qui 21 out 2021
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Coletivo Paralelo propõe reflexões pelas paredes de Milão

A ideia surgiu após discussões entre os membros do grupo, que questionaram as imposições da sociedade sobre os indivíduos, e foi colocada em prática pela primeira vez no início deste ano. O Coletivo Paralelo é formado por Max Alan Kampa, Giuliano Perretto, ambos estudantes de Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Guilherme Martins Pimenta, estudante de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP). Os pôsteres artísticos, chamados de lambe-lambes, são colados nos espaços públicos de Milão,na Itália, trazendo mensagens que instigam a reflexão sobre a cidade e fazendo com que as pessoas pensem além daquilo que é convencional. O Jornal Comunicação conversou com Max Kampa, que nos contou mais sobre o Coletivo.

Formação do Coletivo Paralelo, com cada integrante do grupo desenvolvendo uma função pré-estabelecida, mas que sofre alterações dependendo do lambe a ser colado. Na imagem Giuliano faz as filmagens e fotos, Max e Pimenta fazem a organização das partes do lambe antes da colagem (Foto: Divulgação)
Formação do Coletivo Paralelo, com cada integrante do grupo desenvolvendo uma função pré-estabelecida, mas que sofre alterações dependendo do lambe a ser colado. Na imagem Giuliano faz as filmagens e fotos, Max e Pimenta fazem a organização das partes do lambe antes da colagem
(Foto: Divulgação)

Jornal Comunicação: Como começaram?

Max: O Coletivo começou de uma forma um tanto inesperada. Sempre conversávamos sobre fazer algum tipo de intervenção na cidade, pois, desde o início, a achamos muito cinza e pobre no quesito arte urbana. Até que um dia, enquanto falávamos sobre o assunto, tivemos a ideia de fazê-la através da técnica de lambe-lambe (que nada mais é do que papel e cola feita de farinha e água). Com o baixo custo da técnica e a colagem rápida, conseguíramos fazer mais intervenções. Resolvemos colocar a ideia em prática e o que começou mais por “divertimento”, acabou se tornando algo sério para nós.

JC: Quando o Coletivo foi criado?

Max: O coletivo surgiu no início de 2015. Foi quando percebemos que estávamos imersos nas nossas intervenções e na arte urbana de forma geral. Já tínhamos feito três ou quatro trabalhos e vimos que isso poderia ter uma identidade, um nome, um porquê de eles existirem. Nesse momento, achamos que criar o Coletivo seria a coisa certa a fazer, tanto para identificar nossos trabalhos quanto para divulga-los.

JC: Porque os lambe-lambes?

Max: Além de a técnica ter baixo custo, proporcionando a vantagem de se fazer muitos trabalhos gastando pouco, o lambe-lambe tem suas particularidades estéticas e visuais, que o difere muito do grafitti. O lambe-lambe oferece a possibilidade de trabalhar não só com desenho, mas também com fotografia, o que é bastante impactante, pois nos deparamos com imagens de pessoas reais nos muros, muitas vezes nos encarando, nos questionando. Ele também é um veículo de comunicação incrível, transmite pensamentos às pessoas, as faz parar, refletir, criar suas próprias interpretações, sendo que na sua forma mais crua, são apenas pedaços de papel colados numa parede.

JC: Qual o objetivo do Coletivo?

Max: O nosso objetivo é que as pessoas comecem a enxergar as coisas de forma diferente e pensar além do convencional. Queremos que elas comecem a ter livre interpretação para muitas regras que fazem parte do seu dia a dia. Que aquele um minuto, ou aqueles 20 segundos em que ela viu a mensagem, possam levá-la à interrogação, talvez reforçar um pensamento já existente ou, quem sabe, mudá-lo completamente. Só queremos que a rua seja também um veículo do pensar, seja através do design, do questionamento social ou político. E é também, para nós, uma forma de as pessoas perceberem mais a cidade onde vivem, onde passam.

JC: Em que locais já fizeram as intervenções?

Max: Por enquanto estamos colando os lambe-lambes só nas zonas de Milão, que é onde começamos. Fora de Milão, colamos alguns stickers/adesivos com a logo do nosso Coletivo em Chicago. Nossa ideia é expandir o trabalho em outros países pela Europa, alguns já têm data marcada.

JC: Quais países já têm definidos? 

Max: Em maio, vamos para Barcelona. Início de junho, para Moscou e, em julho, faremos uma viagem de um mês pelo leste europeu, com destinos que ainda não estão completamente definidos, mas provavelmente será Budapeste, Viena, Praga e, talvez, Romênia e Croácia.

JC: Como surgem as ideias para as imagens? 

Max: As ideias e também a criação do Coletivo vieram de uma discussão sobre a imposição e as convenções que a sociedade coloca na cabeça de cada pessoa. Em nossas imagens questionamos aspectos sociais, políticos e também a nossa própria profissão: o design. Partindo desse questionamento, criamos nossa logo, onde retratamos um morador de rua em uma carta de baralho. No nosso universo paralelo, o morador de rua também pode ser rei. Nossos conteúdos e contextos são sempre paralelos ao que está sendo imposto pela sociedade.

JC: Como o trabalho é recebido pela população?

Max: Ao contrário do que algumas pessoas devem pensar, o trabalho tem sido recebido de forma extremamente positiva. Temos recebido elogios e cumprimentos de muitas pessoas, tanto via internet como pessoalmente. Você começa a perceber que, ao contrário de anos atrás, uma grande parte das pessoas já está enxergando a arte de rua com outros olhos. Elas estão começando a se sentir parte disso, a ver que aquela voz não é só de quem fez a arte, e sim de todos que estão na rua, que fazem parte daquele lugar, daquela rotina. A arte de rua grita para todos e por todos e, de certa forma, todos temos nossa participação nela.

JC: O Coletivo já teve problemas com as autoridades?

Max: Não. Uma vez enquanto fazíamos um trabalho em uma avenida bastante movimentada, um carro da polícia parou e perguntaram o que estávamos fazendo. Respondemos que estávamos fazendo arte, a policial olhou por alguns segundos e perguntou “mas no viaduto?”, respondemos que sim, ela aceitou e, em seguida, foi embora. Foi a única vez que tivemos abordagem de uma autoridade.

JC: Qual foi o momento mais interessante?

Max: Um dos momentos mais interessantes que tivemos foi quando um senhor veio até nós enquanto fazíamos uma intervenção. Pensamos que ele reclamaria, mas, na verdade, elogiou o trabalho e disse que devíamos fazer alguns metros para a esquerda, pois ele é proprietário de um café e, de acordo com ele, deixaria a vista do ambiente mais bonita e atraente. São coisas pequenas que, para nós, têm um valor imenso. Ver o reconhecimento de uma pessoa de uma geração mais antiga coexistindo e se identificando com a nossa é uma sensação incrível.

JC: Quais os planos do grupo?

Max: Continuaremos com o coletivo no Brasil assim que voltarmos. Queremos realizar trabalhos no maior número de lugares possível, para que mais pessoas possam ter acesso a esse tipo de arte. Temos em mente alguns projetos futuros, talvez expandir o grupo para outras partes do Brasil, criando um grande coletivo de artistas de rua.

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