dom 24 out 2021
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Arte feita para ser vendida divide opiniões de especialistas

Romero Britto, Paulo Coelho e Michel Teló. É comum escutar críticas sobre o trabalho desses três artistas, principalmente referentes ao aspecto comercial de suas produções. Mas até que ponto isso é negativo? A arte feita para ser vendida é pior? É menos válida?

Romero Britto com algumas das suas obras, questionadas pelo público pela repetição e pelo caráter mercantil.  (Foto: Reprodução/Folhapress)
Romero Britto com algumas das suas obras, questionadas pelo público pela repetição e pelo caráter mercantil.
(Foto: Reprodução/Folhapress)

De acordo com historiadora e crítica de arte Rosemeire Odahara, hoje em dia existe uma nova relação entre os artistas, o mercado e a sociedade como um todo, que mostra a necessidade do dinheiro no meio da arte para que a produção continue. “A arte comercial não é menos válida, é diferente’’, acredita.

Para a historiadora, a arte comercial do século 21 é diferente da arte do início do século 20. Ela explica que hoje os artistas precisam aprender a lidar com o dinheiro para que a produção seja mostrada no mundo capitalista. “Se o artista não gerar o próprio capital vendendo suas obras, ele vai precisar usar recursos econômicos, como leis do incentivo”.

Já para Teca Sandrini, diretora cultural do Museu Oscar Niemeyer (MON), a arte produzida com um objetivo mercantil pode ser considerada menos válida. “Vai acontecer igual o Romero Britto, a arte vai se tornar comum em todos os lugares”, opina. “Falta uma criticidade nas obras que são feitas para a venda. A arte, de alguma forma, sempre precisa questionar, ser crítica. As obras feitas para serem vendidas não têm nenhuma inovação, é sempre na mesma cor e forma que agrada a maioria das pessoas”.

Na teoria

Na década de 1940, Theodor Adorno e Max Horkheimer escreveram o livro Dialética do Esclarecimento, onde definiram o termo Indústria Cultural. Basicamente, os pensadores acreditavam que a entrada da sociedade capitalista no ramo das artes transformou todas as manifestações culturais em produtos que poderiam ser vendidos. Para os dois teóricos da Escola de Frankfurt, não apenas as artes feitas para serem comercializadas, mas todas aquelas criadas no contexto do capitalismo deixam de ser artes genuínas para virarem produtos.

No entanto, o ponto de vista de Adorno e Horkheimer não é mais unanimidade hoje em dia. Os dois são considerados radicais nesse campo. Além disso, de acordo com a professora do curso de Comunicação Social Rosa Maria Dalla Costa, os teóricos dessa escola eram extremamente elitistas. “A arte com essa aura que os frankfurtianos queriam preservar era restrita às pessoas que tinham dinheiro, acesso e cultura”, afirma. A crítica de arte Rosemeire Odahara concorda: “Estamos em 2015, as relações já mudaram. Essa teoria está desatualizada, pois ela não leva em conta as novas tecnologias”.

Outro autor importante nessa análise é Walter Benjamin, que escreveu A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica. A reprodutibilidade técnica é a capacidade de se reproduzir uma obra várias vezes, sem que exista uma original. Para Rosa Maria, a reprodutibilidade é originada no movimento capitalista. “Ela é fruto da indústria que se insere no contexto do desenvolvimento do modo capitalista de produção. Ou seja, a arte, depois da revolução industrial e desse movimento capitalista, passa a ter um valor enquanto mercadoria”, explica.

A professora acredita ainda que Walter Benjamin é um dos autores menos radicais dentro da Escola de Frankfurt. Enquanto outros estudiosos afirmavam que o fato da transformação da arte em mercadoria era o fim do meio artístico, Benjamin pensava que a sociedade se adaptaria. “E nós vimos que, passados vários anos dessa apropriação da obra de arte pelo mercado, ela continua sendo criada, apesar da sua comercialização”, diz Rosa Maria. “Não vejo o fim da arte como viam os radicais frankfurtianos, porque a técnica faz parte da evolução do homem e a arte também faz parte desse homem. A diferença é que ela passa a ser produzida em um novo contexto, que é o contexto em que ele vive, um contexto impregnado de técnica e de comercialização. A arte se adapta”, completa.

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