qua 27 out 2021
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Sociedades problemáticas trazem para o público jovem o gosto pela literatura distópica

Com sociedades futurísticas conturbadas e títulos impactantes, livros distópicos tem conquistado cada vez mais espaço nas estantes de adolescentes. (foto: Elizabete Leiros)
Com sociedades futurísticas conturbadas e títulos impactantes, livros distópicos tem conquistado cada vez mais espaço nas estantes de adolescentes
(Foto: Elizabete Leiros)

Sociedades totalitárias, conflituosas e caóticas: é assim que a distopia, cada vez mais popular no universo literário juvenil, prevê o futuro. Surgidas no período pós-Segunda Guerra, época de bastante pessimismo e descrédito em relação à humanidade, as correntes filosóficas distópicas têm como característica retratar sociedades imperfeitas, onde vigoram a corrupção e o desentendimento entre seus habitantes. O objetivo dessas obras literárias é servir como sátira e crítica à sociedade atual e mostrar, mesmo que de maneira exagerada, os rumos que ela está mais propensa a tomar. Mas como um universo tão assustador poderia atrair a atenção de um público tão jovem?

Para Rafaela Oliveira, dona da maior fanpage dedicada à autora da série Divergente, o segredo para o sucesso dessas obras está associado à retomada de ideias do passado e a expansão cinematográfica: “Assim como aconteceu com os temas “vampiros” e “fantasia”, as distopias foram resgatadas do passado e transformadas também em filmes. Depois de Jogos Vorazes ser lançado no cinema, uma onda de livros distópicos surgiu, o que deu muito destaque ao tema. Antes das obras atuais, as distopias já tinham reconhecimento, mas seu público era bem mais segmentado e pouco conectado”, conta Oliveira.

Para Yuri Al’Hanati, crítico literário do site Livrada!, os adolescentes se afeiçoaram desse tipo de leitura porque se identificaram com os personagens e com as histórias narradas “as sociedades criadas são expansões dos aspectos da adolescência: as tribos, a vontade de subverter a ordem vigente, o desejo de pertencimento e a descoberta do amor são pontos cruciais dessas histórias. Somado a isso, elas também conferem o empoderamento do adolescente, já que eles são quase sempre protagonistas com maturidade emocional o suficiente para tomar as decisões corretas na história”, afirma.

Histórias diferentes para épocas distintas

Apesar de falarem sobre civilizações do futuro, as distopias atuais são bastante diferentes daquelas criadas no período pós-guerra, cujo cunho era basicamente político. Obras clássicas do século XX, como Laranja Mecânica e Admirável Mundo Novo retratam sociedades que vivem em um Estado totalitário e alienante, manipulador inclusive dos meios de comunicação – crítica dos autores aos aparatos de controle repressivo dos governos que vivenciaram na época em que escreviam. Já em Laranja Mecânica, a falta de ideologia do Estado e pouco controle sobre as ações criminosas dos indivíduos são as principais críticas de Anthony Brugess à sociedade em que vivia.

Para acompanhar os interesses de seu público leitor, os livros distópicos mudaram sua abordagem e focaram suas críticas em outros aspectos, principalmente em assuntos referentes aos conflitos da adolescência, como a necessidade de pertencimento a um grupo e a aceitação dos outros. Na série Feios, de Scott Westerfeld, por exemplo, retrata-se uma sociedade em que todos seus habitantes com mais de 16 anos são submetidos a uma cirurgia plástica para corrigir suas imperfeições estéticas, o que resulta em uma população composta somente por indivíduos que se encaixam totalmente aos padrões de beleza vigentes. A crítica da obra se encontra na submissão dos indivíduos ao se submeterem a alterações tão bruscas em suas aparências por simples necessidade de se encaixar aos padrões – o que de certa forma é uma crítica ao culto exagerado à beleza e a imposição do “belo” na nossa sociedade.

Em Jogos Vorazes e Divergente, também observa-se uma crítica aos valores e regras impostos aos jovens das tramas, bem como a sua obrigação de pertencer a algum lugar ou grupo. Para Yuri Al’Hanati, os livros são escritos especialmente para que o público-alvo se identifique, permitindo um maior consumo e por consequência mais lucro para os escritores e editoras: “Nas histórias, as sociedades são novas e muito tradicionalizadas, seguindo ritos sem qualquer questionamento, cabendo aos protagonistas subverter a ordem vigente, em uma metáfora muito clara do desejo adolescente de romper com as tradições da vida adulta e fazer uma versão própria da sociedade. A questão é, portanto, infinitamente mais comercial”, afirma.

O principal ponto das obras distópicas do século XXI está na ampla gama de críticas ao presente. Enquanto os clássicos distópicos buscavam focar em apenas um aspecto para criticar, os livros atuais abrem um leque de questões a serem refletidas, que vão desde desigualdade social e racial até o uso excessivo dos recursos naturais. Essa grande abrangência é o que há de mais valioso nesse gênero literário segundo Anna Carolina Schermak, dona do blog especializado em literatura Pausa Para Um Café. “As distopias atuais têm conteúdo para abrir a mente dos jovens leitores. A única diferença é que agora a linguagem e a narrativa são mais simples, o que abrange mais o público. E aí está o ponto positivo: diferente de antigamente, os jovens de hoje também consomem esse tipo de literatura, o que permite que percebam o mundo ao seu redor com um olhar mais crítico e realista, o que permite que possam mudar tudo aquilo que consideram de injusto na sociedade cada vez mais cedo”, conclui Anna.

Quer conhecer mais títulos distópicos? O Comunicação lista alguns dos livros mais vendidos:

Trilogia Divergente – Veronica Roth
Trilogia Jogos Vorazes – Suzanne Collins
O Doador de Memorias – Lois Lowry
Starters: Sobreviver é apenas o começo – Lissa Price
Trilogia Legends – Marie Lu
Maze Runner – James Dashner
Trilogia Destino – Ally Condie
A Seleção – Kiera Cass
Delírio – Lauren Oliver
Feios – Scott Westerfeld
A Ilha Dos Dissidentes – Barbara Morais

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