qui 21 out 2021
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De túmulo em túmulo

Formada em relações públicas, Clarissa Grassi pesquisa cemitérios há pelo menos nove anos. A curiosidade, no entanto, começou desde cedo, quando se despediu da avó no Cemitério Municipal e descobriu o encanto na arte tumular.

Entre as profissões esta pode ser considerada uma das menos comuns. Caminhar de túmulo em túmulo fotografando as ranhuras no cimento e desvendando a história de cada um dos 5.766 moradores do Cemitério Municipal de Curitiba, não é para qualquer um. Exceto para a relações públicas Clarissa Grassi, que não só pesquisa o Cemitério São Francisco de Paula há nove anos, como também é presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais.

Como se isso não bastasse, durante a Virada Cultura, Clarissa repassa seus conhecimentos a um grupo de curiosos por belas artes e história, em uma modalidade que vem ganhando cada vez mais adeptos no país: o turismo cemiterial. A prática é comum em cidades como Paris, Los Angeles e Buenos Aires. No Brasil, São Paulo é a grande referência na área.

Longe de ser um passeio mórbido ou gótico, as ruelas do cemitério mais antigo de Curitiba (fundado em 1854) escondem verdadeiras obras de arte. Foram as estátuas e adornos que atraíram a cemiterióloga de 35 anos para a ocupação. Clarissa conta que sua relação com a morte começou muito cedo. Aos oito anos despediu-se da avó no mesmo cemitério que viria a ser sua fonte de pesquisas. “Eu sempre fui muito curiosa para saber o que determinada escultura representava e como eles viveram”, conta a pesquisadora.

Clarissa não recebe remuneração alguma para guiar os interessados em aprender mais sobre arte tumular e por isso mesmo não gosta de classificar seu trabalho como turismo. “Eu não tenho formação na área e nem sou guia turística, mas acho que vale a pena mostrar que existem coisas diferentes para conhecer na cidade”. Muito mais do que um ponto turístico, Clarissa trata o cemitério com um raro cuidado. Entre uma explicação sobre a vida do Barão do Cerro Azul e da milagreira Maria Bueno, Clarissa levanta os vasos caídos, anota os sinais de vandalismo, como se fossem objetos de sua própria casa.

Em 2003, durante uma produção de textos e fotos do São Francisco de Paula, para a empresa onde trabalhava, Clarissa descobriu que sua curiosidade poderia virar pesquisa. Virou um livro. “Um olhar… A arte no silêncio”, lançado em 2006 é uma compilação do olhar apaixonado da autora pelas manifestações artísticas nos túmulos e um estudo detalhado de gerações. “O cemitério é o espelho da sociedade, aqui podemos estudar epidemias, desenvolvimento industrial, moda e tudo mais que se possa imaginar”, explica Clarissa.

A mãe, Raquel Grassi está presente em todas as visitas guiadas. No começo, tinha medo da filha passar mais tempo no cemitério do que em casa. Por isso mesmo passou a acompanhar Clarissa fazendo medições, levantamentos nos livros de registros e enviando cartas para as famílias dos mortos. Mas nem por isso ela deixou de achar perigoso andar sozinha pelos corredores do São Francisco. “Tem muita gente que vem aqui passar a noite, depredar as estátuas, roubar os túmulos, entre outras coisas piores”, relata a mãe.

Raquel não só prestigia as visitas da filha como também é um dos maiores motivos de Clarissa encarar com naturalidade a pesquisa. Para a cemiterióloga, a mãe sempre tratou a morte como algo muito comum e inerente à vida. “Quando a morte faz parte do nosso dia a dia aprendemos a viver melhor, valorizar mais nossas relações e nossas raízes”.

Já os amigos, no começo, estranharam a cumplicidade de Clarissa com o local. Nas primeiras fotos, muitos perguntavam em que praça a bela estátua ficava. Ao receber a resposta de que faziam parte do cemitério, muitos reagiam com incredulidade ou mudavam a opinião sobre a beleza da obra. “Como algo pode ser lindo e cinco minutos depois ser horroroso?”, conta Clarissa.

A resposta ela mesma dá. “A verdade é que a morte é cheia de tabus. Ao mesmo tempo em que as pessoas sentem repulsão também sentem a curiosidade”. Nada poderia explicar melhor, o fato de que em todas as seis turmas que já participaram na visita nesses dois anos, o número de curiosos ultrapassou os trinta, homens e mulheres, idosos e crianças.

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