Quando o assunto é meio ambiente, a redução do desmatamento é um dos grandes desafios enfrentados pelos governantes e pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs). Porém, mais do que diminuir a derrubada de árvores, um problema maior e que, em geral, não recebe tanta atenção é o desperdício de madeira. Apenas cerca de 42% da extração é aproveitada, enquanto 30% são usados como energia e os 28% restantes são descartados. Isso corresponde à retirada de 2,4 árvores para obter uma com volume totalmente comercial.
Com o objetivo de otimizar os resíduos, uma equipe do curso de Engenharia Florestal da UFPR, monitorada pelo professor Dartagnan Baggio Emerenciano, coordenador do curso e diretor científico da Fundação de Pesquisas Florestais (Fupef), desenvolveu o programa de Padronização do Resíduo Industrial de Madeira Sólida (Primas). “Nossa finalidade é utilizar madeira hoje rejeitada por causa de falhas e imperfeições para criar novos padrões tecnológicos. São novos produtos para o mercado, como pastilhas e perfilados de madeira branca de alta densidade. Com um metro cúbico de resíduos podemos criar de 25 a 30 metros de pastilhas”, conta Emerenciano. O projeto iniciou na década de 1980, com o manejo e armazenamento de material.
Segundo o professor Marcelo Lubas, um dos membros da equipe, os novos produtos trazem vantagens ambientais, econômicas e sociais. “Ao mesmo tempo em que reduz o desperdício com o aumento da altura comercial da árvore, as pastilhas e os perfilados agregam valor de mercado pela sua estética e pelo design. Além disso, o trabalho de separação e manipulação da madeira gera novos empregos”. A quantidade de rejeitos pode cair de 28 para até 10% e o aproveitamento sobe para índices próximos a 60%. Com isso, se reduz para 1,9 o número de árvores necessário para obter o volume comercial de uma. “Procuramos otimizar ao máximo a madeira. Até a serragem é utilizada como rejunte entre as pastilhas”, afirma Dartagnan.
O processo de manipulação dos novos padrões tecnológicos passa por algumas etapas, como o diagnóstico da madeira aproveitável e o padrão de dimensionamento das pastilhas. A partir disso, três máquinas são utilizadas para dar forma aos produtos. Cada máquina pode gerar seis empregos diretos. Lubas estima que o programa possa gerar até 20 mil novos postos de trabalho.
Áreas com maior desmatamento têm prioridade
A meta é conscientizar e estimular a utilização dos resíduos principalmente em locais onde o desmatamento é maior. Por isso, muitas empresas do Mato Grosso, um dos estados brasileiros que mais sofre com a febre da soja, já mostraram interesse pela Primas. O próximo passo é chegar a outras regiões atingidas pelo desmate da Amazônia, como o Acre.
No caso do Paraná, Dartagnan explica que o desperdício de madeira não é tão grande quanto no Norte e no Centro-Oeste do país. Os índices de desmatamento no estado não se comparam aos registrados naquelas regiões. Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, a devastação da Mata Atlântica, por exemplo, teve queda de 88% no estado, de acordo com dados da ONG SOS Mata Atlântica. Somente o Centro-Sul, em cidades como Iraty e União da Vitória, onde estão alguns dos últimos remanescentes florestais, mantém altos índices de desmate.
Reconhecimento internacional
Em janeiro deste ano, a equipe da UFPR também firmou parceria com a ApexBrasil Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. O Brazilian Wood, projeto setorial integrado conduzido pela empresa Sindimadeira/RS em parceria com a agência, pretende promover os produtos em feiras internacionais. No final deste mês, a Fupef e a UFPR participam de feiras na Itália e na França, onde vão mostrar as inovações. “Isso estimula o conhecimento e a criação de demanda para bens ainda não conhecidos fora do país”, afirma Mônica Vanise, gestora do Brasilian Wood.
A Primas também já foi implantada em outros países, como Moçambique. Na África, o desperdício de madeira é ainda maior que no Brasil. São necessárias até três árvores derrubadas para conseguir o volume comercial de uma. “Mesmo com poucos recursos e equipamentos atrasados, conseguimos criar pastilhas a partir de madeira de baixa qualidade”, afirma Dartagnan. Chile, Bolívia e outras nações sul-americanas também devem adotar os novos padrões tecnológicos.
