seg 18 out 2021
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“Não quer ser padre?”

O GPS diz que o número 5300 da Avenida Salgado Filho é uma monumental igreja adventista. O que procuro é o seminário Scalabrini. Imagino um lugar recluso, nos fundos de algum terreno. Algumas voltas na quadra, uma conversa com uma senhora que lavava a calçada e consigo direções. “Vira a esquina, passa o rapaz que vende garapa e já entra no próximo portão”. Agradeço e não questiono. Encontro o seminário e minha previsão de um lugar pacato e isolado se confirma. Algo me diz que foi só até aí­ que meus pressupostos estavam certos.
Dois andares, dezenas de janelas em cada ní­vel. Estaciono o carro na parte de trás da casa que não parecia ter fim. Vejo Damião, de jeans e camiseta. Não sei por qual motivo imaginava que todos da casa estariam o tempo todo de batina. Com o sotaque paraibano, já avisa que a aula de italiano das 14h15 foi cancelada o padre Guilherme, professor, precisou ir ao médico.
Damos iní­cio a um tour pelo terreno. Damião explica que a horta 100% orgânica, logo ali do lado, é mantida pelos próprios seminaristas. Na frente, uma quadra de futebol. Na minha cabeça eu imagino padres – de batina, claro – dando carrinhos e comemorando com piruetas os gols marcados.
Continuamos o caminho, chegando cada vez mais perto de latidos agudos. Amarrados a uma árvore, Pingo e Sofia, dois cães que a congregação decidiu adotar.
Depois de uma caminhada de quase dois minutos, chegamos no fundo da casa. Passamos por um varal, uma churrasqueira, um pomar e um cercadinho com galinhas e um casal de patos. Na casa de ferramentas, na última prateleira de um armário rústico, quase prensado contra o teto de cimento sem reboco, cerca de 30 garrafões de vinho. “Eu nem sei pra que eles usaram isso aí­”, diz Damião.
Outros dois minutos andando e chegamos de novo na entrada da casa. Passamos o saguão, contornamos o claustro e chegamos à sala de estudos do terceiro ano. Antes de virem para o seminário Filosófico, os aspirantes passam pelas casas de formação propedêuticas. Lá eles participam, por um ano, de uma introdução ao estudo filosófico e teológico. Depois vão para os seminários filosóficos, como é o Seminário Scalabriniano, no Uberaba. São três anos de estudos dedicados somente à filosofia. Depois, em outro seminário, eles estudam exclusivamente teologia. No total, todo esse tempo de estudos pode chegar a 11 anos.
O gaúcho Jonas está no terceiro ano. Nas reuniões dos seminaristas, é Jonas quem sempre comenta as notí­cias dos principais jornais. Perguntou o que eu achava da dupla do Jornal Hoje Evaristo Costa e Sandra Annenberg. Comentamos um pouco sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista também.
Em sequência, Damião destranca a porta de uma das suas partes preferidas da casa: a biblioteca maior. Menos utilizada que a outra biblioteca, nela consta uma variedade enorme de livros. História, sociologia, literatura, psicologia, teologia… O Caçador de Pipas divide espaço com Suma Teológica de São Tomas de Aquino em latim. Cuidar das bibliotecas, como também dos alarmes e das luzes é a função de Damião na casa. “Aliás, conhece o Heródoto Barbeiro e aquele livro dele sobre a CIA?”, pergunta.
Na maioria das salas, o retrato de uma mesma pessoa está ao menos em uma das paredes. É do beato italiano João Batista Scalabrini, que em 1887 fundou a Congregação Scalabriniana. O objetivo era ajudar os migrantes internos da Itália, marginalizados. Hoje, os Scalabrinianos já estão em 34 paí­ses. O lema “Eu era migrante e você me acolheu” faz jus aos seminaristas: paraibanos, mineiros, cearenses, paulistas, gaúchos e até um paraguaio.
Logo passamos pela sala do segundo ano. A mesa de Damião está coberta de livros de filosofia, direito e psicologia. Chegam mais seminaristas para estudar no tempo da cancelada aula de italiano. O curso de filosofia é de manhã, na Faculdade Vicentina, no São Francisco. De ônibus, os alunos voltam para o seminário no final do almoço.
Ao entrar na capela, Damião faz a genuflexão dobra o joelho direito até o solo e explica que ele mesmo pintou o quadro de Jesus Cristo, pendurado do lado do altar. No fundo da sala, um armário com bí­blias e livros de canto. São várias cadeiras espalhadas pelo espaço, sem fileiras definidas. Os lugares também não são marcados.
Conheci Amarilda e Dona Ivone na rouparia. “Mais que funcionárias, são amigas. São como mães pra gente”, diz Damião. Elas são responsáveis pela alimentação e pelas roupas dos seminaristas. “A gente sua e elas lavam e passam”, comenta. Amarilda brinca: “Mas mãe tem que lavar e passar a roupa dos filhos, não?”.
Na segunda biblioteca, a variedade temática continua. Antropologia, filosofia grega, existencialismo, marxismo, semiótica, lí­nguas estrangeiras. Como qualquer universitário, os seminaristas também precisam escrever um trabalho de conclusão de curso. E também fazem vestibular para entrar. “É de suar, exige muita leitura”, afirma Damião. De Wittgenstein a monografias, de Platão a Nietzsche. Quero perguntar o que ele acha da passagem da morte de Deus, mas outra coisa no corredor logo me chama a atenção.
“Não sei como isso chegou aqui”, diz Damião sobre a foto de um tanque de guerra do exército brasileiro subindo uma colina. Medindo aproximadamente um metro de comprimento por 80 centí­metros de largura, a imagem está pendurada no canto do segundo claustro.
No andar de cima estão os mais de 30 quartos. Alguns são individuais, outros duplos. Hoje, a construção de 1943 acomoda com sobra os seminaristas, mas já teve anos em que o número chegou a 43. No andar superior também tem uma lareira. Os tijolos do fundo ainda brancos e sem fuligem entregam que ela quase nunca é usada.
Pelos corredores, encontro os mineiros Jefferson e Jardel, o paulista Evaldário, o cearense Salmo e os gaúchos Joelmar, Gabriel e Robson. Todos perguntam, em algum momento, se eu não quero ser padre. “Foi uma provocação assim que ativou meu interesse”, diz Damião.
Voltamos para a mesa do saguão de entrada, coberta de jornais e revistas. Chegam do médico o padre Guilherme, professor de italiano, e o Padre Joacir. O padre Guilherme tem 82 anos, usa óculos bifocais e boina. “O que significa ‘Victor’, padre?”, Damião, com um sorriso, pergunta a Guilherme. “‘Victor’, do latim vincere. Vinco, vincis, vincit, particí­pio victus. Cercar o inimigo para daí­ esmigalhar”, responde o padre.
Converso com Damião mais um pouco sobre o que ele espera do futuro. Ele diz que o sonho é visitar um leprosário em Cairo, no Egito. “Talvez o meu leprosário está aqui, nas favelas de Curitiba. Não preciso ir tão longe pra encontrar leprosos, doentes e marginalizados”, completa.
Já é final de tarde, arrumo minhas coisas para sair. Falo mais um pouco com os mais novos conhecidos, antes de ir embora. “Não quer ser padre?”, perguntou pela última vez Damião. Disse que não e me despedi do paraibano. Nome de santo ele já tem.

De Harry Potter a escola de Frankfurt, os mais diferentes gêneros estão nas prateleiras da biblioteca do seminário
De Harry Potter a escola de Frankfurt, os mais diferentes gêneros estão nas prateleiras da biblioteca do seminário (Créditos: Victor Parolin)

 

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