qui 21 out 2021
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As duas faces de “O Homem Travesseiro”

Uma história forte e longa (são três horas de espetáculo), detalhista e com toques de humor negro. Tanto o drama quanto a comédia baseados no premiado texto do britânico Martin McDonagh, “O Homem Travesseiro”, que estrearam no Festival de Curitiba respectivamente nos dias 1º e 2 de abril, possuem o mesmo enredo. Katurian, um escritor que vive sob regime totalitário, é interrogado para que se investigue a possível ligação entre o conteúdo grotesco dos seus contos e uma série de homicídios de crianças. Ele possui um irmão doente mental e os dois passam na sala do detetive Tupolski seus últimos momentos de vida.

Não se trata de um roteiro cômico – em nenhum dos dois casos – e a risada é despertada pela atuação de determinados personagens (como o detetive Tupolski e o irmão de Katurian, Michal). E por mais que elas possuam a mesma história, com diálogos realmente muito parecidos, o público pareceu rir mais com “The Pillowman: O Homem Travesseiro”, descrita como comédia – que já mostrou a que veio com a mensagem engraçada para desligar os celulares. Como um alvará para rir.

Na montagem em drama, observa-se o uso maior de silêncios durante a narração e de uma violência mais escancarada com os presos.

Enquanto o protagonista narrava um conto seu, muito deprimente, o espectador se espantou no primeiro dia e gargalhou no segundo. Como no primeiro tratava-se de um drama, ficava feio divertir-se com a desgraça. Mas no segundo, pode-se dizer, estava permitido.

O cigarro que tragava o policial Ariel e a bebida alcoólica que ele e seu chefe volta e meia sorviam. O barulho quase tangível do tiro ou ainda da furadeira e dos gritos. A música inocente. A leitura dos contos. O fogo na lata de lixo e a mesa para interrogatório no centro do palco. Os poucos feixes de luz que penetravam a escura sala de investigação e principalmente a fumaça que envolvia e completava o cenário tenso. Os sentidos do público foram aguçados nas duas versões.

A companhia paulista Teatro Esplendor, responsável pela montagem do comédia, inseriu mais silêncios durante a narração e uma violência mais escancarada com os presos. Os personagens estavam todos em cena no início da peça. Propositalmente despenteados, mal vestidos, falavam rápido e interrompiam uns aos outros. A corcunda foi símbolo de dois ou três deles.

Já o  drama, montagem das cariocas Pitaco Produções e Brancalyone Produções Artísticas, ficou diluído, menos desleixado. Seu início contou com o protagonista, solitário, sentado à mesa, com vendas e amarras. Frisou-se, independentemente da localização dos personagens e possibilidade de dar boas risadas ou não, a importância do legado que é deixado por um escritor e que essa herança vale muito mais do que a própria vida. “Escritor bom é escritor morto”, caçoou o delegado Tupolski. Segundo o protagonista Katurian, o escritor possui uma primeira ou única obrigação: contar uma história. E foi o que fizeram.

Outras questões que são apontadas na peça são os limites entre ficção e realidade e a culpa que o artista leva pelos sentimentos e sensações que sua produção suscita. Com certeza essa obra desencadeou muitas. Desde ataques de alergia por causa do gelo seco, até risadas, dúvida e inclusive espanto.

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