ter 26 out 2021
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Umbanda, já experimentou?

Sou católica, daquelas que vai à missa aos domingos. Nunca tive dúvidas sobre a minha fé, mas sempre acreditei que há um Deus único para todas as religiões. Talvez por isso, sempre tive curiosidade de conhecer outras crenças. Já fui a centros espíritas, mas sempre faltava a coragem para visitar terreiros. O preconceito e o medo me impediam, admito. Agora, isso precisava ser deixado de lado.

A TUFF (Tenda de Umbanda Filhos de Fé) fica na Rua José Scuissiato, nº 246, no bairro Seminário. Os rituais acontecem toda quinta-feira, com abertura do portão às 19:30 e fechamento às 20:00, e todos os sábados, com portão aberto às 14:30 e fechado às 15:00. Foto por Mariana Baú.

Me vejo em frente a um sobrado de cor amarela, sem placa alguma de identificação. Olho o papel com o endereço e confirmo. A Tenda de Umbanda Filhos da Fé (TUFF) é ali mesmo. O portão está fechado, então aguardo. Uma senhora chega com o filho, especial. Peço informações a ela e descubro ser dia do Cigano. Depois de fechado o portão, ele só pode ser aberto quando terminados os trabalhos. Apreensiva, aguardo em silêncio até um rapaz aparecer e nos deixar entrar. Vou seguindo os três em direção aos fundos do sobrado.

O lugar é lindo. O cheiro de incenso é marcante. Uma escada feita de pedras, rodeada de árvores enormes e casinhas de passarinhos, leva ao topo de um pequeno morro. Ao subir, passo por uma gruta com Nossa Senhora Aparecida e me sinto mais familiarizada. Lá em cima, uma simples casinha azul está de portas abertas. Trata-se de um entre os mais de 6 mil terreiros da capital. O interior da casa é significativamente branco: seis fileiras de cadeiras brancas, uma pequena mureta branca e uma cortina, também branca, que esconde o outro lado.

Sento na primeira fila. Em cima da mureta, uma caixinha que diz “pedidos”, contém papel e canetas. Pego os dois, escrevo o meu e devolvo ali. Com todas as cadeiras ocupadas, olho no relógio: 15h. Já vai começar. As luzes se apagam, a cortina é aberta. As velas acesas iluminam o ambiente. Observo o que estava escondido – duas portas com cortinas, um altar entre elas. Nele, várias taças, jarras com água, velas, cinzeiros, flores, conchas. A cruz na parede e a bíblia no altar me chamam atenção. Abaixo da cruz, a Estrela de Davi. Ao redor, cinco homens e quatro mulheres, de branco e descalços, ajoelham e começam a cantar.
A música é um pedido para que Deus esteja ali naquele momento. Somos chamados a retirar as energias negativas. Descalços, nos posicionamos em filas à frente do altar. Os “irmãos” passam com incensos. Voltamos aos lugares.

Outra música, mais animada. Cantam e começam a dançar. Uma das mulheres começa a girar e para. Segura a cabeça da que está ao seu lado, que gira e repete os passos da primeira. A música acaba: quatro mulheres e três homens estão incorporados pelas entidades. Os sete começam a falar em espanhol. Pedem aos dois “irmãos” restantes taças com água e cigarros. Tudo é muito impressionante, não consigo tirar os olhos da primeira mulher que incorporou É visível o quanto ela está com a fisionomia mais envelhecida.

Nova oração. Somos chamados a conversar. Na minha vez sinto medo, mas vou. Sou recebida com um despacho. A entidade pede para que eu beba a água que está em sua taça. Conversamos, ela me passa a segurança e a tranquilidade que eu havia pedido por escrito no papel. Volto a me sentar, com as pernas trêmulas. A sensação é maravilhosa, não poderia imaginar. Após as consultas, dançam e cantam novamente. Durante um período permanecem assim. Sem música de fundo, num silêncio absoluto, uma das mulheres começa a girar, enquanto vai estalando os dedos. Aos poucos, os espíritos vão deixando os corpos, que retornam apoiados no altar, e rezam agradecendo. A gira chega ao fim. Impressionada, percebo o quanto foi revigorante essa nova experiência.

Os preconceitos que ligam a Umbanda às macumbas e sacrifícios de animais são incabíveis ali e, infelizmente, acabam afastando as pessoas dessa religião que, graças à mistura de diversas crenças (como a católica, espírita, candomblé) é a doutrina que recebe a todos, sem qualquer tipo de discriminação. Eu aprovei, mesmo sem abandonar a minha fé. Já estou indicando a TUFF para todos que conheço e pretendo voltar lá sempre que puder. E você, vai experimentar?

Danças, orações e músicas caracterizam as giras de Umbanda. Foto por extra.globo.com

Para entender melhor a Umbanda:
A religião que veio da Cultura Africana e misturou-se com as tradições indígenas e católicas, também sofreu influências de diversas outras crenças, como o Candomblé. Tendo como fundamento principal a caridade, a Umbanda utiliza de incorporações mediúnicas (entidades espirituais muito evoluídas), para prestar socorro às pessoas que recorrem aos centros. Os rituais divergem entre si e dependem de um templo para outro, mas, a ritualística é basicamente a mesma: danças para Orixás, cantos, defumações com ervas especiais e orações (principalmente o Pai Nosso e a Ave Maria). Os sete Orixás – Oxalá, Oxum, Ogum, Iemanjá, Xangô, Iansã e Oxóssi – são a representação da energia, força da natureza, e é essa força que auxilia os seres humanos nas dificuldades do dia a dia, eles são manifestações do Grande Deus, criador de tudo.

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