ter 04 out 2022
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Museu do Holocausto de Curitiba completa 10 anos desde sua inauguração

Museu reafirma a importância de relembrar histórias e preservar memórias

Por Jessica Rafaella, Luisa Mattos e Marina Anater

“Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana”. A frase de Anne Frank, judia vítima do Holocauso, é a mensagem exposta pelo Museu do Holocausto antes da entrada. Resgatando memórias para relembrar as vítimas e alertar as novas gerações para o risco da intolerância e do ódio, o Museu do Holocausto, localizado em Curitiba, completa 10 anos em 2021.

O museu foi inaugurado em 2011 e passou a receber visitantes no ano seguinte, mas seus projetos começaram ainda nos anos 1990, quando a conscientização sobre o genocídio se estabelecia de maneira mais forte. A ideia inicial foi criada por Miguel Krigsner, filho e genro de sobreviventes. A partir dessa proposta, o projeto foi desenvolvido e coleções foram sendo recebidas para que a criação do museu fosse possível.

O Museu do Holocausto de Curitiba se baseia em três eixos principais: memória, educação e pesquisa. O primeiro se refere ao resgate das histórias, com a composição do acervo, recolhimento de depoimentos e realização das exposições. A educação possui uma seção desenvolvida pelo Departamento Pedagógico a fim de propor um espaço para atividades e trabalhos sobre o Holocausto, levando-se em conta a importância de ensinar o tema por meio de uma base histórica segura e eficaz. O último eixo, a pesquisa, é composto por documentação, pesquisas bibliográficas, curadoria e produção de conhecimento a partir do acervo do museu. Além disso, a obtenção de informações biográficas e a produção de cursos de capacitação são outras funções desse pilar.

“Nós utilizamos essa tragédia, utilizamos o evento histórico, como uma ferramenta para transmitir valores e princípios”

Com 10 anos de exercício, o museu tem uma enorme importância não apenas cultural e histórica, como também social, fazendo com que inúmeras vozes sejam ouvidas e jamais esquecidas. Para o coordenador-geral do museu, Carlos Reiss, essa é uma das grandes conquistas da instituição: “O museu tem uma voz importante, e estamos fortalecendo e consolidando ela cada vez mais para justamente ajudar a combater narrativas negacionistas”. Esse combate é um dos grandes objetivos do museu, que não apenas transmite lições sobre o Holocausto, como também contribui para conectar a história aos dias de hoje, fazendo com que o público reflita e aja em prol de valores democráticos e de combate à intolerância.

O Holocausto

Um dos mais trágicos e notórios feitos pela humanidade do século passado, foi o Holocausto, um processo sistemático de extermínio de judeus e outras minorias consideradas inferiores pelo Estado Nazista. Também chamado de Shoá, (do hebraico “calamidade”), o holocausto foi a “solução final” encontrada pelo exercíto alemão na 2ª Guerra para perseguir e eliminar os que não se encaixassem no ideal de raça pura ariana, resultando no assassinato de cerca de seis milhões de judeus, e também de ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e pessoas com deficiências físicas e mentais.   

Governantes totalitários faziam discursos de ódio, principalmente contra judeus, utilizando-os de bode expiatório para os problemas das nações. Com o aumento do antissemitismo na Europa durante a Guerra, algumas ações sólidas começaram a acontecer partindo do próprio governo, descartando sua cidadania e humanidade. A ação mais devastadora e conhecida do regime nazista foi a utilização de campos de concentração.  Utilizados por diversos exércitos na história, o principal diferencial dos campos nazistas era seu caráter fatal e desumano, e pelo desenvolvimento de uma estrutura com o objetivo de exterminar um grupo étnico-religioso, no caso o judáico.

Joshua Strul era um garoto de apenas oito anos quando a guerra começou, ele e sua família foram arrancados de seu lar e levados para um Gueto — bairros criados pelos nazistas para a segregação da população judia, geralmente localizados em regiões periféricas, urbanas e cercadas. Hoje, décadas mais tarde, Joshua conta suas memórias do dia em que quase foi enviado à Auschwitz, o maior campo de concentração e extermínio da época:

“Meus olhos de criança vislumbravam uma massa de gente, mulheres com crianças berrando no colo, velhos de bengala, Gestapo cercando a estação, com suas metralhadoras e botas lustrosas. O dia estava muito frio, uma tempestade se aproximava, e não tinha mais espaços nos vagões, eu lembro de ouvir o barulho das tábuas pregadas fechando as portas, a locomotiva dando sinal para a partida e todos acenando. Chorei com minha mãe em minha inocência “por que não acordamos mais cedo para embarcar, do outro lado prometeram que vai ser melhor pra nós”.”

Emocionado, Joshua Strul relembra do seu sofrimento, reforçando a necessidade de não esquecer o quão perigosos o extremismo e o ódio podem ser, e elogia o trabalho que o Museu do Holocausto faz nesse aspecto.

Importância histórica

Museu do Holocausto

Os museus são importantes para a preservação da memória cultural de um povo e  exercem um papel fundamental a partir da História. O museu do Holocausto de Curitiba é o primeiro a representar o Holocausto no Brasil, e expõe uma série de documentos, objetos, fotografias e testemunhos que são pertinentes para a conservação.

Para a historiadora formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI-PR), Vanda Krause de Ramos, o Museu do Holocausto promove responsabilidade cultural, social, histórica e pedagógica. “É importante pelos direitos humanos, ele traz elementos concretos do ensino da história e reafirma tudo o que lemos e ensinamos. Através dele podemos refletir, analisar e compreender os acontecimentos. Muitas vezes quando não compreendemos e conhecemos algo, faz com que rejeitemos, então temos que mudar essa visão”, afirma a historiadora.

Nos últimos anos o negacionismo do Holocausto e os discursos de ódio e antissemitas são usados por uma extrema-direita constantemente alimentada pelas redes sociais. Para a historiadora, temos que questionar do que a  humanidade é capaz, já que o nazismo não foi um projeto de uma pessoa, mas sim um regime aceito pela sociedade que dominava política e economicamente o país. “O negacionismo não é de agora, desde o Holocausto já existia a negação do que ocorria nos campos de concentração. Mas hoje, existe a propagação de ideias, pessoas com visão única, maniqueísta e que se recusam a compreender a realidade da história”, complementa a especialista.

Embora possamos observar esse momento da história através de documentários e filmes, algumas vezes ele pode não ser retratado de forma fiel, e por isso, a visita do público é essencial para o Museu do Holocausto. Por conta da pandemia de Covid-19 o museu não está recebendo a visita de escolas, mas permite a entrada de até 15 pessoas no local.

SERVIÇO:

Museu do Holocausto
Segunda, terça e quarta: 8h30 às 11h30 e 14h30 às 17h30
Sexta: 8h30 às 11h30
Domingo: 09h às 12h
Quinta e sábado: fechado

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