qua 05 out 2022
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Baterias universitárias democratizam cenário do samba em Curitiba

Com muito samba, integração e competitividade, as BUs trazem mais um propósito à vida universitária.

Após um 2021 sem carnaval e a mudança dos desfiles deste ano para abril, devido ao crescimento de casos de covid-19 às vésperas do evento, as 12 escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro desfilam hoje e amanhã na Marquês de Sapucaí. Enquanto isso, em Curitiba, uma cidade onde não se ouve muito sobre samba e carnaval, mesmo nas datas festivas, cresce um movimento importante para a propagação da cultura, entretenimento e para a vida acadêmica dos jovens: as Baterias Universitárias (BUs) são como pequenas escolas de samba, cada uma criada para representar seus respectivos cursos nas faculdades.

Baterias combinam instrumentos para criar e tocar ritmos variados, como axé, samba e funk. (Foto: Reprodução/Bebacos UFPR)

Sambando e aprendendo

As BUs são compostas somente por alunos. Os veteranos passam seus conhecimentos musicais para os calouros de forma gratuita, ensinando na teoria e na prática como tocar os instrumentos de percussão. Para se sustentar, as baterias tocam em eventos, festas, formaturas e até em casamentos. Algumas chegam a ser patrocinadas por grandes marcas, como a Corote, bebida popular entre os jovens universitários.

Participar de uma bateria universitária é uma grande oportunidade para os estudantes. A diretora da Bebacos (Bateria Extremamente Bêbada de Comunicação Social) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Giulia Maia, explica: “As BUs têm uma importância não só no sentido musical, mas elas ajudam o universitário a ter um aprendizado mais profundo em outras instâncias que não sejam só a faculdade, como a criar laços e desenvolver novas habilidades”.

Muito é exigido dos ritmistas. É preciso ter força de vontade para aprender até ser autorizado a participar das apresentações. Pode demorar meses ou até mais de um ano para que o estudante esteja pronto, conhecendo bem todos as técnicas e acompanhando o tempo dos outros instrumentos. Isso é feito por ensaios contínuos, que geralmente acontecem à noite ou nos fins de semana, para não atrapalhar quem trabalha ou estuda no campus.

 Baterias de vários cursos da UFPR se unem para tocar no banho de lama, em 2020 (Foto: Bateria do C7)

Integração

As apresentações costumam render cachês para as baterias, mas o principal é a interação entre os alunos. Como as festas costumam convidar mais de uma bateria, elas se juntam para ensinar umas às outras, marcando ensaios conjuntos e workshops. Isso construiu uma rede extensa de relacionamentos e promoveu a união entre as faculdades. Assim nasceu a Liga das Baterias Universitárias de Curitiba (CWBU). O objetivo do grupo é transformar as BUs nas protagonistas do samba e dos eventos culturais na capital paranaense. 

A CWBU tem o propósito de fomentar o samba e o crescimento das baterias da capital, sempre aliado a campanhas de conscientização e resistência contra o preconceito. (Foto: Reprodução/CWBU)

Mais de 20 baterias já participam e graças a isso o movimento tem crescido num ritmo intenso. Todas evoluem juntas e ritmistas de qualquer bateria da Liga podem fazer parte da gestão. A ex-presidente da CWBU e integrante da bateria Los Borrachos (Unicuritiba), Jenni Ferreira, comenta: “Foi uma baita experiência de vida, crescimento na minha vida pessoal e até mesmo na profissional. Me ajudou muito a expandir a minha visão de mundo e sobre as baterias. Tenho orgulho do crescimento da Liga como um todo durante a minha gestão e até mesmo do Curitibatuque, que é sempre um evento muito lindo. A maior dificuldade é conseguir representar todas as baterias e trazer experiências que acrescentem às baterias grandes e pequenas”, conta.

Em 2014, a CWBU lançou a sua maior contribuição para a cidade. O Desafio das Baterias Universitárias de Curitiba, ou Curitibatuque, é um evento anual em que cada bateria apresenta uma composição própria e é avaliada pelos jurados. Os critérios abrangem a equalização (se nenhum instrumento se destacou a mais ou a menos), a versatilidade (como a bateria fez as passagens de um ritmo para outro) e o efeito geral no público e nos jurados. No fim do evento são anunciadas as melhores baterias e ritmistas do ano, com premiações de instrumentos para as três primeiras colocadas.

Vencedores do Curitibatuque desde a sua criação até 2019, a última edição até o momento. (Infográfico: Lorenzzo Gusso)

A Bateria do C7, também da UFPR, é tetracampeã e a maior de Curitiba em número de premiações em outros campeonatos. Ela abrange os cursos de Arquitetura e Urbanismo, Engenharia Ambiental, Civil, de Biotecnologia e Bioprocessos, Elétrica, Mecânica, de Produção e Engenharia Química. É um exemplo interessante de como uma bateria pode ir além das festividades. Dentre os eventos organizados pelo grupo para a integração dos universitários estão: as feiras de profissão e estágios, semanas acadêmicas e cursos de extensão. Para ensinar os iniciantes, a bateria criou o Sub-20, uma espécie de escolinha aberta para todos, independentemente de curso, gênero e idade, em que os mais experientes passam seus conhecimentos e técnicas adiante.

Espaço para todos

Direitos iguais e acesso a todos. São os principais valores da CWBU e das baterias participantes. Homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de preconceito ou abuso não são tolerados, nem nas festas e nem no ambiente acadêmico. Quem ultrapassar essa linha é punido e pode chegar a ser banido do grupo e dos eventos.


Não é preciso ter uma bateria gigante ou de sucesso para fazer parte, afinal, todos começam em algum lugar. O próprio Curitibatuque possui sua divisão de acesso para as baterias menores que, anualmente, têm uma chance de subir para a divisão principal. Basta estar entre as duas primeiras colocadas. Em 2019, na maior edição do evento até agora, foi a vez da bateria Hooligans, de medicina da Faculdade Evangélica. “Não tem palavras que descrevem a emoção de colher as conquistas, fruto de muito esforço. Ensaios no sábado de manhã, na chuva, sol na cara… Não é fácil! Enfim, chegou o resultado desse trabalho”, escreveram em um post de comemoração no Instagram. A bateria Hooligans também conquistou os estandartes de melhor chocalho, tamborim e melhor mestre naquele ano.

Nesse mesmo evento, tatuagens e tirantes com a bandeira LGBTQ+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e o termo Queer) e frases como “Samba é resistência” e “Toque como uma mina” foram escolhidos pela liga para serem vendidos e distribuídos, Para coroar a demonstração de união, o Batuque das Minas foi uma das atrações da noite. Composta somente de ritmistas mulheres integrantes das demais baterias, o grupo se uniu para tocar especialmente no mês da mulher no Pedrão Lounge & Bar. Fizeram tanto sucesso que a bateria começou a ser chamada para tocar em cervejadas e festas. Quando subiu no palco do Curitibatuque pela primeira vez, fez as outras baterias cantarem, gritarem e dançarem ao seu som. Uma clássica demonstração do resultado da união e de como todos têm o seu direito e poder no samba..

Sam, mestre do Batuque das Minas é levada ao palco enquanto as baterias gritam seu nome. (Foto: Reprodução/CWBU)

Incansáveis

Como a maioria das atividades presenciais, os ensaios, shows e festas das baterias tiveram que ser suspensos durante a pandemia. Mas isso não foi suficiente para desanimar os estudantes, que continuaram treinando em casa e competiram mais uma vez em plena quarentena, dessa vez em um campeonato online organizado pela liga, o Torneio Versus!

As regras eram simples: cada bateria mandaria um vídeo curto se apresentando, da maneira mais criativa, com instrumentos improvisados direto de casa. No final do prazo de cada etapa, os vídeos eram postados na página do Instagram da Liga e quatro jurados davam seus votos. Em caso de empate, a decisão era da torcida e o vídeo com mais curtidas vencia, passando para a próxima fase.

O resultado? Sucesso absoluto! Com algumas etapas passando a marca de 30 mil visualizações e elogios de artistas como Armandinho e Renan Scharmann, o Versus provou que a essência das baterias curitibanas está no espírito, muito mais do que no seu tamanho ou quaisquer limitações físicas.

Um dos vídeos mais visualizados do campeonato, da Bateria Bebacos, posteriormente medalha de prata no pódio.

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