qua 27 out 2021
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Kleiton e Kledir trazem MPB gaúcha ao Festival de Antonina

O Show de Kleiton e Kledir encerrou o 17º Festival de Inverno da UFPR com um vasto público. Tocando em Antonina pela segunda vez, os dois irmãos trouxeram ao palco principal o show completo de seu novo CD e DVD “Kleiton e Kledir ao vivo”. A dupla tocou sucessos da década de 80 e novas músicas para agradar o público mais jovem.
Os dois irmãos, de sobrenome Ramil, aprenderam a gostar de música em casa. Começaram na carreira em 1980 e são, hoje, reconhecidos em todo o Brasil. O trabalho, marcado pelo regionalismo gaúcho e, ao mesmo tempo, contemporâneo e urbano, ganhou, no ano passado o Prêmio Tim de melhor disco do ano, na categoria Canção Popular. Leia abaixo a entrevista, publicada no jornal/oficina Caranguejo*, concedida a aluna de jornalismo do primeiro ano Ilana Stivelberg,

Caranguejo: De onde surgiu o interesse pela música?
Kleiton: Somos seis irmãos, nossa famí­lia é de Pelotas e sempre gostou muito de música. Desde pequenos, estivemos em contato com a música, í­amos a vários festivais. Eu comecei a tocar violino aos nove anos de idade, e o Kledir começou a tocar violão aos dez. Essa proximidade com o universo musical foi constante até nos tornarmos profissionais.

Caranguejo: Por conta do nome Kleiton e Kledir, muita gente acaba, equivocadamente, definindo vocês como uma dupla sertaneja.
Kledir: Na verdade, nós surgimos nos anos oitenta, um pouco antes desse grande sucesso da música sertaneja. O nome acabou definido por acaso, e, como a maioria das duplas sertaneja, é composto por dois nomes parecidos, além do fato de sermos irmãos. Mas, temos uma formação cultural diferente das duplas sertanejas. Nascemos no sul e trazemos conosco as influências sulistas. Certa vez, o Chitãozinho (Da dulpa Chitãozinho e Xororó) me disse que, antes do sucesso de sua dupla, sonhava em ter uma dupla como Kleiton e Kledir: essa mistura da música regional com o pop contemporâneo. Depois foi minha vez de dizer que gostaria de ter os jatinhos e a fazenda que eles têm (risos).

Caranguejo: E como, então, vocês definem o estilo musical de Kleiton e Kledir?
Kleiton: Sertanejo gaúcho, ué (risos). Falando sério, é difí­cil nos enquadrarmos em algum estilo definido. Não fazemos bossa nova, não somos uma dupla sertaneja, não fazemos música clássica, não fazemos jazz. Nos fazemos música brasileira do sul do Brasil. Nossas influências são diversas, desde a música erudita até o bom rock internacional, como Beatles e Rolling Stones, passando pela própria MPB de Caetano e Chico. Sempre buscamos estudar música e pesquisar coisas novas. Não temos preconceito musical algum. Nosso diferencial é termos sido criados em um lugar de música tí­pica muito forte, a música gaúcha. O fato de sermos urbanos com uma bagagem cultural do regionalismo gaúcho foi determinante para o nosso sucesso.

Caranguejo: Vocês sentiram alguma forma de preconceito ou barreira por virem do sul e não do sudeste (principalmente o eixo Rio-São Paulo) como a maioria dos cantores contemporâneos?
Kledir: Havia certa dificuldade, ví­nhamos de um estado sem muita tradição musical no cenário nacional. Mas, havia alguma curiosidade. Quando chegamos no Rio de Janeiro, muita gente ia aos nossos shows por querer saber como era a música feita por gaúchos. É por isso que é difí­cil surgir com algo novo que tenha aceitação do público no Rio, pois quem nasce por lá já tem toda uma história musical.

Caranguejo: Então, vocês acreditam que a curiosidade foi o diferencial de vocês para obter o sucesso?
Kleiton: Eu acho que nosso diferencial foi mesmo o trabalho. Claro que quem consegue chegar mais longe precisa ter o dom musical, mas o fator determinante é o trabalho. Sempre estudamos muito, gostamos de escutar e pesquisar coisas novas, sejam nacionais ou internacionais. O fato de sermos uma dupla garante essa troca de informações também. O sucesso veio do fato de termos muita bagagem para colocar na nossa música.

Caranguejo: Vocês acham que abriram as portas para outros artistas do sul com a música de vocês?
Kleiton: De certa forma, sim. Nós e toda uma geração do Rio Grande do Sul. Antes de nós, não havia muitas referências musicais gaúchas. A Elis Regina era gaúcha, mas não possuí­a a menor identidade com a nossa região. Não havia shows, não havia gravações de discos e não tí­nhamos com quem nos informar. Nossa geração, os Almôndegas (nossa banda da época), foi quem “desbravou” nesse sentido. Fomos descobrindo e inventando essas coisas que depois serviram de base para Engenheiros do Havaí­, Nenhum de Nós e Papas na Lí­ngua, mais recentemente. Fomos os primeiros a colocar a música gaúcha com sabor de música urbana e jovem no cenário nacional. Essa foi a nossa contribuição para o pessoal que trabalha e faz sucesso no momento.

Caranguejo: Vocês já fizeram diversos shows no exterior (EUA, Europa e América Latina). Como foi tocar para pessoas de nacionalidades e culturas tão diferentes?
Kledir: Além dos shows, gravamos alguns discos fora do paí­s. No caso dos shows, nosso público é predominantemente brasileiro. Não só conosco, mas com a maioria dos artistas, isso acontece. Aparece muito brasileiro com saudade do paí­s para assistir aos shows. Além disso, o público é variado; depende da receptividade do local. O Kleiton morou dois anos em Paris e foi uma experiência bastante interessante.
Kleiton: Na década de oitenta, tivemos forte presença na América Latina. Fizemos shows em Mercedes Soza; em Cuba, nós participamos de alguns festivais. A gente percebe que os povos latino-americanos gostam muito da nossa música. Cantamos em espanhol, somos descendentes de espanhóis e temos inclusive um CD gravado inteiramente nesse idioma. Para nós, em cada paí­s é um trabalho diferente. É diferente do artista norte-americano que nasceu em berço de ouro e cujo sucesso na América já garante reconhecimento internacional.

Caranguejo: Vocês foram contemplados como embaixadores culturais do Rio Grande do Sul. Como foi isso?
Kledir: É verdade Antes disso, os governos do Rio Grande do Sul ou de Porto Alegre nunca nos haviam prestado nenhuma homenagem. Sempre achei isso meio estranho, mas acho que é o espí­rito do gaúcho. Eu sempre via artistas de outros lugares sendo reconhecidos pelo Estado e conosco nunca havia acontecido. Mas, há pouco tempo, o Rio Grande do Sul nos deu essa medalha. É a primeira manifestação do governo que reconhece nosso trabalho como embaixadores da cultura, pois, de certa forma, levamos o Rio Grande do Sul para o restante do paí­s. Aonde quer que a gente vá, somos “os gaúchos Kleiton e Kledir”. É algo muito forte.

Caranguejo: O que mudou no cenário da música brasileira desde que vocês começaram mercado até hoje?
Kledir: Nós somos do tempo de LP (risos). Tudo mudou muito, veio o CD e fizemos parte dessa história, já que o primeiro CD lançado no paí­s tinha uma música nossa: Paixão. Agora estamos na era da internet e do Mp3. Isso é só um panorama do registro da música, imagine as mudanças em termos de estilo musical.

Caranguejo: Já que entraram na questão do Mp3. Como a pirataria e a falta de direitos autorais afeta a carreira de vocês?
Kledir: É uma nova forma de se consumir música e a temos que nos adaptar a isso. É muito difí­cil para as gravadoras, muitas delas estão falindo. Meus próprios filhos não compram mais cds: é uma questão de hábito. A questão dos preços altos, leva então a essa história da pirataria. Sobre a música na Internet, acho que ela deve circular nesse meio, desde que sejam pagos os direitos autorais. Nosso site, inclusive, disponibiliza três ou quatro músicas para serem baixadas.

* O Caranguejo é a publicação resultado da oficina de mesmo nome ministrada pelo professor da UFPR Mário Messagi Júnior. Com a colaboração dos monitores Erike Feitosa e Renata Ortega e a participação dos oficineiros, o Caranguejo teve sete edições e trouxe as principais notí­cias e coberturas do 17º Festival de Antonina.

Kleiton...
Giovana Ruaro

... e Kledir fazem o show de encerramento do Festival de Antonina
Giovana Ruaro
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