dom 24 out 2021
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Não é só de jovens que as manifestações são feitas

A chuva não dava trégua. Entre milhares de guarda-chuvas, sombrinhas e capas impermeáveis, cartazes eram levantados, gritos e hinos entoados. A única coisa mais persistente que o aguaceiro era a multidão.

Pela primeira vez, o que se via na rua era uma ordem invertida. Os carros esperavam e o tráfego era de pessoas que andavam a pé. O sentimento de orgulho era forte, a vontade de estar ali era tão grande que até abri mão da sombrinha e comecei a caminhar na chuva, deixando ela me encharcar enquanto procurava ler todos os cartazes e entender o que diziam as vozes por onde passava.

No meio de toda a multidão de jovens, encontro uma senhora acompanhando tudo de baixo da sombrinha. Salete Cucucas Elioto é professora de inglês, tem 56 anos. “Vim sozinha”, ela diz. “Minha filha virou pra mim e disse: Mãe, tu vais pra lá? Eu disse: Vou, porque é uma coisa que eu acho que tenho que lutar”, confessa Salete.

Quanto mais andava, sem nem saber direito o destino final, mais eu via pessoas de diferentes idades, gostos, classes, religiões. Mas ali também se via uma unidade. Eram milhares unidos por uma vontade: dizer “chega”. E mesmo quem estava nos prédios hasteava bandeiras brancas ou do Brasil, do alto das janelas. O que se ouvia da multidão eram gritos de aprovação. “Se a população brasileira está saindo às ruas, é porque algo realmente sério está acontecendo”, aponta Salete. “O governo tem que parar de agir em benefício próprio e começar a agir em benefício do povo. Porque senão eu acredito que as coisas podem até ficar pior”, continua a professora.

As coisas aconteceram tão rápido e juntaram tanta gente que era inacreditável estar vivenciando tudo aquilo. Sempre achei que o povo estava quieto demais diante de tudo que vem acontecendo no governo, mas nunca pensei que finalmente veria as pessoas tentando mudar a realidade. A população está tão insatisfeita que ficar em casa ou reclamar nas redes sociais já não era mais suficiente. Ao invés disso, o que aconteceu foi que, finalmente, se falou em sair da Internet e ir para a rua. Pela primeira vez o que encarei na tela do computador era o mesmo assunto, por dias. E quanto mais o tempo passava, mais os compartilhamentos se tornavam infinitos. Me surpreendi quando Salete disse que desde domingo está postando coisas nas redes sociais. “E olha que eu detesto Facebook, mas ele me valeu para isso”, diz.

Perguntei para Salete se ela achava que as pessoas deveriam vir e se informar, não importando a idade. “Sinceramente eu acho que todo mundo deveria estar aqui, para que eles vejam que nós não estamos brincando, que nós não aguentamos mais”, responde. Me despedi de Salete e continuei a caminhar com meus amigos, ainda perplexa com a grandiosidade de tudo. O que eu sentia era um misto de alegria e medo. Assim como não sabia para que direção estávamos caminhando, também não sabia qual seria o destino daquilo tudo.

 

Guilherme Azevedo Valle é psicólogo, tem 57 anos e decidiu sair pra rua. Foto: Thays Kloss

 

Um pouco mais à frente encontrei Guilherme Azevedo Valle, de 57 anos, integrante de uma chapa que está se candidatando para o Conselho Regional de Psicologia. “Hoje a gente veio incluir nessa manifestação, além do apoio à todas as questões sobre a ética, democracia e PEC 37, duas questões que estão ligadas à psicologia também, que são o Ato Médico e a cura gay”, explica o psicólogo.

De acordo com Valle, o Ato Médico está esperando o veto da presidenta Dilma. Ele restringe o trabalho do psicólogo e a proposta que eles vieram reivindicar é um trabalho em equidade com o Ministério da Saúde. Quanto à Cura Gay, Guilherme Valle é categórico ao explicar que ela contrapõe uma resolução do Conselho Federal e o que os psicólogos desejam que a questão da homossexualidade não seja vista como doença. “Isso é preconceito”, resume.

Intrigada ainda com o fato de Salete usar uma rede social para se informar, perguntei então a Valle por onde ele soube dos protestos. Para confirmar minha suspeita, ele afirmou que além da mídia, outra rede fez parte das informações. “Através da nossa fanpage da chapa de psicologia no Facebook”, explica. Não é a primeira manifestação de Valle, também. “Participei do Diretas Já na passeata dos 100 mil no Rio, na época eu morava lá. Foi uma experiência muito forte”, conta.

 

Dois protestos que pararam o Brasil

Em uma comparação com o movimento que ocorreu na década de 80, Valle repara que esta é uma manifestação mais jovial e luta por mais temáticas. Ele também dá uma sugestão para os protestos atuais. “Agora eu daria um tempo estratégico, deixaria o governo responder, organizaria as reivindicações para não ficar várias diluídas e também pra não dar muito espaço para os vândalos se aproveitarem de uma coisa que é tão importante”, opina.

Voltei para casa depois de duas horas caminhando, encharcada e tremendo de frio. Estava feliz por ter participado e encontrado em meio àqueles tantos jovens, pessoas mais velhas caminhando junto, famílias com crianças animadas por estarem ali, amigos sorrindo, gente pulando. Me fez acreditar de novo, apesar de ter um medo de tudo se perder em algum momento. Foi aí que lembrei de uma coisa que Valle disse e é inegável ao se estudar a história do nosso país. “A verdade é que as duas grandes mudanças que nós tivemos, o fim da ditadura após as Diretas Já e o Fora Collor, vieram a partir desse movimento. Dessa garotada que está aí na frente”, ressaltou o psicólogo.

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