qua 27 out 2021
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A Revolta! de André Caliman

André Caliman teve sua revolta e  catarse  pessoais em 2013. Conseguiu recursos suficientes para lançar seu primeiro livro autoral, o Revolta!. Inicialmente em formato de blog, o projeto participou de um site de financiamento coletivo, e as pessoas e os leitores contribuíram para que o HQ entrasse no papel. Em conversa com o Jornal Co:::unicação, André conta como aconteceu sua profissionalização no mundo dos quadrinhos e como foi a odisseia da Revolta!, da ideia inicial até a impressão.

 

Como você começou a levar o desenho para o lado profissional?

Eu sempre quis ser profissional, mas, quando eu comecei a publicar, não tinha espaço no mercado. Hoje em dia, o espaço que existe é para o quadrinho autoral em formato de livro, que é o que eu estou fazendo. Só que um livro tem que ter cem, duzentas páginas. Não é fácil pra quem está começando. No começo eu fazia revistas independentes  e pagávamos a gráfica com o dinheiro da venda, uma coisa bem maluca.  Não tinha lugar para ir, a não ser o mercado americano. Comecei a trabalhar lá, onde eu era só desenhista. Eles mandavam o roteiro e eu desenhava. Me mantive alguns anos assim. Foi no mercado americano que eu virei profissional mesmo. Depois, decidi que ia parar de fazer isso, senão ia ficar desenhando HQ dos outros para o resto da vida. O Revolta! acabou sendo uma revolta pessoal também. Uma revolta minha de dizer “não! Agora vou fazer uma HQ minha”.

 

Como surgiu a ideia de um trabalho como o Revolta!?

Foi em um momento que eu estava procurando fazer uma coisa autoral, uma coisa minha. Todos os trabalhos que eu tinha feito até então eram só como desenhista. Tinha escrito pouca coisa e e eu pensei em fazer algo autoral, algo que se passasse em Curitiba e que refletisse um pouco da realidade que a gente estava passando. Queria fazer algo ficcional mas que falasse um pouco sobre os problemas que eu sentia que a cidade tinha e que o país tinha. Quando eu comecei, em outubro de 2012, não estavam acontecendo as manifestações, nem nada. E eu ouvia muito coisas como: “Ah, pô, a gente fica vendo as notícias e não faz nada”. Sempre aquele papo de que a nossa geração é meio paradona. Nisso surgiu a ideia: pensei “imagina então se acontecesse uma revolta? Como seria?”. Eu perguntei isso para os meus amigos na mesa de um bar que a gente frequentava  e a ideia nasceu. E começamos a pirar nisso. Começou com umas ideias mais malucas, outras mais políticas. Fui juntando as peças e acabei fazendo o HQ, que é uma ficção, mas que tem um pouco desse universo real. É o meu trabalho mais longo, que eu mais me dediquei, mas é também o meu maior orgulho

 

Como você começou a divulgar esse trabalho?

A minha ideia não era fazer o livro antes de terminar o blog. O plano original era essa coisa de fazer mês a mês, aí as pessoas liam, respondiam e, ao mesmo tempo que eu já tinha uma estrutura montada, eu ia mudando a história. Minha primeira ideia era todo mês envolver algum acontecimento que tivesse ocorrido durante aquele mês. Acabou que no começo foi, mas depois a história foi tomando vida própria e isso não funcionou mais. No começo, a divulgação era através de lambe-lambe. Eu colava algumas páginas nas paredes perto do bar onde nasceu a história. Mas é uma coisa que não fica, você cola e depois de alguns dias as pessoas tiram. Se você olhar ali naquela região da Trajano Reis, dos barzinhos, sobraram algumas. Como no começo eu queria que as pessoas lessem, foi um jeito de chamar a atenção. Imprimia páginas soltas, chamava uns amigos e ia com uns rolinhos pra fazer lambe-lambe. Rendeu até matérias da Gazeta do Povo.

 

André Caliman - Lambe-Lambe
André Caliman também divulgou seu trabalho colando lambe-lambe, na região do
Baixo São Francisco. (Foto: Divulgação)

 

Qual foi sua reação e a relação do HQ com as manifestações que aconteceram esse ano?

Foi bacana, mas foi estranho, porque a minha história ia para esse rumo. Como eu comecei publicando um capítulo por mês, a Revolta! tendia a seguir esse caminho mas ia demorar um pouco mais. Foi estranho pois foi como se uma parte da história estivesse acontecendo. Na hora eu cheguei a pensar “acabou, estragou a minha história”, porque o que ia acontecer na história era o que estava acontecendo de verdade, mas de forma diferente. Como eu ainda não tinha publicado esses capítulos, só escrito, mudei um pouco a história. Acabei ajustando aos acontecimentos reais. No fim foi bem legal. Eu estava forçando uma realidade, alterando essa realidade, e depois foi o contrário. A realidade alterou o que eu estava fazendo, que foi muito bom para a história.

 

E o que você achou das manifestações, pessoalmente?

Do jeito que aconteceu foi uma explosão. Acho que ninguém sabia bem o que estava fazendo, na verdade. Foi uma revolta mesmo. Ninguém sabia o que ia vir depois. Era a paixão de ir e fazer, que é um pouco o espírito da HQ também. No quadrinho eu já tenho tudo fechado e a realidade não vai mais mudar nada, mas não posso contar como termina.

 

Qual a vantagem de fazer um projeto autoral, como o Revolta!?

Não estar vinculado a nenhuma editora, então eu posso fazer o que eu quiser. Eu fiz tudo: desde a história e temática. Não tem nenhum tipo de reserva ao que eu vou colocar. Às vezes as pessoas acabam criando um tipo de censura, como “você mostrou uma zona”, ou “você mostrou uma peituda”. Uma censura moral. Mas por tratar também de uma história política, recebo muita crítica política. Tem um lado que diz que eu sou super reacionário e o outro que diz que eu sou super de esquerda, que quero revolução. Várias leituras podem ser feitas, mas isso é uma coisa legal dessa HQ. Não tem um protagonista, cada personagem representa alguma coisa. Os leitores não conseguem dizer “essa é uma HQ de esquerda, de direita, disso, daquilo” e eu não tenho uma intenção definida. Não estou fazendo um quadrinho para fazer as pessoas quererem derrubar o governo ou nada disso. É uma história para a reflexão, mais do que tudo. Eu tenho muita liberdade, faço tudo que eu quero, mas também tenho que encarar essas críticas, que podem ser bem duras.

 

E como foi o projeto no Catarse? Você esperava que fosse dar certo?

Eu estava morrendo de medo. Tenho alguns amigos quadrinhistas que conseguiram e outros que não conseguiram, então coloquei sem saber se ia acontecer. Foi legal porque já no começo teve retribuições de pessoas que já conheciam, que já liam o HQ, que queriam ter impresso. Não era uma ideia que não existia. Foi meio sofrido, alcançou a meta ali no finalzinho, mas até a última semana não tinha batido a meta ainda. Felizmente conseguimos.

 

E os fãs aumentaram com o Catarse?

Sim, sim. Acho que quando você coloca seu projeto no Catarse, é aí que você começa a se empenhar em divulgar mesmo. Uma divulgação vai levando à outra. Começaram a sair muitas matérias, até pelo tema, então as visitações do blog aumentaram muito. Quando eu comecei, as visitações eram grandes, mas as pessoas liam no dia que eu postava, uma vez por mês. Depois disso, o blog ficava abandonado. Com o Catarse, agora tem visitações diárias, e às vezes eu nem sei por quê. Não sei se são novos leitores, ou se as pessoas que estão relendo. Tem umas cem, duzentas visitações diárias.

 

Qual a previsão para o lançamento do livro?

O livro é para sair em dezembro. Eu quero lançar rápido porque acho que tem que sair nesse momento, não dá para perder o que estamos vivendo.

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