dom 17 out 2021
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Frente de Luta pelo Transporte reivindica redução da tarifa

Manisfestantes fecham a Avenida Marechal Floriano Peixoto na noite do dia 26 de setembro.

O Tribunal de Contas do Estado, no dia 18 de setembro, sugeriu a redução da passagem de ônibus para R$ 2,25 após realizar uma auditoria na Urbanização de Curitiba (Urbs). Em resposta a tal proposta, a Frente de Luta pelo Transporte realizou uma passeata com cerca de 350 pessoas na Boca Maldita na última quinta-feira (26). O propósito é exigir que o corte de R$ 0,45 seja acatado. Seguindo pelas ruas do centro da cidade, o destino final foi a Câmara Municipal. Em entrevista ao Jornal Comunicação, Mateus Landoski, um dos porta-vozes da Frente, definiu as pautas do movimento, os objetivos de futuras passeatas e a visão que o grupo possui acerca de certos temas recorrentes.

Acompanhe a entrevista na íntegra:

JC: Qual a pauta da Frente de Luta pelo Transporte?

ML: Essa manifestação está embasada nos relatórios recentes divulgados pelo Tribunal de Contas do Estado, que indicou mais de quarenta irregularidades no processo edital do transporte público e demonstrou, por “A mais B”, aquilo que já sabíamos desde junho: o preço da tarifa tem mais de 50 centavos de “gordura” para além do lucro que já está previsto dentro do processo de licitação, o que eu particularmente acho muito ruim pelo fato de ser um bem público. Portanto, a pauta do movimento é “R$ 2,25 Já!”: a redução do preço da passagem para R$ 2,25. Isso a gente não está “pirando na batatinha”, pois isso consta no relatório do Tribunal de Contas do Estado. Eles não sugeriram esse preço para o movimento.

JC: Vocês dialogaram com a Polícia Militar ou a Guarda Municipal para organizar o ato?

ML: Na sexta-feira, teve a entrega de dois documentos que a gente protocolou na prefeitura e deixou o aviso de que hoje teria o ato para revindicar pela luta do transporte.

JC: O que você acha sobre a presença da tática Black Bloc na manifestação?

ML: O movimento é democrático. A principal conquista dos movimentos sociais no processo de reabertura democrática foi a liberdade de organização. Muitas pessoas que foram para a jornada de junho falam que “o gigante acordou”, mas o gigante acordou tendo espasmos, cheio de remelo nos olhos. Levantaram-se contra os partidos, contra o Black Bloc. A gente não é a favor de vandalismo e ações individualistas, mas as pessoas tem o direito de levantar suas bandeiras, usarem suas máscaras, lutar por aquilo que elas acreditam, desde que façam de maneira organizada e coletiva. No caso do Black Bloc, existe uma deturpação por parte dos meios de massa do que seria o Black Bloc. Ele surgiu lá no ativismo norte-americano, inspirado na luta dos indígenas do México. Era uma maneira de eles cobrirem o rosto e não sofrerem repressão do Estado, algo que a gente sabe que existe. No protesto do sete de setembro aqui em Curitiba, tiveram mais de 23 pessoas autuadas por estarem mascaradas.

JC: Vocês dialogam com o Movimento Passe Livre? Como é a interação entre os movimentos?

ML: A gente não tem vinculação com o Movimento Passe Livre. A gente apoia a luta pelo transporte que foi tocada pelo MPL nacional, mas a gente não reconhece o movimento daqui de Curitiba, pois o próprio movimento nacional não o reconhece como sendo parte integrante deles. Teve uma acusação de agressão a uma militante do Movimento Passe Livre por parte de um dos líderes, e o MPL curitibano saiu em defesa do líder mesmo com provas que o incriminavam. Como o movimento nacional é horizontal, organizado a partir dos movimentos sociais e sem líderes, houve essa divisão.

JC: Como as pessoas podem fazer parte da Frente?

ML: A Frente de Luta pelo Transporte não é uma organização política. Não tem programa, ela agremia pessoas de todas as cores e bandeiras. Pessoas de partidos políticos, movimentos estudantis, sindicatos, associações de bairros, grêmios estudantis, secundaristas, a grande massa que participou das jornadas de junho. Pessoas espontâneas mesmo, que não tem histórico social, que não sabem como é. A gente vai descobrir junto como funciona isso. Não tem como aderir à Frente de luta pelo transporte em termos burocráticos ou formais. Se você vem para os atos e as reuniões da Frente, você já está aderindo a ela. A Frente de luta pelo transporte é uma frente única que luta pela pauta do transporte.

JC: Então essa grande diversidade de pautas que as pessoas defendem nas manifestações não é vista com maus olhos pela Frente?

ML: Claro que não, pois ela vem de uma necessidade das pessoas. É claro que para as pessoas é importante, por exemplo, lutar pelo transporte, saúde e a questão da corrupção. A política é uma coisa inacessível para as pessoas. Elas têm a ideia de que política é sinônimo de política parlamentar, sendo que o tempo todo nós estamos sendo políticos. É saudável se apropriar da política, mas é necessário fazer isso com organização ou não acontece nada. Queremos tudo: queremos transporte, queremos educação, queremos saúde, queremos salário alto, mas o importante é lutar por cada coisa de uma vez. Hoje, o movimento não tem “perna”. A prova disso é o ato de 17 de junho, que teve 20 mil pessoas na rua e limitou-se a passear pelo Palácio Iguaçu. Isso mostrou a força das ruas, que o povo acordou mesmo, mas efetivamente, se a gente tivesse 10% daquelas pessoas extremamente bem organizadas em torno de uma pauta, com certeza seria bem mais efetivo.

JC: Até porque, para boa parte das pessoas que participaram das manifestações de junho, uma simples diminuição na passagem de ônibus já foi o suficiente para que elas desistissem dos movimentos, certo?

ML: Sim, mas a gente não pode culpar elas. A gente vem de uma cultura de alienação. A gente é criado em uma cultura de pacto social, de apaziguamento. Não existe uma cultura de protesto, de mobilização e organização. O povo brasileiro está reaprendendo a protestar, e esse é o momento para isso. Organizar, continuar na luta e, acima de tudo, não voltar a dormir.

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