seg 18 out 2021
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Editorial: Fruet entre Judas e Lampião

O prefeito Gustavo Fruet está isolado. Por todos os lados, atores adversários ou, no mínimo, não amigáveis o pressionam ou tentam desgastá-lo, às vesperas de anunciar a nova tarifa dos ônibus.
O transporte público em Curitiba é uma bomba-relógio. A licitação realizada em 2010, pelo então prefeito Beto Richa (PSDB), conseguiu fazer com que cada lote fosse concedido exatamente para a mesma empresa que já o explorava, sinal claro de direcionamento do processo. Por isso, é espantoso o silêncio do Ministério Público sobre o assunto. Com uma tarifa técnica cara e com critérios questionáveis, o transporte público concedido tem sido deficitário nos últimos anos, mais ainda com o preço reajustado abaixo do previsto em 2013, por conta das manifestações de junho. O prejuízo da prefeitura cresceu e só pode ser absorvido graças ao subsídio do governo do estado do Paraná e algumas isenções de impostos nos insumos do transporte.
O custo da tarifa técnica para as cidades de região metropolitana é ainda mais alto, mas com o subsídio do Estado era possível cobrar o mesmo valor de quem se desloca em Curitiba, exclusivamente, ou da Fazenda Rio Grande, Araucária ou São José dos Pinhais.

fruet judas
Boneco de Judas com o rosto de Fruet, na manifestação de segunda, 2.

Agora, o governador Beto Richa anuncia que não vai fazer mais repasses para a prefeitura, para subsidiar o transporte público. Razões políticas explicam esta postura mais que a lógica técnica da gestão pública eficiente, pela de marketing do Governo Estadual. Se o prefeito fosse aliado, seja Luciano Ducci (PSB) ou mesmo Ratinho Júnior (PSC), a postura seria bem diferente.
A bomba relógio armada por Beto Richa, com a licitação viciada feita em 2010, e potencializada pela não correção do valor da tarifa está prestes a explodir. E o prefeito não tem como correr para nenhum lado. O Governo Estadual se esforça para desgastá-lo e retomar, para seu grupo político, a prefeitura em 2016. Os empresários do transporte, sobretudo a família Gulin, não têm interesse em mexer no modelo. O sindicato de trabalhadores, o Sindimoc, atua em combinação com o sindicato patronal, faz greve com apoio do patrão, consegue reajuste e impacta na tarifa técnica. Os lucros dos empresários crescem a cada greve. É uma invenção nova nas relações capital-trabalho, em que ambos ganham com seus conflitos. A imprensa bate nos dois, mas leve em Beto e pesado em Fruet. O judiciário também não é o terreno mais amigável, seja pela arrogância e politização do Ministério Público, seja pela ausência de fiscalização, da imprensa ou de órgão externo de controle, sobre o judiciário, que no caso do Paraná já se mostrou bastante suscetível à corrupção.
Nem mesmo o Governo Federal é um alento, já que mudou o regime tributário dos combustíveis e onerou o transporte público, exatamente neste momento tenso. Por fim, os coletivos políticos, fóruns e partidos que foram o motor (não exatamente o leme) de junho de 2013 estão de volta às ruas, malhando o Judas do momento.
Fruet não tem para onde correr. Se quiser deixar de ser Judas, terá que ser Lampião. Certa vez o cangaceiro estava cercado por todos os lados por soldados inimigos. Era ficar no meio e morrer ou tentar algo ousado. Forçou contra um dos flancos, rompeu o cerco e fugiu.
Fruet é contemporizador, mas não tem como botar panos quentes. Se for para cima do movimento social, pode até sofrer poucas consequências, dependendo da força dos protestos, mas sai desgastado com uma medida no todo impopular: o aumento do tarifa, deixa as coisas como estão e facilita a vida do governador. Outra opção é peitar Beto Richa e cobrar os repasses.
Mas o mais correto seria investir onde está o erro: os contratos de concessão do transporte público. Não seria uma briga fácil, já que o judiciário, incluindo o Ministério Público, é posicionado, corrupto ou omisso. Isso poderia baixar a tarifa a curto ou médio prazo. A longo prazo, abriria a possibilidade de oferecer o serviço gratuitamente, como direito, tal qual a saúde pública. A perspectiva dos movimentos sociais não é utópica ou errada. Pelo contrário, faz todo sentido. E pode ser viável. Em São Paulo, algumas iniciativas já apontam neste sentido, mas é preciso coragem de Lampião para não fazer papel só de Judas.

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