qui 21 out 2021
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Especialistas acreditam que estaríamos em uma nova época geológica

A diminuição do gelo no Everest, maior montanha do mundo, é apenas uma das evidências das mudanças climáticas que dão força para a proposta de uma nova época geológica. Fonte: Luca Galuzzi 

O gelo do monte Everest diminuiu em 13% nos últimos 50 anos. Foi o que mostrou um estudo divulgado em uma conferência realizada em Cancún, no México.

Os cientistas escobriram que, desde 1960, a exposição de rochas e escombros, que antes ficavam nas profundezas do gelo, aumentou 17%. Já as geleiras de 1km² vêm desaparecendo rapidamente – houve uma redução de 46%- e suas extremidades recuaram, em média, 400 metros.

Segundo pesquisadores da Universidade de Milão, na Itália, a redução pode ser consequência das emissões de gases que potencializam o efeito estufa.

Em meio a estudos como este, que revelam grandes transformações ambientais, começa a ganhar destaque a proposta do prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen. Segundo ele estaríamos numa nova época geológica, o Antropoceno.

O termo, cunhado em 2000, é adotado por parte da comunidade acadêmica, que defende que nos dois últimos séculos, os efeitos das ações humanas sob o planeta foram tão significantes ao ponto de representarem uma nova época geológica. A Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), convocou especialistas que têm até 2016 para decidir se o Antropoceno, de fato, existe e definir seu início.

Oficialmente, a ICS, que é responsável pela definição da escala de tempo da Terra. Coloca o planeta na era do Holoceno, cujo marco inicial é o derretimento de geleiras ocorrido há 11.500 anos.

O professor de Ciências Florestais da UFPR e participante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (NFCCC), Carlos Roberto Sanquetta, discorda da denominação criada por Crutzen. “Creio que não chegamos ainda a uma nova época geológica. Talvez possamos estar num início de uma nova época que começou pelo idos da Revolução Industrial e se prolonga na atualidade pelas altas emissões de gases de efeito estufa. Contudo, ainda não temos elementos suficientes para enquadrarmos nossa existência numa nova época geológica”, afirma Sanquetta.

Já o professor  de Climologia da UFPR, Marco Aurélio de Mello Machado, acha coerente essa nova divisão geológica e explica que, enquanto no período pré-industrial (por volta de 1800), o CO2 atmosférico (dióxido de carbono – o mais abundante gás estufa na atmosfera) demorou aproximadamente 8 mil anos para aumentar de 160 ppm (partes por milhão) até o máximo de 280 ppm, foi constatado recentemente que houve o mesmo aumento nos últimos 200 anos, período em a interferência humana foi particularmente intensa. ” Não por acaso, Paul Crutzen, que ganhou um Prêmio Nobel por suas pesquisas sobre a camada de ozônio, estabeleceu o início do Antropoceno como sendo exatamente o ano de 1800, embora alguns autores argumentem que ainda antes desse ano houve períodos de grande aumento nas concentrações de CO2 e de metano (CH4), outro potente gás aprisionador de calor na atmosfera.” justificou Mello, que acrescentou que os últimos aumentos vêm se verificando em períodos muito curtos.

Mudanças climáticas e a ação humana

Segundo os especialistas da GWSP, Global Water System Project, o homem move mais rochas e sedimentos do que as forças naturais, acelera processos de erosão e libera mais nitrogênio no ar do que plantas e outros organismos seriam capazes, especialmente desde a segunda metade do século 21. Apesar do planeta estar em permanente mudança, o que preocupa é a velocidade e a intensidade com que elas vêm acontecendo. “A Terra sempre experimentou períodos de aquecimento e resfriamento. Períodos de grande atividade geológica sempre lançaram grandes quantidades de gases que contribuem para a intensificação do efeito estufa. Contudo, nos dias de hoje, já se sabe de maneira inequívoca que as atividades antropogênicas, no seu conjunto, está afetando o clima exatamente na sua componente natural.” explicou Machado.

O aumento desmedido de gases que intensificam o efeito estufa é apontado como um dos principais fatores para as recentes mudanças climáticas, como o derretimento das geleiras, o aumento do nível médio dos mares, a elevação das temperaturas mínimas em diferentes regiões do globo, o surgimento de ondas de calor e frio e, especialmente, o aumento na frequência e na intensidade de ocorrência de eventos extremos, como chuvas intensas, enchentes, secas, os furacões e ciclones tropicais e extratropicais. “Todas estas mudanças afetam a cadeira trófica e os ecossistemas, o ciclo de carbono, o ciclo hidrológico, a agricultura, a segurança alimentar, a saúde humana, entre outros.” alertou Sanquetta.

Em uma nova época geológica ou não, o impacto das ações humanas sobre o planeta é indiscutível para a maioria dos especialistas. “A formação das eras e épocas geológicas é um processo gradual, somente sentido em escala de milhares a milhões de anos. Todavia, isso não quer dizer que devamos descuidar da problemática das mudanças climáticas, muito pelo contrário. Ações de migitação e adaptação são extremamente necessárias e urgentes”, afirma Sanqueta.

 

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