Segundo uma pesquisa de 2019, publicada na Sleep Medicine, periódico da Sociedade Mundial do Sono em conjunto com a Associação Internacional do Sono Pediátrico, 72,4% dos jovens analisados dormem menos de 8 horas diárias — a média considerada adequada por especialistas.
Na pesquisa feita com 1.554 adolescentes do ensino médio público de Curitiba, entre 14 e 19 anos, 19,9% deles afirmam que nunca conseguem chegar a 8 horas de sono, enquanto 51% dizem que conseguem apenas às vezes. Esses dados mostram o quão comum é a restrição do sono entre os adolescentes, e o estudo alerta para como a restrição do sono afeta os jovens seja no núcleo familiar, no desempenho escolar ou nas relações sociais do dia a dia.

Como Funciona o Sono?
O funcionamento do sono é regulado pelo ciclo circadiano, um ritmo biológico que ocorre no hipotálamo e é responsável por coordenar as funções do corpo em um período de 24 horas. Ele regula a liberação de hormônios como o cortisol, que mantém o corpo desperto durante o dia, e a melatonina, que relaxa o organismo e induz ao sono. Esse ciclo também interfere nas diferentes fases do sono pelas quais transitamos durante a noite.
A Associação Brasileira de Medicina do Sono (ABMS) adota a classificação em quatro fases: três fases de sono não REM (N1, N2 e N3) e uma fase REM. Essas etapas definem a profundidade do sono e como ele é processado pelo corpo.

Causas das Alterações
Na adolescência, o ciclo circadiano passa por uma série de alterações neurobiológicas e comportamentais que prejudicam a saúde do sono dos jovens.
Para o médico e psiquiatra Marcelo Alves Carriello, mestre em medicina interna e ciências da saúde pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), essas mudanças são essenciais para entender a arquitetura do sono durante essa fase da vida. “As alterações comportamentais estão relacionadas ao fato de o adolescente não ser mais criança e ter mais autonomia para decidir seus horários, sem tanta imposição dos pais. Já as alterações biológicas dizem respeito à maturidade sexual e à puberdade”, explica.
No campo comportamental, o celular é um fator cada vez mais frequente. O uso de telas, em geral, atrapalha o desenvolvimento do sono. Um estudo publicado na revista científica norueguesa Frontiers in Psychiatry aponta que, a cada 1 hora de uso do celular na cama, o adolescente perde em média 24 minutos de sono.
Para a estudante Gabriella de Oliveira Hoffmann, o celular é um grande problema na hora de dormir. “Eu fico muito no celular de madrugada, e isso me atrapalha. Eu não consigo dormir antes da meia-noite, mesmo que eu tente.”
A jovem de 15 anos relata que costuma dormir por volta das 2h e que o aparelho acaba tomando o tempo de suas tarefas. “Eu fico pensando no que poderia estar fazendo enquanto estou dormindo, nas atividades que podia adiantar ou só pela vontade de mexer no celular”, relata.
Outro fator está no próprio sistema escolar. O horário das aulas costuma começar cedo demais para os adolescentes. Instituições como o Colégio Estadual do Paraná (CEP) iniciam as aulas às 7h10, exigindo que os estudantes durmam cedo. “Os adolescentes precisam de mais horas de sono em comparação aos adultos e tendem a dormir mais tarde… A melhor intervenção seria postergar o horário de início das aulas, o que poderia melhorar a qualidade de vida dos adolescentes.” Afirma Carriello.
Já as alterações neurobiológicas decorrem de diversos fatores: o cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento, e o corpo passa por uma série de mudanças hormonais próprias da puberdade.
Segundo o psiquiatra, “o sono de ondas lentas tende a ser maior nos adolescentes, enquanto os estágios mais leves de sono profundo e o sono REM apresentam mais alterações (…) Isso significa que o adolescente pode não ter um sono tão reparador.”
Consequências das Alterações
“Eu fico com sono na sala de aula, e não consigo prestar atenção em algumas aulas que não tenham muito estímulo”
-Gabriella Oliveira Hoffmann
A pesquisa da Sleep Medicine também analisou os cochilos diurnos: 58% dos adolescentes relataram ter esse hábito, e, entre eles, 44,9% afirmaram que seus cochilos duram mais de 1 hora. Esse comportamento é prejudicial para a atenção e o raciocínio, podendo interferir até mesmo no desempenho escolar.
Gabriella conta como o sono afeta sua rotina: .“Eu fico com sono na sala de aula e não consigo prestar atenção em algumas matérias que não tenham muito estímulo. Já fui chamada atenção por estar dormindo durante as trocas de professores ou em aulas importantes, nas quais tenho dificuldade de acompanhar.”
Soluções Possíveis
Algumas medidas podem ajudar a controlar a saúde do sono. Segundo Carriello, criar uma rotina é a melhor forma de organizar o ciclo circadiano, além de cuidar da chamada higiene do sono. Hábitos como não consumir estimulantes ou cafeína durante a noite fazer refeições mais leves nesse horário, tentar dormir em um ambiente escuro, evitar usar o celular 1 hora antes de dormir ou deixá-lo no modo noturno podem mudar a rotina noturna e colaborar para uma melhor qualidade de vida.


