seg 18 out 2021
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Novela também é cultura

Vilão de Amor à Vida será um gay enrustido (Foto: TV Globo/Divulgação)

Que a novela está presente todos os dias na vida dos brasileiros não é nenhuma novidade. Mas até que ponto isso têm consequências na vida prática? A novela tem influência no comportamento e no pensamento das pessoas sobre os assuntos mais relevantes? A nova novela das nove teve um dos piores índices de ibope da rede Globo com 35 pontos, junto com sua antecessora “Salve Jorge”, porém não significa que elas deixem de ser assistidas ou que os assuntos pautados por elas não sejam dignos de serem avaliados.

Surgida apenas como forma de entretenimento, as telenovelas sempre intrigaram e despertaram a atenção. Desde seu nascimento, os folhetins de jornais, os escritores perceberam que essa prática despertava a curiosidade do leitor e a vontade de saber o que aconteceria no próximo capítulo – que só seria revelado na edição seguinte. Descobriam então uma forma de vender mais e conquistar mais leitores. Hoje não é diferente, a estrutura ainda é a mesma, sempre prendendo o telespectador para mantê-lo até o próximo capítulo, e o próximo, e o próximo… Assim, no desenrolar da história os temas são apresentados de maneira que o telespectador se identifica e vê que aquilo realmente diz respeito a fatos que interferem na sua vida e não longínquos como parecem as discussões no Congresso ou acordos firmados entre autoridades nacionais e internacionais.

E nem é preciso acompanhar a novela inteira para se deparar com esses apontamentos, em apenas um capítulo na semana de estreia de Amor à Vida, é possível notar a relevância para dois temas: Aborto e Bebida e direção – todos em situações reais e completamente compatíveis com a vida das pessoas. Em uma cena uma personagem procura o médico afirmando querer optar pelo aborto por já ter filhos e não poder arcar com mais uma gravidez. O médico, vivido pelo ator Antônio Fagundes, aconselha a paciente que a criança não pode pagar pela falta de prevenção dos pais e atenta para o risco de vida que a mãe corre ao se submeter a procedimentos clandestinos. Em outra situação dois jovens que saem para se divertir consomem bebida alcóolica e se policiam a não voltar pra casa dirigindo. Uma grande questão introduzida recentemente pela última novela do horário nobre, Salve Jorge, e difundida largamente, foi a questão do tráfico de pessoas. A autora Glória Perez, conhecida por trazer tópicos de importância social, contribuiu para a conscientização de todas as partes de uma comunidade, até órgãos federais, por mostrar que o caso acontece de fato e não é apenas lenda. Glória foi buscar na vida real exemplos verídicos e estudou o tema para tratá-lo com mais precisão possível.

Temas como relação homo afetiva, drogas, filhos com deficiência, prostituição, leucemia, emancipação da mulher etc., tratados por telenovelas de renome entraram pra história e promoveram, senão uma mudança, pelo menos uma atenção e um entendimento maior sobre problemas sociais vividos no Brasil e no mundo. Os folhetins trazem ainda assuntos inéditos no espaço público nunca antes discutidos ou colocados em questão publicamente, como o caso da homossexualidade, assunto considerado tabu no país anos atrás e que hoje tem uma aceitação maior do público. A violência doméstica contra a mulher é outro ponto que era bastante conhecido no cotidiano das pessoas mas que não era falado sobre, devido a sociedade machista e patriarcal que impera hoje ainda, mas que era muito mais acentuado antes de começar a haver uma campanha maior não só sobre este tema mas de outros de cunho social também.

Tudo isso parece meio óbvio, mas não é. Há quem diga que a novela é alienante ou que seu conteúdo é de baixíssima qualidade e que as pessoas não vão parar de dirigir embriagadas ou de ter preconceito por ter visto na TV. Mas como ignorar os quase 80% dos televisores ligados num capítulo final ou os comentários na mesa de jantar, nos escritórios, nas faculdades e nas redes sociais? O Brasil é o maior produtor de novelas e a teledramaturgia já se tornou parte da cultura brasileira. Longe de uma doutrina moralista, a novela não existe para impor conceitos ou reproduzir um posicionamento fixo a determinado assunto. Embora as vezes a novela não retrate de forma fiel uma situação, ela chama a atenção justamente para o que está acontecendo na nossa realidade, na sociedade. A novela é primariamente para entretenimento mas ela busca, através da distração e da reflexão, tratar temas polêmicos de uma forma muito mais convidativa e imediata. Por que não então utilizar uma paixão nacional para sensibilizar os cidadãos e mostrar que temos que discutir e abrir a cabeça para novos fatores que surgem e para os que ainda estão pertinentes a tanto tempo?

 

 

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