qui 23 maio 2024
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“A nossa classe não possui nenhum reconhecimento”, diz enfermeira de Colombo

Pressão pelo trabalho, plantões abusivos e a falta de reconhecimento e respeito tem levado profissionais da enfermagem a depressão, vícios e até ao suicídio

O desrespeito aos profissionais da saúde se agravou muito durante a pandemia do coronavírus que afligiu todo o mundo nos últimos anos. Mas, no caso dos enfermeiros, isso tem sido ainda pior. Sendo o primeiro contato direto com o paciente, eles são colocados a plantões abusivos, salários incondizentes e agressões, isso sem possuir reconhecimento dos enfermos ou dos médicos. Desde 2000, há um projeto de lei (PL-2295) que coloca uma redução da jornada de trabalho dos enfermeiros para 6 horas diárias e 30 horas semanais, no entanto isso dificilmente se confirma, se tornando uma das maiores buscas destes profissionais. 

Sônia Ferreira de Lima, 58, enfermeira técnica da Unidade de Saúde da Mulher, em Colombo, diz já ter passado por mais de 80 triagens em um dia e fala da agressividade dos pacientes: “Eu já passei por casos em que fui agredida verbalmente e já vi agressões físicas. A nossa classe não possui nenhum reconhecimento. A gente tem um investimento precário, instrumentos de má qualidade, precisa-se melhorar o nosso suporte”.

Segundo dados do Conselho Regional de Enfermagem do Paraná (COREN), hoje no Brasil existem cerca de dois milhões de enfermeiros, sendo 115 mil só no estado do Paraná. Grande parte desses trabalhadores precisam trabalhar em dois empregos para alcançar condições de pagar atividades básicas e, por isso, são expostos a jornadas que chegam a mais de 36 horas seguidas.

Nos últimos meses, a situação do piso salarial foi suspensa por decisão do ministro do STF, Luís Roberto Barroso. Ele afirma que há poucas informações recebidas para que haja o investimento e para que o piso seja financiado e viabilizado. Atualmente, o piso salarial é de R$4750,00 para enfermeiros, R$3325,00 para técnicos de enfermagem e R$2375,00 para auxiliares de enfermagem e parteiras. Letícia Mayara Moreira, 23, estudante de enfermagem pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), entende que toda essa situação prejudica a profissão como um todo: “O piso desmotivou muito ao ser mantido. Eu conheci uma enfermeira que se suicidou pela pressão, pela carga horária. Tem que trabalhar em dois ou três empregos para conseguir ter uma vida melhor”. Ela também reitera que esse tipo de preocupação faz com que o cuidado ao paciente não esteja mais em primeiro plano, já que as preocupações pessoais atrapalharam isso.

Os problemas psicológicos atingem grande parte do ramo da saúde. O contato direto com enfermidades contagiosas ou não, o sofrimento dos pacientes e a morte, são os principais fatores. Entre 2008 e 2017, segundo o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), 48 profissionais da enfermagem se suicidaram no Paraná. 

A falta de tratamento com psicólogos e psiquiatras é o que acarreta a maior motivação para isso, já que todos os problemas citados, junto do estresse e das longas horas de trabalho, acabam impedindo que se consiga estar bem mentalmente. Sônia Ferreira afirmou que ao se tentar entrar na lista de consultas para o tratamento, foi passado a ela uma espera de um ano. Vício às drogas e ao álcool, também acabam sendo comuns a esses indivíduos, por conta dessa falta de cuidado e que é uma reivindicação antiga desta classe.

Outra grande preocupação é com os instrumentos de trabalho, principalmente os do sistema público de saúde. A licitação de compra é feita através dos produtos com menor gasto ao governo. 

Isso acaba acarretando a precarização das matérias-primas, já que nem sempre o melhor e mais eficiente será o com menor preço. Muitos enfermeiros acabam tendo que, em uma situação de emergência, se utilizar de improvisos na hora de tratar o doente e não conseguindo tratá-lo com eficiência.

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