Neste último domingo (6), foi realizado o primeiro turno das eleições para prefeito e vereador em 5.569 municípios de todo o Brasil. Com a chegada do período eleitoral, que ocorre de dois em dois anos no país, é comum que a paisagem da cidade se transforme com bandeiras, adesivos e carreatas.
É certo que a divulgação das campanhas eleitoras no ambiente digital transformou as eleições da última década. Mas, junto ao rádio e à televisão que se mantém como tradicionais veículos de campanha, as ruas permanecem como um meio objetivo e abrangente de se atingir o público e conquistar votos.
A professora Luciana Panke, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora na área de campanhas eleitorais, defende a importância das campanhas presenciais para a construção de um período eleitoral justo e democrático: “Campanha tem que ser feita na rua. Tem que ser feito esse contato e tem que ter essa adesivagem, esses panfletos, bandeiras. Tem que ter esse clima de momento democrático, de escolha pelos representantes”, afirma.

Com mais de 400 mil candidatos e mais de 155 milhões de eleitores, segundo dados da Agência Brasil e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil tem uma das maiores eleições em números absolutos do planeta. Nesse cenário, a campanha nas redes sociais tem alcance limitado, já que 57% dos brasileiros não têm acesso pleno à internet, segundo dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
Isso significa que mais da metade da população possui uma ou mais limitações de acesso à internet no sentido de acessibilidade financeira, acesso a equipamentos, qualidade da conexão ou ambiente de uso. Consequentemente, muitos eleitores buscam e encontram informações sobre os candidatos das mais diversas maneiras.
“A gente tem que cuidar para não ficar preso em bolhas, achar que está todo mundo online. Não, não está”, destaca Panke. A professora também comenta que, mesmo com acesso à internet, muitos eleitores não buscam ativamente por conteúdos de política e isso faz com que a campanha eleitoral nas redes sociais costume atingir quem já tem um interesse prévio por esses temas.
A indecisão e o voto de última hora
“Meus pais já pegaram santinho, na frente do colégio onde votam, no chão, antes de entrar, pois não tinham candidatos”, conta Victor Schultz, 25 anos. O relato do estudante não é um caso isolado quando se observam os dados de intenção de voto das eleições municipais. Na pesquisa mais recente divulgada pela Quaest a respeito das eleições de Curitiba, na intenção de votos espontânea (quando os nomes dos candidatos não são apresentados), 60% dos eleitores afirmaram que ainda não tinham escolhido um candidato para prefeito.
Em outros pleitos, o fenômeno se inverte. Nas eleições de 2022 em todo o Brasil, dados do Datafolha revelaram que um em cada dez eleitores definiu o voto para presidente na véspera ou no dia da eleição.
Curitiba, segundo as pesquisas, possuía quatro candidatos com possibilidade de ir ao segundo turno. O resultado de domingo confirmou que não havia “eleição ganha”. Cenários como o da capital mostram a importância do papel desempenhado pelas campanhas desde o início até os últimos dias do período eleitoral.
Victor, ao falar sobre seus pais, comenta que a foto e elementos visuais dos panfletos já foram, antes, para eles, motivo de voto: “se é alguém com quem eles ‘foram com a cara’, é voto na certa”. Segundo Panke, a identidade visual é parte fundamental nas campanhas de rua, porque é justamente o que impacta de longe e de forma rápida. E com muitos candidatos – principalmente para o cargo de vereador – o tempo necessário à construção de uma identificação do eleitor com a candidatura acaba sendo curto.

A pesquisadora explica que em campanhas para vereador normalmente são utilizadas duas técnicas. “Uma delas é esse candidato ou candidata ser apegado ao tema, por exemplo: o candidato da educação, o candidato do meio ambiente, o candidato por educação de autistas, algo assim. Ou é por um recorte geográfico: o candidato do Capão Raso, do Boqueirão, do Centro”, detalha Panke.
A partir dessa aproximação a um tema ou a um local, são construídas as estratégias de propaganda que criam conexão com eleitores que são de um mesmo bairro, ou lutam pela mesma causa. Por esse motivo, a presença nas ruas fisicamente acaba sendo muito importante. Diferente das redes sociais, a rua é um espaço frequentado por uma diversidade muito maior de pessoas. “Não existe um perfil exclusivo de quem está na rua”, completa a professora.
Por outro lado, Panke também faz uma crítica a essa presença dos candidatos nas ruas, que muitas vezes só acontece em período de campanha. “Às vezes esses candidatos estão nas ruas só em momento eleitoral e não em outros momentos, da mesma forma vereadores e vereadoras que depois acabam esquecendo suas bases. E esse é um erro político, porque tem que estar presente na vida das pessoas de uma forma constante”.
Ficha técnica
Reportagem: Leticia Negrello
Edição: Gustavo Beckert
Supervisão: Cândida de Oliveira