qui 21 out 2021
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De peão a cavaleiro

Vice-campeão da Prova Metropolitana de hipismo em 2009 e vice, também, do Campeonato Paulista de 2011. Grandes conquistas para uma pessoa normal e vitórias extraordinárias para um adolescente com Síndrome de Down: é esse tipo de consideração que Cláudio Aleoni desconstrói na rotina de cavaleiro. Ser campeão é parte do trabalho de atleta.

Lisabeth Aleoni, mãe de Cláudio, conta em entrevista por telefone que, na infância, ele já frequentava a chácara dos avós, em Santana do Deserto (MG), cerca de 450 km de São Paulo. Lá, teve o primeiro contato com animais de grande porte – em especial cavalos e gado bovino.

Cláudio não sabia quando pequeno, mas como todo bom cavaleiro, a dedicação começou cedo. É comum que a primeira conexão entre cavaleiro e animal seja estabelecida na infância. Mesmo sem tomar conhecimento disso e sem nem sonhar em saltar com um cavalo, ganhou, aos cinco anos, a égua Cinira.

Cláudio Aleoni com seu cavalo. Foto: Arquivo Pessoal

Equilíbrio, direção e concentração

Cláudio desenvolveu essas habilidades tocando a boiada – um peão de sangue. Uma lição que ele aprendeu com a deficiência é ter cautela e fazer tudo sem ultrapassar as barreiras impostas pelas limitações. Dessa forma, a família seguiu apoiando a evolução do garoto.

“Eu e o pai dele praticávamos mountain bike, um dos poucos esportes que Cláudio nunca teve interesse em experimentar”, conta Lisabeth. Ela relatou que o jovem fez de tudo: jogou futebol, fez natação, praticou tênis de mesa e montou cavalos, muitos cavalos.

Aos oito anos, ele ganhou a égua que chama de “professora”. “Borboleta” era mansa, animal de carroça e, portanto, paciente com os avanços silenciosos do menino. A prova de fogo veio com uma mangalarga com ossatura alta, uma classificação de raça de cavalos. Mais uma vez, Cláudio surpreendeu no desempenho. Com quinze anos ficou decidido que o garoto faria um teste para entrar na Escola de Equitação da Sociedade Hípica Paulista.

Cláudio seguiu aulas que provavam o entendimento de percurso e obstáculos no chão. Foi campeão interno nas séries 0,20m; depois 0,40m e duas vezes no 0,60m. Todos os progressos foram conquistados embasados na tranquilidade e no amadurecimento do cavaleiro.

Uma vida de conquistas

Cláudio cresceu e novos compromissos surgiram com o tempo. Com 19 anos, começou a trabalhar no Applebee’s, uma rede de restaurantes. Novos horários precisavam ser adaptados às novas rotinas.
O desejo de competir fora do sistema da escola de equitação surgiu e os pais partiram em busca de patrocinadores. A solução estava, mais uma vez, nas mãos do próprio adolescente. A rede de restaurantes na qual Cláudio trabalhava começou a patrociná-lo.

Em 2008, o jovem conquistou a décima posição no ranking da Prova Metropolitana. No ano seguinte, veio um vice-campeonato e, junto com esse título, mais um patrocinador. Durante os três dias de competição no Campeonato Paulista, Cláudio teve que focar em executar bem algumas metas para que, montado no cavalo Ônix, pudesse ficar no segundo lugar geral do torneio.

Mais um concurso bem realizado. No Paulista de 2011, fez apresentações impecáveis nos dois primeiros dias de prova. Porém, sofreu um refugo no último dia, o que atrapalhou o desempenho e deixou Cláudio com outra segunda colocação.

Um Apelo

Depois de dominar o 0,60m, o atleta não teve como avançar mais. Ele não tem cavalo na hípica para tentar os saltos de 0,80m. A situação complica porque, nessa categoria, a interação entre cavalo e cavaleiro deve ser íntima. Sem um conjunto fixo, é perigoso prosseguir, por conta das limitações de Cláudio.

As quedas até são frequentes, mas o limite de segurança para isso esbarra na altura de 0,60m. Para não parar de brilhar, perseguiu outro desafio: a vontade de ir para os Jogos Paralímpicos. Ao pesquisar sobre o assunto, descobriu que só deficientes físicos podem participar. A alternativa aparente foram as Olimpíadas Especiais.
Para participar das Olimpíadas Especiais com todas as nações, é preciso que o candidato passe pela SOB (Special Olimpic Brasil). Porém, a organização brasileira não conta com o hipismo entre as modalidades que chegam ao torneio internacional. Mesmo que a modalidade estivesse na lista nacional, Cláudio só poderia participar da categoria de adestramento.

A mãe do cavaleiro contou que, em 2013, Cláudio lançou uma campanha: Paralimpíadas 2016 para deficiente intelectual no hipismo. “O objetivo é chamar a atenção do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), para que a entidade possa incluir pessoas com tal deficiência no time de hipismo”, afirma Lisabeth.

Mesmo sem patrocinadores, Cláudio segue fazendo duas aulas de adestramento por semana. Os treinos são motivados pelo desafio e pela esperança de um dia poder participar de uma competição de grande porte, como as Olimpíadas Especiais. O atleta não parou com as aulas de salto e mantém uma na grade de treinamentos para não perder a dose semanal de adrenalina.

Um livro, várias palestras

O hipismo sempre permeou a vida de Cláudio. Agora, ele trabalha como assistente de equitação no Poney Clube Brasil. A possibilidade de evoluir e de se desenvolver faz dele um jovem consagrado no esporte.

Hoje com 29 anos e morador da capital paulista, o cavaleiro já lançou um livro com mais cinco colegas do Centro de Referência em Distúrbios de Aprendizagem (CRDA). Intitulado “Mude o seu falar, que eu mudo o meu ouvir”, a obra já foi traduzida para o inglês e apresentada na sede das Nações Unidas.

Reconhecido internacionalmente, Cláudio dá palestras sobre superação e força para continuar a luta por novas conquistas. Entre os novos desafios do atleta está a gestão do tempo, entre trabalho, treinamento e palestras.

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