qui 21 out 2021
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Embalagens comestíveis são o futuro do descarte consciente

Em um mundo cada vez mais preocupado com o descarte consciente de resíduos, um projeto tem assumido a vanguarda das tecnologias para redução de lixo: as embalagens comestíveis. Resistentes e capazes de proteger os alimentos que embalam, esses novos materiais podem ser o futuro dos produtos biodegradáveis.

Desenvolvidas com o objetivo de substituir pelo menos parcialmente as embalagens convencionais de plástico, as embalagens comestíveis têm muitas vantagens. A principal seria seu papel ecológico: caso o consumidor se alimente do invólucro que protege a comida em si, não haverá resíduos para a natureza. E mesmo que essa embalagem não seja consumida, suas características biodegradáveis tornam mais fácil sua deterioração no ambiente.

Esse filme de polpa de acerola com alginato pode conferir sabor diferente à doces. (Foto: Ricardo Mendonça Ferreira)

Filmes comestíveis

Henriette Azeredo, engenheira de alimentos, comanda uma série de pesquisas sobre essa alternativa às embalagens convencionais. Henriette é pesquisadora da Embrapa, e atualmente desenvolve uma pesquisa no Institute of Food Research, em Norwich, Reino Unido, em que pretende desenvolver filmes com base em resíduos de trigo e banana. Ela também deixou vários projetos concluídos e em andamento no Brasil.

“Nós prospectamos materiais promissores (geralmente polissacarídeos ou proteínas) e testamos várias formulações”, explica Henriette. A partir dessas formulações, o próximo passo é avaliar as propriedades mecânicas, tais como resistência e flexibilidade, a aparência, que consiste principalmente em observar se o filme é transparente, e se o material é capaz de barrar água, vapor e impurezas que possam prejudicar o alimento embalado. Os resultados são comparados a fim de encontrar uma matéria-prima ideal para prosseguir com o projeto.

Henriette Azeredo é uma das principais pesquisadoras nesse campo. (Foto:Embrapa)

Apesar de alguns resultados serem promissores, ainda não há previsão para as embalagens comestíveis serem introduzidas no mercado. Depois de desenvolver os materiais no laboratório, seria necessário o interesse de uma empresa em fazer parceria com a pesquisa para tentar introduzir esse novo tipo de embalagem no mercado. Só então poderia ser realizado um estudo de viabilidade técnica e econômica para esse tipo de tecnologia. Porém, a pesquisadora já adianta que tal empreitada pode sair mais caro do que o normal. “Embora não tenhamos estudos de viabilidade econômica, sabemos que os biomateriais ainda são mais caros que os polímeros convencionais usados para embalagem”, explica.

Ainda que as dificuldades econômicas sejam reais, a possibilidade de embalagens comestíveis pode significar um novo tipo de experiência gastronômica. Entre os alimentos que poderão ser embalados com filmes comestíveis, estão frutas frescas ou processadas, doces e queijos. Considerando ainda que a maior parte dos filmes desenvolvidos são insípidos (sem sabor), alguns que estão sendo feitos a partir de polpa de frutas podem conferir um sabor novo para alimentos conhecidos. “A embalagem vai fazer parte do conjunto do sabor. Por exemplo, filmes com sabor de frutas poderiam ser usados para embalar chocolates, e o consumidor comeria um bombom com sabor de chocolate e de fruta”, explica a especialista. Entre os “sabores” de embalagens pesquisados, estão os de manga e de acerola.

Nanofilme

Outra pesquisa vem sendo desenvolvida paralelamente por um grupo de cientistas brasileiros e portugueses no Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de Pernambuco. O objetivo desse projeto é a criação de nanofilmes. Assim como na pesquisa de Henriette, um filme biodegradável e comestível envolverá os alimentos. Porém, nesse caso o filme será extremamente fino, invisível e insípido. Sua função seria prolongar a vida útil de frutas, legumes, pescados, carnes, entre outros. O filme não causará danos ao organismo, tendo poucas calorias e podendo ser consumido inclusive por diabéticos. Esse projeto ainda está em fase de testes, mas é economicamente viável e está apresentando bons resultados.

Associação Brasileira de Embalagem

Como a tecnologia ainda está sendo desenvolvida e não tem previsão de ser produzida em escala industrial, as empresas responsáveis pelo controle de embalagens no Brasil ainda não tem opinião formada sobre as pesquisas. “Esses estudos são muito recentes, e não temos ainda o que dizer sobre elas. Porém, incentivamos todo tipo de pesquisa que pode melhorar as embalagens de alimentos”, explica Sidnei Stoiev, membro da equipe do Abre – Associação Brasileira de Embalagem. Stoiev ainda declara que, quando as embalagens comestíveis entrarem no mercado, será a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a responsável por garantir a qualidade e durabilidade desses novos materiais.

A goma de cajueiro é transparente e pode ser usada para embalar frutas, doces e queijos. (Foto: Ricardo Mendonça Ferreira)

Comestível x Biodegradável

Os produtos biodegradáveis são todos aqueles cujas propriedades facilitam sua reabsorção no meio ambiente – são facilmente deteriorados por bactérias comuns, poluindo menos e sumindo em pouco tempo. Nem sempre, porém, esses produtos podem ser consumidos sem danos por humanos.

As embalagens comestíveis também são biodegradáveis, mas podem ser consumidas como alimento por humanos. Dessa forma, são duplamente ecológicas: se servirem de alimento, não gerarão resíduos; se forem descartados, em poucos meses terão se deteriorado, sem deixar vestígios no meio ambiente.

 

 

 

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