagem trabalha inicialmente como babá e depois como empregada doméstica na casa de Fabinho (Michel Joelsas), um adolescente que possui uma relação muito mais forte com Val do que com sua mãe biológica, a socialite Bárbara (Karine Teles). Após mais de dez anos de serviço, Val está acomodada com os limites impostos para sua convivência com os patrões, jamais considerando cometer tais “afrontas” como nadar na piscina ou comer sentada à mesa.

Eis então que ela recebe um telefonema de Jéssica. Agora uma adolescente de dezessete anos, ela decide vir a São Paulo para prestar vestibular. Sem um lugar para morar ainda, Jéssica se muda provisoriamente para a casa da mãe – ou seja, a casa dos patrões desta. É aí que começa o conflito. Ao contrário de Val, que considera as desigualdades e separações entre ela e seus patrões como naturais (“Isso aí ninguém precisa explicar não, a pessoa já nasce sabendo”), Jéssica foi ensinada a acreditar em mudanças sociais e na realização de seus próprios sonhos. Assim, para enorme horror de Val e de seus patrões, a menina chega na casa deles querendo ser tratada como uma hóspede e não como mera “filha de empregada”, falando e agindo de igual para igual com seus hospedeiros.

Anna Muylaert soube transformar, através de sua direção, o que parecia um roteiro leve e com desfecho óbvio em uma obra cheia de uma tensão que, mesmo nos momentos cômicos, está sempre presente. Ela ressalta isso por meio da ausência de qualquer trilha sonora durante a maior parte do filme e da fotografia que, combinadas, dão ao público uma ideia do mundo quase claustrofóbico de Val – reduzido apenas ao corredor e a alguns poucos cantos da mansão em que mora.

Tal tensão também não seria possível sem o trabalho compromissado do elenco, principalmente por parte de do trio Casé-Márdila-Teles, que dão vida a um conflito que raramente é expresso em palavras, apenas através de olhares mordazes e expressões de choque e desgosto. Isso faz com que o público não se preocupe exatamente em como será o desfecho do longa mas sim com o que fará essa bolha de conflitos estourar. Será quando Jéssica nadar na piscina? Será quando o marido de Bárbara (Lourenço Mutarelli) flertar com a menina? Será quando ela criar gosto pelo sorvete de chocolate com amêndoas reservado a Fabinho?

Como nas melhores histórias de suspense, o mais interessante não é o final, mas sim como se chega a ele. E, como nos melhores filmes nacionais, a crítica social presente não é abordada de forma didática, mas sim de uma forma que faz o público pensar nas empregadas e babás que conhece, se perguntar o que elas pensam de seu trabalho e o que tiveram que sacrificar para realizá-lo.

Confira o trailer:

 

 

A vida na pele

As tatuagens sempre foram um assunto polêmico. Uma pesquisa feita pela revista SuperInteressante em 2013 comprova esse fato: dos 80 mil entrevistados, a maioria dos tatuados do Brasil são jovens, com ensino superior completo e boa remuneração. Mas essa informação não fica só no quantitativo. Alguns depoimentos recolhidos ilustram algumas situações, podendo ser inusitadas, de algum tipo de realização pessoal, ou de problemas com o trabalho. E foi pensando em mudar um pouco essa visão que a fotógrafa e publicitária Louyse Gerardo criou o projeto “Life by the skin”.

Making of do documentário Life by the Skin (Créditos: Life By The Skin)
Making of do documentário Life by the Skin (Foto: Life By The Skin)

Com o foco em desmistificar as tatuagens, o projeto pretende mostrar o cotidiano dessas pessoas que possuem esses traços na pele. Iniciado por uma motivação de mudar seu rumo fotográfico quando Louyse realizava eventos e casamentos, a ideia surgiu nas primeiras fotografias de tatuagens. “No começo eu fotograva pela arte, mas foi ouvindo algumas histórias de amigos que percebi como ainda tem muito preconceito”, conta. Começando no interior do Rio de Janeiro, com amigos e indicações próximas, o Life by the Skin tomou forma.

Uma das pessoas indicadas foi Hugo Dalmon, professor de português e escritor. Hugo foi um dos primeiros a participar do projeto.  Por causa de seu gosto por literatura, todo o cenário foi com esse ambiente. “Como eu gosto de ler e escrevo, fomos para uma biblioteca fazer o ensaio”, explica. Mesmo em um ambiente mais formal como a sala de aula, o professor não deixa de lado as vontades. Para ele, cada tatuagem tem um significado. “É algo meio tribal. Não no traço, mas na ideia por trás, todas têm um sentido”, esclarece. Um dos pontos em comum entre Hugo e Louyse é a visão da arte na tatuagem. “Eu gosto de fazer parte de projetos que envolvem arte, então abracei esse projeto com ela”, salienta Hugo.

(Créditos: Louyse Gerardo)
A arte de tatuar (Foto: Louyse Gerardo)

Além das fotos, um documentário com relatos das pessoas de diversos locais do Brasil também será realizado. Entrevistas contando suas experiências com as tatuagens, em locais que muitas vezes foge do comum. Louyse começou em seu estado, no Rio de Janeiro, mas já passou por São Paulo e pela região Sul, por exemplo. Na capital paulista, ao atender alguns eventos do tema, Louyse soube de interesses internacionais em seu projeto. “Tinha gente de fora querendo participar, incluindo dois tatuadores famosos mundialmente”, conta.

Ao mostrar as vidas das pessoas, o projeto tenta quebrar com o preconceito em torno das tatuagens. São pessoas comuns, como as outras, que apenas possuem alguns traços no corpo. Mesmo durante as gravações foi possível perceber como existe um comportamento diferenciado para os tatuados. “Aconteceu até mesmo quando gravávamos um depoimento, gente encarando a tatuagem, comentando alto, para atingir”, relata Louyse.

(Créditos: Louyse Gerardo)
Documentário visa mostrar o dia-a-dia dos participantes (Foto: Louyse Gerardo)

Um novo olhar

O projeto foi iniciado em 2012, mas em 2015 teve uma pausa. Louyse atualmente viaja pela Europa, e pretende finalizar o Life by th Skin ainda este ano. Mas claro que com diversas novidades: “Aprendi muita coisa nessa viagem. Quero trazer muitas coisas novas para o projeto”, explica.

Não só o aprendizado para as questões técnicas, como as fotos e vídeos, mas também de como a sociedade europeia lida com as pessoas tatuadas. “Aqui é comum ver pessoas que atendem o público com tatuagens, piercings, cabelos coloridos. Não é visto de maneira diferente”, esclarece Louyse.

O Life by the Skin contará com uma nova viagem pelo Brasil para pegar relatos e depoimentos das pessoas. O documentário é previsto para ser lançado em 2016.

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