sáb 23 out 2021
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A vida de Drummond narrada em seus próprios versos

Nove atores em palco com vestimentas dos anos 30. Pouco ou nenhum objeto em cena — voz, luz, movimento e expressão. 70 minutos que remontaram 85 anos de história. Em duas apresentações, nas noites de sábado (28) e domingo (29), o grupo Ponto de Partida, de Barbacena, Minas Gerais, contou e cantou a vida do poeta gauche, Carlos Drummond de Andrade, em seus próprios versos.

Drummond estreou em 1989 e mantém seis dos nove artistas da peça original (Foto: Divulgação)
Drummond estreou em 1989 e mantém seis dos nove artistas da peça original (Foto: Divulgação)

Da infância em Itabira aos Últimos Dias, foram mais de 30 poemas interpretados no palco do Teatro Bom Jesus. E quem esperava encontrar a melancolia e o desencanto de boa parte de sua obra surpreendeu-se com a comicidade com que os poemas foram interpretados. Até mesmo Os ombros suportam o mundo foi declamado com a leveza do sorriso da atriz Soraia Moraes. Os poemas sobre a infância — a exemplo de A dupla humilhação, escolhido para representar a rivalidade entre Drummond e seu irmão José — e sobre a adolescência — alguns até eróticos — levaram a plateia às gargalhadas. Caricatos e eufóricos, a expressividade dos artistas contrastou com a melancolia das luzes que, por vezes, residiram em apenas um spot focando um único ator. O silêncio pesou apenas quando entraram em cena os poemas que simbolizavam um Drummond já maduro, metafísico, que ensaia um adeus ao mundo material: “E a matéria se veja acabar: adeus composição / que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade”. Das sete faces do poeta, a que menos apareceu foi a do homem sério, com poucos, raros amigos, atrás dos óculos e do bigode.

De acordo com o ator Ronaldo Pereira, o tom cômico tem como objetivo aproximar o público da poesia de Drummond: “A nossa intenção era trazer um pouco mais para perto e mostrar que ele é um poeta de várias faces, que ele tem uma coisa densa, mas também bem-humorada”, afirma. No geral, a companhia foi bem sucedida — não é à toa que a peça está sendo encenada há 26 anos. Dos nove atores, seis participam da peça desde sua primeira apresentação, em 1989. A plateia, que compareceu em peso à apresentação do dia 28, aplaudiu longamente os artistas mineiros. Rostos inexpressivos, contudo, também foram vistos saindo do teatro. “Eu achei que fosse poesia”, ouviu-se enquanto o teatro esvaziava. Mas foi, foi poesia, em toda a sua subjetividade, passível das mais diversas interpretações. Literalmente.

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