sáb 23 out 2021
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“Eleição é um jogo de cartas marcadas e a rua é a saída”, afirma Rodrigo Tomazini

Rodrigo Tomazini é natural de Botucatu (SP) e atualmente vive em Sarandi (PR). Trabalha como Educador em uma escola estadual. Foto: Bruna Junskowsk
Rodrigo Tomazini é natural de Botucatu (SP) e atualmente vive em Sarandi (PR). Trabalha como Educador em uma escola estadual. Foto: Bruna Junskowsk

Rodrigo Tomazini é servidor público estadual e um dos candidatos ao governo do Paraná pelo PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado). Segundo ele, possui experiência em fazer política para o Legislativo e Executivo, visto que participou das eleições de 2010 para deputado estadual e auxiliou na campanha do candidato ao governo na época. Mas, para Tomazini, o diferencial de sua candidatura se dá pelo fato de compreender “as necessidades dos usuários e trabalhadores do serviço público”.

Durante entrevista ao Jornal Comunicação, o candidato esclareceu propostas relacionadas à legalização das drogas, reestatização do Banestado e a criação de um projeto de lei sobre igualdade de condições para trabalhadores e trabalhadoras.

Confira a entrevista:

Jornal Comunicação- Em seu Plano de Governo, o senhor diz necessária a legalização das drogas. O senhor poderia explicar como entende esta questão?

Rodrigo Tomazini- É legalização da maconha e descriminalização das outras drogas. Legalizar ou descriminalizar não significa incentivar o uso. Muito pelo contrário, não queremos ver a nossa juventude intoxicada. Mas significa tratar o problema por outro ponto de vista. Hoje, observamos que a questão das drogas é tratada como crime. Quando se observa a periferia, principalmente, boa parte das mortes está relacionada com esta questão, pois muitas vezes a polícia atira antes de perguntar. De um lado, você traz a produção e o controle da venda pro Estado e não fica nas mãos do traficante, isso passa a combater o tráfico. Então, se as pessoas quiserem, elas vão buscar do Estado e não do traficante. Outro ponto é que o dinheiro investido na compra de armamentos- para que a polícia possa ir combater o tráfico-, seria investido em saúde pública. Nós construiríamos clinicas de reabilitação, mas clínicas decentes, não isso que vemos hoje. O filho do rico, quando tem um problema de dependência, se trata em clínicas,que possuem alimentação adequada, psicólogos que fazem o acompanhamento, saem dali ressocializados e vão ter uma vida tranquila. O filho do pobre ou vai pra cadeia ou vai para o caixão. Nós temos que reverter essa situação.

De acordo com o Sindicato dos Agentes Penitenciários do PR (Sindarspen), foram 20 rebeliões em apenas 10 meses no estado. Como o senhor avalia o sistema penitenciário paranaense e quais suas propostas para melhorá-lo?

Ele é falido. Eu estava em Cascavel no dia da rebelião PEC e pude, inclusive, conversar com alguns familiares. O que a gente percebe por um lado- e que precisa ser investigado-, é a reivindicação dos presos de que todos os dias a marmita vinha estragada, que a carne cheirava a fezes, que, na revista íntima, crianças tinham o mesmo tratamento que adultos e a questão da superlotação. Por outro lado, os agentes penitenciários dizem que o efetivo é muito pequeno. Então, atender as reivindicações deles é importante, os turnos devem ser respeitados, os salários devem satisfazer as necessidades. Esse é um problema. A outra questão é social: as cadeias estão lotadas, porque há uma higienização das periferias, uma criminalização da pobreza. Num primeiro momento, resolve você aumentar a defensoria pública, por exemplo. Sabemos que tem muitas pessoas que já cumpriram sua pena, poderiam ter saído e não saem porque é muito lento o processo. E também se nós conseguirmos realmente ter uma política de transformar a polícia militar num órgão mais humanizado, que tenha mais proximidade com a comunidade, que os comandantes sejam eleitos pela própria comunidade, entender as demandas, tentar resolver os problemas de uma maneira social antes de atirar. Infelizmente, observamos que é um caminho contrário a isso. Há um movimento de começar a privatizar as prisões, isso é um absurdo. Privatização requer uma empresa que vai buscar o lucro, ou seja, cada um que for preso, a empresa vai ganhar. Essa é uma política totalmente reversa, temos que prender menos. Temos que dar condições de trabalho para os agentes penitenciários, tentar resolver os problemas dos que estão lá e não criminalizar a pobreza, tratar como um problema social. O Brasil é muito desigual na distribuição de renda.  Se você vivesse um mês inteiro sem dinheiro você iria roubar em algum lugar para poder comer. Então, isso gera criminalidade, é um problema social que precisa ser resolvido. Não adianta falar que construir mais presídios vai resolver o problema, porque não vai. Se não atacar primeiro o problema social, a má distribuição de renda, você pode construir quantos presídios quiser que sempre estarão lotados.

Em seu Plano de Governo, o senhor cita a criação de uma lei estadual que institua “Trabalho igual, Salário igual”. O senhor poderia explicar como isto funcionaria?

Nós observamos que os homens e mulheres possuem salários desiguais por conta da nossa sociedade machista. Às vezes, desempenham a mesma função, na mesma empresa e há uma diferença de salários por conta do machismo.  Queremos apresentar um projeto de lei para que a Assembleia vote: se os trabalhos são iguais os  salários também devem ser iguais, para poder atacar essa questão. Nós propomos a criação de lavanderias públicas do Estado, construir e contratar servidores para trabalhar na lavanderia pública e restaurantes públicos também. Pois, infelizmente, da noite para o dia não conseguimos atacar a consciência machista dos homens. A mulher sai do trabalho e tem uma dupla, tripla jornada. O Estado pode diminuir essa jornada com essas medidas de combate à opressão. Sabemos que o machismo está vinculado ao capitalismo, você promove uma ideologia para que aja um achatamento de salário, no caso das mulheres, dos negros, e os outros salários acabam, gradativamente, achatando também. Infelizmente, o homem machista é utilizado para isso e não sabe que além de estar sendo opressor com a companheira ou com a colega de trabalho, ele está ajudando o capitalismo que também vai arrochar o salário dele.

Em seu Plano de Governo, o senhor defende a capacitação dos profissionais da saúde para o atendimento humanizado.  Como o senhor pretende capacitar estes profissionais?

Nós entendemos que precisamos investir, nacionalmente, no SUS e, no Paraná, temos que ter toda a verba do orçamento previsto em lei, que são 12% destinados à saúde pública.  O que acontece hoje: boa parte dos recursos da saúde vai para a iniciativa privada. A questão da humanização é incompatível com o privado, porque a lógica do sistema privado é lucro. Quanto mais pessoas atende, mais lucro tem. Como o serviço público não tem interesse em lucro, é possível dar um serviço de qualidade. Como muitos profissionais têm trabalhado no público e privado, essa ideologia se confunde nos locais de trabalho, fora que muitos trabalham 24 horas sem parar. Queremos reduzir a jornada de trabalho desse pessoal para 30 horas, dar um salário decente para que possamos capacitar na lógica do sistema público que é uma lógica de oferece um serviço sem interesse.

Sobre educação, qual sua proposta para alunos com necessidades especiais, principalmente considerando a superlotação das salas?

Da forma como está não dá. Não dá nem se quer para  dar aula pra uma sala com 50 pessoas. Hoje, o que os professores estão fazendo é conseguir dar aula pra 10 ou 15 alunos e o restante da sala acaba se perdendo. Inicialmente, a redução do número de alunos é fundamental. No caso da educação especial, imediatamente, é dar hora-atividade para os professores, pois muitos não têm,  garantir maior número de professores e salario igual aos dos trabalhadores do ensino comum, pois hoje existe uma descriminação com quem trabalha no ensino especial.  Em longo prazo é uma questão necessária de discutira inclusão. Além disso, não adianta reduzir o número de alunos se não pensarmos em dobrar o número de salas de aula nas escolas, para que possamos, inclusive, dar condições para a educação em tempo integral. E pra isso é preciso ter dinheiro. Nosso programa é bem claro, queremos romper com a dívida do Banestado, que já foi paga. E reestatizar o banco para que possamos tirar do controle do Itaú e poder fazer um grande plano de obras públicas a juros zero, praticamente.

Em relação à juventude, como sua eleição beneficiaria esse eleitor, em especial, a classe universitária?

Estamos trabalhando em algo muito recente na história que foram as jornadas de junho do ano passado. Mesmo sendo rechaçado quando subi em um carro de som com a camiseta do PSTU, mesmo vendo que os partidos estavam sendo rechaçados pelos gritos “sem partido”, nós entendemos essa reivindicação.  Foi bom eles gritarem que os partidos não os representam, porque realmente está uma bagunça. Infelizmente, não vamos ganhar a eleição. Vai acabar e muita gente não soube que Rodrigo Tomazini era candidato. Eu tenho 50 segundos de propaganda, enquanto outros tem 7 minutos. Minha campanha esta orçada em 25 mil, enquanto a deles é na base de milhões.  Eu ando de ônibus e eles de helicóptero. Mas entendemos que é importante levar para a juventude esse debate, porque é preciso ir para a rua. Não é nessa eleição que tudo irá mudar.  Estamos dizendo que eleição é um jogo de cartas marcadas e a rua é a saída.

O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa ou deixar alguma mensagem aos leitores e leitoras do Jornal Comunicação?

Uma coisa que é fundamental no nosso programa:  propomos a reestatização da Copel e da Sanepar. Só no primeiro trimestre desse ano, a Copel teve um lucro de 583 milhões de reais, um dado da Revista Exame. Acontece que, por ela não ser mais uma empresa 100% estatal, ela tem capital privado, o capital social dela -quase 50%- é negociado na bolsa de Nova Iorque, na Bolsa de Madri, esse dinheiro some. Nós achamos que a tarifa não deveria subir 25% se esse dinheiro voltasse para o estado. Poderia até abaixar.

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