dom 24 out 2021
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Dramas familiares em cena no Guairinha

O estilo da peça mais intimista influenciou na escolha do palco do Guairinha.

A procura foi grande. Tanta, que sessões extras e cadeiras a mais foram necessárias para o público ávido por lotar o Auditório Salvador de Ferrante, vulgo Guairinha, para prestigiar a peça “Esta Criança”. Um dos destaques da Mostra Oficial 2013, o espetáculo foi um dos primeiros a ter ingressos esgotados para as sessões regulares.

As razões são bem evidentes. Primeiro, drama familiar é sempre atrativo, pois se dirige a todo tipo de público. Não há quem não se reconheça em alguma das dez situações em cena. Segundo, a peça é estrelada por Renata Sorrah, que dispensa qualquer apresentação. Por último, o Guairinha é reconhecidamente pequeno, e lota bem mais rápido.

Porque, então, não encenar “Esta Criança” no palco do Bento Munhoz da Rocha, o venerado Guairão? Justamente pela montagem intimista, e pelo elenco camaleônico – com Ranieri Gonzalez, Edson Rocha e Giovana Soar – que se desdobra em vários personagens reconhecidos apenas pelos laços parentais, e circula entre o público aconchegante do Guairinha. Não dá pra ter o mesmo efeito numa escala maior.

Mas vamos ao que interessa. Toda essa procura valeu a pena? Sem qualquer sombra de dúvidas. Até dentro da classe artística, houve quem prestigiasse o espetáculo. Na sessão de segunda-feira, logo após a apresentação extra das 19h, era possível encontrar rostos conhecidos como Luiz Mello e Nizo Neto entre o público que lotava a calçada do Guairinha.

Com atraso de dez minutos, e um claro esforço da organização para acomodar a todos (faltavam algumas cadeiras), “Esta Criança” teve início. Na primeira cena, o título era justificado: Renata Sorrah surge em cena como uma grávida que traça inúmeros planos para o bebê que terá. “Esta criança vai ter tudo que eu não tive, vai ter orgulho da mãe que tem”, sonha a personagem.

Apesar de roubar a cena com sua intensidade, tanto nas cenas trágicas, quanto nas cômicas, Sorrah divide o palco com os talentosos Rocha (do filme “Curitiba Zero Grau”), Gonzalez e Soar, curitibanos bastante conhecidos do público, que já contracenaram em peças como “Isso te Interessa?”, em cartaz no festival em 2012.

Nos trechos em que as personagens de Renata descontraiam, e davam gargalhadas – às vezes nervosas, como na estranha cena do necrotério – era impossível não se recordar de Heleninha Roitman, de “Vale Tudo”, e da grande vilã Nazaré Tedesco, de “Senhora do Destino”. O público também não se conteve, e muitos riam com ela. Coisa de mestre.

Os quatro atores fizeram de tudo um pouco. Foram pais, filhos, avós, mães, filhas, avós e amigas de família. Pontos cruciais e eternos das relações familiares estavam em cena, como pais e mães solteiros, filhos viciados, filhos que acabam sendo pais de seus pais, mulheres grávidas ou com bebê de colo, e velhos que não aceitam sua condição de decrepitude.

Está explicado o sucesso de “Esta Criança”. O grande palco da vida estava todo em cena, com suas relações estranhas e inerentes à maioria das famílias. Falando em palco, o cenário em diagonal, com uma parede que se movia e poucas cadeiras em cena, deixou tudo ainda mais simbólico. Intimista, pessoal e aconchegante, na mesma medida em que nos repelia em algumas situações. Como é a vida. Bravo!

Esta Criança

Elenco: Renata Sorrah, Ranieri Gonzalez, Edson Rocha e Giovana Soar.

Realização: Companhia Brasileira de Teatro e Renata Sorrah Produções Artísticas.

Direção: Marcio Abreu.

Texto: Joël Pommerat

Origem: Curitiba

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