seg 26 fev 2024
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Modelo de Streaming: Condicionamento e interdependência econômica para compreensão de conteúdos

O aprisionamento infinito

No dia 4 de maio, o terceiro filme dos “Guardiões da Galáxia” estreou nos cinemas brasileiros. A produção encerra uma trilogia que está inserida no Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), que representou um faturamento de mais de US$ 3 Bilhões em bilheterias (2022). Para sua completa compreensão – além de assistir aos últimos dois filmes e pelo menos outros dois do MCU – a franquia exige que o espectador já tenha assistido o especial de Natal dos personagens. O filme só está disponível na plataforma da Disney+, assim como todas as séries exclusivas e filmes do universo Marvel. Isso significa que, além de pagar o ingresso para o lançamento, o fã de super-heróis necessita ter pagado sua assinatura na plataforma de streaming da Disney.

Este tipo de formato tem, basicamente, mantido o funcionamento da Disney+. A compreensão condicionada – que interliga as produções que vão para as “Telonas” e as exclusivas das “Telinhas” – realizada pela Marvel é o principal motivo das assinaturas da plataforma.

Uma pesquisa divulgada na revista Variety (novembro, 2021), revela que entre 700 entrevistados (usuários do TV Time – aplicativo avaliação de séries e filmes), 63,5% se inscreveram na plataforma exclusivamente para ter acesso às produções novas e antigas do MCU. Além disso, cerca de 20% concordaram com a frase “As produções da Marvel são as únicas produções que assisto na Disney+”.

Evidencia-se que a Marvel se consolidou por amarrar seus admiradores em universos complexos baseados na economia do escopo. Este modelo consiste na inserção e produção conjunta de diversos produtos e serviços de um mesmo segmento. E o streaming tornou o império Marvel ainda mais imbatível. O próprio Presidente da Marvel se posicionou em favor destas plataformas. Kevin Feige afirma que “O streaming é 100% o futuro e onde os consumidores querem assistir às coisas”, e ainda relatou que a experiência de uma série na Disney+ (WandaVision) é impossível de ser sentida em uma sala de cinema. Ou seja, é apenas possível por R$ 33,90 ao mês.

Heróis são referências na hora de atrair os consumidores em todas as esferas possíveis. Fica claro que Disney e suas subsidiárias são as grandes protagonistas na prática. Entretanto, outras grandes companhias, como a HBO, estão usando seus streamings para fazer o mesmo. A concorrência direta da Marvel, DC teve um orçamento estimado de US$ 35 milhões (2022) para produções exclusivas – e interligadas – para HBO Max, mesmo focando em cinema.

Assinatura de streaming: 1 é pouco. 2 é pouco. 3, talvez

Segundo dados da pesquisa de 2022 do Panorama Mobile Time/Opinion Box, 66% dos brasileiros assinam streaming, desses, 62% assinam mais de um serviço. Na prática, a proposta do streaming de assistir ao que quiser quando quiser mostra-se falha em casos de quando o assinante percebe que não consegue assistir a uma saga inteira assinando apenas um serviço. Para exemplificar, a saga Resident Evil é composta por sete filmes, uma série e uma animação. A fim de assisti-la por completo, o espectador teria que assinar, no mínimo, três serviços de streaming diferentes. Isso em virtude da Paramount+ oferecer quatro dos filmes; a Netflix ter em seu catálogo dois deles mais a série e a animação; o Globoplay, dois dos filmes; enquanto o quinto filme da franquia está disponível apenas no HBO Max e no Amazon Prime Video.

Concomitantemente, esse caso exemplifica a interdependência econômica gerada pelo streaming, pois para poder assistir a tal conteúdo por completo, não basta apenas uma assinatura. Nesse sentido, o famigerado “assista o que quiser, quando quiser”, tão difundido por esses serviços, torna-se um discurso mentiroso e elitista. Afinal, para um brasileiro assinar os principais streamings seria necessário destinar o valor de R$212,30, equivalente a 16% do salário-mínimo atual (valores referentes ao ano de 2023 e aos planos mais básicos ofertados pelos streamings: Salário-mínimo- R$1320,00; Netflix – R$55,90; Paramount – R$19,90; HBO Max – R$27,90; Globoplay – R$49,90; Disney – R$33,90; Apple TV – R$9,90 e Amazon Prime Video- R$14,90). Diante disso, é notável a interdependência econômica no que tange ao condicionamento à assinatura de mais de um serviço para que só assim a primazia do livre-arbítrio de assistir o que quiser se aproxime de sua consolidação.

Pague dois e leve. Querendo ou não

Também terminou a era dos mimos aos assinantes com período de testes grátis. E, junto dele iniciou-se o condicionamento de pagamento estendido de assinaturas para assistir à temporada completa de uma série. Por exemplo, o sistema utilizado pela HBO possibilita ao espectador utilizar do período de teste grátis de 7 dias para acessar à plataforma. Entretanto, a empresa adotou, para a maioria das séries, uma programação de lançamento de episódios semanais. Tal medida impossibilita de acompanhar as produções com o período gratuito. Ao prolongar em meses uma única temporada, vê-se um meio de aproveitar a publicidade em trends topics em redes sociais (dando maior visibilidade ao produto), além de condicionar o cliente a contratar o serviço por pelo menos 2 meses (base: séries de 8 episódios com lançamentos semanais).

O sistema atual destas plataformas impossibilita que consumidor assista a apenas um único filme ou série desejada, inviabilizando financeiramente e impondo múltiplas assinaturas no mercado de streaming. Na busca por conteúdos de modo individual dentro das plataformas, há falta de clareza nos combos oferecidos em conjunto nas assinaturas, por exemplo no Combo+ que é a junção da Disney e Star+ ou a parceria Globo Play e Apple TV. Não há acessibilidade ou explicação detalhada a respeito da possibilidade de que ao clicar em um produto específico será incluído em seu cartão de crédito outra assinatura indesejada como brinde. Uma armadilha perfeita para idosos e leitores desatentos.

Verificou-se assim, a partir de exemplos práticos, dados e pesquisas, que os serviços de streaming criam barreiras para o assinante visando à obtenção de lucro. Portanto, ao lançarem mão do artifício de não bastar apenas uma assinatura ou um período de teste para ter acesso ao conteúdo desejado e entendê-lo, os streamings configuraram-se manipuladores da oferta de conteúdo. Por fim, através desses recursos, esses serviços geram o condicionamento e a interdependência econômica para a compreensão de conteúdos, o que coloca em xeque a afamada propaganda da facilidade e transparência que os streamings promovem. Esta necessidade imposta de pulverizar sagas, séries em várias plataformas ou a obrigação de consumir conteúdo do streaming para compreender lançamentos em outras esferas – como no cinema – é o que move esse modelo de distribuição digital. A promessa da transmissão contínua esconde uma tentativa de controle e interdependência para o consumo.

Por Marya Marcondes, Sophia Martinez e Vitória Smarci

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