sáb 18 maio 2024
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Espetáculos de rua do Festival de Curitiba promovem encontro entre artistas veteranos e novos talentos

Síncope Grupo de Teatro e Gota, Pó e Poeira se destacam no Fringe, mostra democrática dentro do evento

Reportagem por Flavia Keretch, Nayara Almeida e Pietra Hara

A edição de 2024 do Festival de Curitiba conta com, em média, 400 companhias envolvidas em peças gratuitas e pagas, o que promove pluralidade e dinamismo aos espetáculos. O circuito de teatro internacional, sediado na capital paranaense, traz para os palcos grupos de todas as partes do Brasil e do mundo, além de contar com uma diversidade de artistas, dos veteranos aos estreantes.

A movimentação cultural da cidade abraça as trupes com décadas de história, mas também abre portas para novas formas de se fazer teatro, como é o caso da Síncope Grupo de Teatro, grupo que garantiu uma estreia cheia de emoções, novos aprendizados e muita responsabilidade. 

Já para o grupo Gota, Pó e Poeira, do Espírito Santo, que está performando nas ruas de Curitiba desde 2001, é muito recompensador fazer parte de mais uma edição do Festival de Curitiba.

As diferenças entre os dois grupos são notáveis, um já completa mais de 40 anos de trajetória, enquanto outro, apenas dois meses. Mas o que os une é a vontade de se expressar por meio da arte.

O Fringe e sua relevância

Mostra Fringe apresenta a maioria das apresentações gratuitas do Festival de Curitiba. Foto: Pietra Hara

O Fringe é uma das mostras que integram o Festival de Curitiba, que abriga a maioria das apresentações gratuitas. A inscrição no edital pode ser feita por diversas companhias profissionais de todo o país, seja de teatro, circo, dança, música e performances.

Essa modalidade leva o palco para além dos teatros, se apresentando também nas ruas e praças de Curitiba. Durante suas apresentações, sede o espaço para as mais diversas expressões artísticas, que muitas vezes proporciona o caminho de entrada para companhias estreantes do festival. 

Gota, Pó e Poeira – 40 anos de carreira, 23 de Festival

Com mais de quatro décadas de história, o grupo tornou-se uma referência, no Espírito Santo, de uma companhia sempre ativa nas artes. Esse ano, retornam a Curitiba para o Fringe, com o espetáculo “A Nova Roupa do Imperador”, uma peça infanto juvenil, que mescla elementos da comédia e interações com a plateia, destacando a cultura capixaba. 

Na peça, a equipe do Imperador é encarregada de confeccionar uma roupa para esse rei controlador e, ao longo da trama, o público é levado junto para essa farsa.

Apresentação da peça “A Nova Roupa do Imperador” no dia 29 de março, na Praça Santos Andrade. Fonte: Pietra Dissenha Hara

Em 1983, o grupo “Gota, Pó e Poeira”, de Guaçuí, no Espírito Santo, iniciou suas atividades com encenações de textos religiosos da Sexta-feira Santa. Foi a convite de uma professora que escreveram o texto teatral e, mais adiante, decidiram se tornar um grupo independente.

“Disso nasceu o Gota, com a função de ser um teatro mais independente, não ter vínculos só religiosos e nem só estudantis. Era um grupo para servir a comunidade, para mostrar trabalhos para comunidade.”, relata um dos integrantes do grupo e diretor da peça “A Nova Roupa do Imperador”, Carlos Ola.

Grupo Gota, Poeira e Pó em sua apresentação na praça Santos Andrade durante a Edição de 2024 do Festival de Curitiba. Foto: Pietra Dissenha Hara

As primeiras viagens para outros estados começaram a partir de 1990 e, desde então, circulam pelo Brasil. Ola conta que já se apresentaram em diversas cidades menores, como Campina Grande do Sul, região metropolitana de Curitiba. “A gente já foi para lugares distantes, bem periféricos, mas sempre foi a gente que trouxe o elemento novo, trouxe a rua até essas pessoas e isso é gratificante porque as pessoas vão e muitas não podem vir até aqui, mas o teatro pode chegar até elas”.

Os espetáculos de rua precisam lidar com as imprevisibilidades que a rua oferece. Ao longo de sua trajetória, o grupo já realizou apresentações em cima de caminhões, nas ruas e palcos. “Às vezes acontece uma coisa que tá fora do nosso cronograma e a gente tem que usar isso para desenvolver a nossa cena.”, explica Lucas Almeida, um dos atores da peça “A Nova Roupa do Imperador”.

Lucas Almeida, ator da peça “A Nova Roupa do Imperador”, relata a respeito dos momentos de improviso durante o espetáculo.

A maior dificuldade para a companhia é ainda não conseguir viver do teatro, já que, mesmo com décadas de história, é preciso conciliar trabalhos paralelos. “Gostaríamos muito de viver da arte, mas é impossível, precisamos de outro trabalho por trás para a gente conseguir fazer isso.”, confessa Neuza de Souza. 

São inúmeros os empecilhos – como as dificuldades para pagar os custos das viagens, o transporte que precisa de reparos, os ensaios pela madrugada, ou a  necessidade de dormir em escolas e salas desconhecidas -, mas nenhum deles é motivo suficiente para abandonarem o amor pelo teatro. “Nós estamos onde o povo está. Se é pra levar a arte, convida, podem nos convidar!”, continua a atriz.O retorno do público é muito gratificante para os atores, pois o grupo destaca que, ao longo de suas viagens, encontram espectadores que se recordam de suas peças antigas. “Isso quer dizer que conseguimos um público cativo aqui em Curitiba, o que nos deixa muito felizes.”, ressalta Neuza.

Para o grupo “Gota, Pó e Poeira” participar de mais uma edição do Festival de Curitiba é uma realização, um momento para celebrar a jornada de décadas dedicadas à arte. Foto: Nayara Almeida

Síncope Grupo de Teatro – O estreante que traz consigo os novos ares da arte

Em contrapartida, algumas companhias estreiam pela primeira vez na programação do festival, como a “Síncope Grupo de Teatro”, companhia que foi fundada há apenas dois meses do lançamento da peça “Julgados” no Teatro Enio Carvalho – FALEC. A diretora da peça e criadora da troupe, Júlia Dassi, explica que o grupo surgiu após sair da escola de artes em que dava aula de teatro. Seus alunos, por quererem continuar as aulas, resolveram embarcar nessa jornada e a acompanharam nesse novo caminho.

Júlia Dassi, diretora da peça “Julgados”, conta sobre a formação do “Síncope Grupo de Teatro”.

Na primeira noite da estreia, 3 de abril, Julia expõe que a peça “Julgados” foi feita para incomodar e provocar o espectador. A partir de uma experiência imersiva e interativa, com contato direto com o público, fazendo-o também parte do espetáculo.  

A produção é uma tragicomédia que faz diversas críticas à homofobia, ao racismo e à violência doméstica. Para enriquecer a trama, a peça também traz vivências pessoais dos atores, utilizando o teatro para abordar questões relevantes para o público e sem medo de trazer o que acontece fora do teatro para o palco. “É uma emoção muito grande. Eu estava na técnica assistindo a peça e segurando o choro porque daqui a pouco eu tinha que descer e meu pensamento era ‘meu Deus, isso é real’ a gente está no festival” descreve a diretora a respeito da sessão de estreia da peça.

A diretora complementa que, por se tratar de atores de diferentes faixas etárias, é necessário dialogar e procurar uma comunicação e convivência que se adeque a todos, o que torna tudo muito mais interessante e divertido por trás dos bastidores. 

“É muito legal ver a galera de 16 anos conversando com a galera de 29 e trocando experiências e se ajudando em sala. Eles são muito família.” 

Diz ainda que, por ter alunos tão dedicados e competentes, ela sempre procura saber como torná-los melhores. “Eu gosto muito de desafiar os meus alunos não no sentido de tornar as coisas difíceis, mas no sentido de prepará-los para atuações ainda mais complexas”Para a atriz e figurinista, Mariana Volpi, de 16 anos, que interpretou a advogada religiosa, a sensação de ser a primeira vez é indescritível e cheia de sentimentos. “É inexplicável. Quando eu soube que a gente ia entrar no festival e foi na nossa última sessão de julgados do ano passado, eu chorei muito”.

A atriz Mariana Volpi relata como o teatro muda a vida das pessoas. Gravação: Flavia Keretch

A Síncope está vivenciando a primeira apresentação em um festival de renome nacional. É um sentimento de conquista para a diretora. “Traz um frescor de estar no caminho certo, então vamos continuar.” 

Com poucos meses de existência, a trupe está determinada a deixar sua marca no cenário cultural, explorando novas formas de expressão e desafiando seus próprios limites criativos.

O desejo da diretora, Júlia Dassi, do espetáculo “Julgados” é de levar ao menos uma peça do grupo Síncope ao Festival de Curitiba todos os anos. Foto: Instagram.

O desejo em comum

Enquanto o grupo “Gota, Pó e Poeira” celebra uma longa trajetória e o reconhecimento conquistado ao longo dos anos, a “Síncope Grupo de Teatro” enfrenta um desafio emocionante de estabelecer seu lugar no mundo da arte. 

No entanto, ambos os grupos estão unidos pelo mesmo propósito: emocionar, inspirar e provocar reflexões através de suas performances artísticas, deixando uma marca permanente no coração do público do Festival de Curitiba.

Apesar das diferenças temporais e de experiência entre os dois grupos, ambos compartilham uma paixão inabalável pela arte. Para os artistas, a expressão artística transcende as barreiras do tempo e do espaço, conectando-os com o público de maneiras únicas e poderosas. Seja através das ruas de uma cidade ou nos palcos de um teatro, o desejo de se expressar, levar a sua cultura para outras cidades e compartilhar histórias é o que os une.

Edição: Louize Lazzarim e Paola Morais

Louize Lazzarim
Estudante de Jornalismo da UFPR.
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Estudante de Jornalismo da UFPR.
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