seg 18 out 2021
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Ipea errou, mas continuamos machistas

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) fez uma pesquisa em março sobre a tolerância das pessoas em relação a violência contra mulheres. Na versão inicial, constava que mais de 65,1% dos entrevistados concordam, de forma total ou parcial, que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Uma semana depois, uma errata foi divulgada, corrigindo esse valor para 26%.

O estrago já havia sido feito. O Ipea não apenas perdeu credibilidade, mas também deixou evidente, para qualquer um que queira ver, o quão machista um instituto de pesquisa pode ser. Não pelo equívoco em si, visto que qualquer um pode errar, e sim pela falta de cuidado com os dados de uma pesquisa cujo assunto é dessa magnitude.

Verificar se os dados estão certos é sempre uma obrigação que não pode ser menosprezada, pouco importa para quais fins eles serão usados. Mas como são números que “apenas” ilustram a realidade da forma como os brasileiros tratam as mulheres, tal compromisso foi atropelado. O erro é de quem, afinal? Será que o instituto é o único culpado por isso? Pode esse assunto ter sido deixado de lado tantas vezes a ponto de isso acabar se refletindo na falta de cuidado do Ipea?

Mesmo com a correção,  a porcentagem de 26% não torna o dado menos alarmante. A informação,  por si só, significa que um em cada quatro brasileiros concordam que as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Como somos cerca de 195 milhões, de acordo com estimativa do IBGE de 2011, 48 milhões seriam a favor. Com uma quantidade tão grande de pessoas com essa mentalidade, o risco de mulheres serem violentadas no Brasil mostra-se grande demais para ser ignorado.

A jornalista Nana Queiroz foi a primeira mulher a postar uma foto sua nas redes sociais em apoio ao movimento Não Mereço Ser Estuprada. Mas nem tudo são flores: ela recebeu diversas ameaças de violência sexual, dizendo que ela merecia ser estuprada justamente por estar fazendo parte da organização da mobilização. Isso mostra o quanto ainda somos machistas, tentando estrangular reivindicações das mulheres das formas mais covardes possíveis (Foto: Divulgação /Movimento Não Mereço Ser Estuprada)

Por isso, a luta dos grupos feministas é válida. De fato, os números mostram que existe uma cultura do estupro, na qual qualquer desculpa é pretexto para violentar sexualmente uma mulher. A BBC Brasil, no dia 2 de abril, publicou uma matéria na qual entrevistou especialistas sobre o assunto. Eles afirmam que a legislação brasileira abre brechas para que uma mulher violentada seja vítima duas vezes: primeiro pela agressão em si, depois pelo pouco caso que os policiais tratam esses casos.

Ou seja, pelo visto não basta o sofrimento e os traumas causados pelo abuso, tem de haver uma constante agressão da vítima. Elas são culpabilizadas pela roupa que usam, pelo álcool que beberam ou pelo comportamento que tiveram, sendo vítimas de uma violência pela qual nenhuma estava pedindo. É lamentável.

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