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“Não é um jogo, é um balcão de negócios. Quero ser governador para acabar com isso”, afirma Bernardo Pilotto

Bernardo Pilotto é o candidato mais jovem nestas eleições. Com 30 anos de idade, afirma conhecer os mecanismos do processo eleitoral e compreender as dificuldades de ser um partido pequeno. Em 2010, disputou o cargo de deputado estadual e, em 2012, o de vereador, mas não chegou a ser eleito. Apesar disso, ele acredita que sua vida de militante pode ser tão importante para governar o Paraná quanto a vivência em cargos políticos.

Durante a entrevista, o candidato explicou medidas de seu programa de governo e falou sobre direitos da população LGBT, combate à violência contra a mulher, desmilitarização da polícia, entre outros assuntos polêmicos.

Bernardo Pilotto foi um dos fundadores do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) no Paraná, criação que aconteceu em 2004. É formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná e trabalha como assistente administrativo do Hospital de Clínicas da UFPR.
Foto: Annelize Tozetto

Confira a entrevista:

Jornal Comunicação- Candidato, como sua eventual eleição beneficiaria o jovem universitário? 

Bernado Pilotto– Primeiro, entendo que uma eleição nossa superaria certa opressão geracional que o jovem sofre. Opressão dizendo que ele não tem qualidade, não tem experiência, que ele não tem responsabilidade, que jovens tem que receber salários menores. Segundo, nós temos duas propostas para o ensino superior do estado. Como as faculdades estaduais são muito desiguais, uma delas é uma política mais uniforme de permanência do estudante, que chamamos de Plano Estadual de Assistência Estudantil. Queremos também um mecanismo que garanta verba para essas instituições, independente da opção do governo, que é a vinculação ao orçamento. Se você não tem dinheiro garantido, não se consegue ter autonomia didática, científica e pedagógica. Então a solução que encontramos para as universidades estaduais é vincular a verba ao ICMS. É o que acontece em São Paulo. Depoisde 20 anos de governo do PSDB, que são governos que não investem no Ensino Superior Público, a Unesp [Universidade Estadual Paulista], a USP [Universidade de São Paulo] e a Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] ainda são universidades de excelência, porque a verba que vai para elas não passa pela mão do governador. E é isso que queremos fazer no Paraná. Deixar um legado, realizar medidas de longo prazo.

O senhor se manifestou sobre o episódio recente da adesão do HC à Ebserh e afirmou que “saúde e lucro não combinam”. Esta posição resume o seu posicionamento em relação as políticas sobre saúde?

Várias situações mostram que saúde e não lucro não tem como coexistir. Cada semestre você tem uma história de alguém que chegou ao hospital particular, não deu cheque caução [cheque que funciona como garantia de pagamento] e morreu agonizando. Isso mostra que o setor privado quer ter lucro, quer vender doença. Nós temos uma das melhores legislações de saúde do mundo e temos condições de investir na saúde a partir dela. É isso que vamos fazer: investir os 12% do Estado como mínimo. Para nós, existe o SUS, que é uma conquista democrática da sociedade brasileira. E ele é muito melhor que o sistema anterior, do ponto de vista da possibilidade de direitos. Mas ele precisa ser valorizado, precisa ter investimentos e não mecanismos que sirvam para comprar serviços da iniciativa privada. E esse é o grande lance da Ebserh [Empresa Brasileira de Serviços Hospitalare]: vão se enfraquecer todas as áreas de apoio diagnóstico dentro do Hospital de Clínicas e o HC vai ser o maior comprador de serviços em saúde de Curitiba e região. Podem apostar, a Ebserh vai ser uma compradora de serviços da iniciativa privada. E isso sai mais caro, além de piorar o serviço.

O senhor lista em seu programa de governo o plano de corte no financiamento das comunidades terapêuticas. Como o candidato pensa em preencher as lacunas que surgem nos tratamentos, por exemplo?

O PSOL é defensor da reforma psiquiátrica, uma reforma que aconteceu junto com a sanitária, nos anos 1990. Ela impulsionou a luta antimanicomial, que entende que prender as pessoas no manicômio não resolve os problemas. O problema é que o tratamento das comunidades terapêuticas é baseado em religiões. Nós somos contra isso porque o Estado é laico. Precisamos investir na Rede de Atenção Psicossocial, que é uma forma de atender as pessoas usuárias de drogas, sem perspectiva punitiva nem religiosa. Dessa maneira não é preciso ter comunidade terapêutica. Existem mecanismos na lei que permitem instituir isso na rede pública.

Em Curitiba, temos um ambulatório para atender a comunidade Trans. Mas como em outros lugares, a falta de profissionais especializados faz com que o centro não funcione e as pessoas tenham que procurar ajuda em outros estados. Qual caminho o candidato tomaria para melhorar este tipo de atendimento?

Nós vamos investir na Escola de Saúde Pública para suprir algumas deficiências de formação que temos dentro da universidade na área da saúde. Temos pouquíssima formação em saúde do trabalhador, em saúde da população LGBT, da população negra, indígena e, agora, temos outro campo aberto, como a violência obstétrica. Outro caminho é mudar os parâmetros curriculares dos cursos na área da saúde. Achamos isso mais difícil, até porque envolve um debate nacional. Mas Investir na ESP é como vamos conseguir profissionais que tenham interesse em trabalhar, por exemplo, nos ambulatórios especializados. Também é preciso fazer um papel educativo com os trabalhadores da saúde do Estado, porque certamente muitos deles têm preconceito em ir trabalhar nesse lugar. Através da ESP achamos possível conquistar esses novos profissionais.

Em seu plano de governo, o senhor diz ser necessário acabar com as revistas obrigatórias e liberar presos caso não haja vagas. Poderia esclarecer essas medidas e também explicar em que elas podem auxiliar no problema da superlotação carcerária sem esquecer a segurança pública?

Essas medidas são fruto de um documento da comissão de direitos da OAB e nós entendemos que elas melhoram os direitos de política humana dentro do Estado. Hoje, um visitante que vai no presídio passa por uma revista vexatória. A pessoa tem que mostrar suas partes íntimas, por exemplo. Nós entendemos que há outros mecanismos para impedir a entrada de armas e coisas ilícitas no presídio. A tecnologia está aí para isso. O segundo ponto é que entendemos que o encarceramento em massa não resolve o problema da segurança, ao contrário, os índices de violência têm aumentado. Nós apoiamos as penas alternativas e entendemos que, quando o Estado solta os presos, cria-se uma crise e isso impulsiona um debate sobre essas novas medidas. Achamos que é positivo gerar essa crise. Também há a proposta de fortalecimento da Defensoria Pública, que ainda está se estruturando.  Quem oferece um advogado é o PCC [Primeiro Comando da Capital], por exemplo. Se fortalecermos a Defesoria, estaremos dando menos espaço para esses grupos criminosos.

E quanto à desmilitarização da polícia?

Como governador, não se pode desmilitarizar a policia por completo, mas, aqui no Estado, poderíamos tomar um caminho. Rever o código de ética dos policiais e bombeiros, por exemplo. Hoje ele é baseado no código da Ditadura, no regime disciplinar do exército, e a partir desse código esses profissionais são ensinados a encarar a população como uma inimiga a ser combatida e não como aquela que deve ser protegida. Precisamos mudar isso no regulamentando, diminuindo a jornada de trabalho de policiais e bombeiros. Nós também precisamos unificar o plano de carreira. Hoje há uma distinção muito grande entre praças e oficiais- os praças ficam na rua e os oficias ficam na burocracia do quartel-, não há porque ter essa distinção. E queremos ter um secretário de segurança que não seja nem policial, nem promotor, mas alguém da área dos Direitos Humanos, da Sociologia, ou do Direito Penal mesmo. Assim como ter uma corregedoria civil e externa, que funcionaria como um controle externo da polícia. Hoje os mecanismos para denunciar a violência policial são muito corporativistas.

Quais as propostas do candidato no sentido de diminuir a violência contra a mulher no Estado?

Nossa posição é, primeiramente, o entendimento de que a violência contra a mulher nunca é culpa da mulher. Não podemos criminalizar aquelas que já são vítimas. Segundo, que precisamos garantir um processo de educação nas escolas que ensine os homens a não agredir ao invés de ensinar as mulheres a se defenderem, como acontece hoje. Terceiro, que precisamos das casas de abrigo para que a mulher possa denunciar a violência contra ela de maneira autônoma e sem ter medo de voltar para casa. E a quarta medida que achamos importante é a questão da Delegacia da Mulher. São muito poucas no Estado e as que existem funcionam em horário comercial. Só que os Índices de violência, se formos mapeá-los por horário e dia, certamente acontecem no período noturno e nos finais de semana. Precisamos instituir a delegacia da mulher em horário integral, assim como uma escuta qualificada para essa parcela. Uma escuta com psicólogo e assistente social para que as mulheres não sofram uma nova violência, psicológica, quando chegarem na delegacia.

O senhor afirma uma oposição contra as oligarquias tradicionais do estado, assim como tem sido a postura do PSOL a critica às alianças da gestão atual. Caso seja eleito, como pretende governar sabendo que a política também se constitui como um jogo que envolve diálogo, alianças estratégicas e disputa por poder?

Primeiro que não é um jogo, é um balcão de negócios. Quero ser governador para acabar com isso. Se for pra jogar esse jogo, não faz sentido ter o PSOL. Queremos um governo que Alexandre Curi seja oposição, Fábio Camargo seja oposição, Hermas Brandão seja oposição. Precisamos que esses setores que estão na política paranaense há mais de 100 anos sejam oposição. Entendemos que os nossos projetos são qualificados e que nós podemos convencer os deputados a fazer o que queremos. Mas caso os interesses pessoais e particulares deles se façam mais fortes, nós iremos jogar com a população. Chamar a população a pressionar os deputados a votar a favor das medidas populares que nosso governo vai tomar. Entendemos que esse é um mecanismo que já deu certo em outros lugares. Isso é muito difícil de fazer em âmbito de Estado, mas nós entendemos que se o PSOL se eleger a população está disposta a ter uma participação maior na política, mais ativa, e é com isso que apostamos para não precisar nesse balcão sujo de negócios que temos hoje.

 

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