seg 26 fev 2024
HomeEconomiaGrupo de trabalho e PDV: As dúvidas surgem com a privatização da...

Grupo de trabalho e PDV: As dúvidas surgem com a privatização da Copel

Após privatização com falta de transparência perante a sociedade, governo do Paraná instaura grupo de trabalho e PDV aos empregados da empresa.

Por Thiago Ferrari e Gabriela Zadvorne

“A gente fica bem triste, angustiado e com medo do futuro. Muita gente apreensiva com demissão em massa, se tiver demissão em massa quem vai tocar esse negócio?” Disse um funcionário que preferiu não se identificar, lamentando a venda das ações da Companhia Paranaense de Energia (Copel), onde ele trabalhava há mais de 15 anos. A empresa foi privatizada oficialmente numa sexta-feira, dia 21 de agosto deste ano. 

A Copel foi leiloada por 4,5 bilhões de dólares, em um processo questionado por argumentos que vão além da habitual discussão entre a oposição e a base do governo. A forma apressada como a companhia foi submetida às ações de privatização e a falta de transparência a respeito de quem são os novos “donos” do que era a maior estatal do Paraná, são pontos de crítica por vários setores da sociedade. 

Aos poucos são revelados os novos administradores da empresa. Segundo publicações recentes, dentre os compradores estão fundos bilionários liderados por figuras que vão de Jorge Paulo Lemann a um bilionário indiano. 

Mas as principais preocupações que pairam a cabeça dos paranaenses no momento são: o preço da tarifa de energia elétrica, o futuro dos empregados da Copel e o destino dos recursos obtidos com a venda. 

A respeito da tarifa, o professor de economia da UFPR, Walter Tadahiro Shima, explica que apesar de não poder acontecer um aumento arbitrário por motivos de lucro, ao entregar para a iniciativa privada um serviço tão essencial quanto a energia elétrica, o estado perde a capacidade de articular políticas públicas para populações mais necessitadas. Como é o caso do programa Energia Solidária, que garante a isenção da tarifa para 360 mil famílias. 

O destino dos empregados é um assunto mais delicado, um Programa de Demissão Voluntária (PDV) foi anunciado pela companhia, com possibilidade de adesão até a última quinta-feira, 15 de setembro.  

Vale lembrar que o quadro de funcionários da Copel já é muito enxuto, 5000 funcionários segundo Alexandre Donizete Martins, presidente do Sindicato dos Eletricitários de Curitiba (Sindenel) e Copeliano, como se denominam aqueles que trabalham na empresa,  há quase 40 anos. Além disso, ele também aponta que a ingerência política, nunca esteve presente na Copel.

“Nós do Sindicato nunca deixamos indicações acontecerem em setores que precisam de gente especializada e isso pode ser visto nos próprios resultados da empresa”.

Assim, rebatendo dois dos principais argumentos utilizados nos processos de privatização, um deles por sinal empregado pelo governador Ratinho Jr, o de que a empresa estatal está sujeita a interferência política e de que ela é “inchada” para proporcionar “cabides de emprego” a pessoas próximas de agentes políticos. 

Além disso, o professor Shimada adiciona que uma debandada de funcionários pode ter efeitos no funcionamento da empresa. Comenta: “Há um PDV em andamento na firma gerando uma série de instabilidades de insegurança nos funcionários. Muitos com muitos anos de casa estão aderindo por conta de não saberem o que vai ser do futuro. É possível que ocorra um esvaziamento além do previsto, afetando brutalmente os serviços para os consumidores, a qualidade, o ritmo de investimentos, ou seja, o bom andamento da empresa.”

Os ganhos com a venda serão destinados a obras e prestação de serviços pelo estado, não podendo ser utilizado para cobrir suas despesas. Na mesma sexta em que foi anunciado o PDV, foi decretado um grupo de trabalho responsável por acompanhar o planejamento de como serão aplicados tais fundos, este grupo contará com representantes das Secretarias do Planejamento, Fazenda e Casa Civil. 

O processo da venda das ações não é novidade, a Copel já foi alvo de tentativas de privatização nos anos 2000 e voltou a ser ameaçada em 2022, quando a venda parcial foi aprovada dentro da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), ato denunciado pela oposição do governo Ratinho Jr como uma forma velada de privatização. Na época, o governo negou, alegando que tal movimento era apenas uma forma de manter concessões feitas para ativos de geração (geradores de renda a longo prazo) e tornar o setor mais competitivo.

Em agosto de 2023, a venda do restante da companhia foi oficializada em um evento na Bolsa de Valores de São Paulo, sendo esperado que a partir de agora o governo mantenha apenas o mínimo de 15% das ações, e 10% das com possibilidade de votos dentro da companhia, como estabelecido pela Assembleia Legislativa em 2022. 

Segundo o executivo do estado, a decisão tornará a companhia mais ágil, competitiva e blindada de decisões políticas. Uma vez que ela estará parcialmente desligada da burocracia existente em estatais. 

NOTÍCIAS RELACIONADAS
Pular para o conteúdo