sáb 23 out 2021
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Número de cesáreas no Brasil quase quadruplicou nas últimas quatro décadas

O procedimento de parto por cesárea no Brasil tem apresentado um crescimento assustador nas últimas décadas, segundo a pesquisa Nascer no Brasil. Dados de 1970 mostram que a taxa de cesárea era de 14,6%, ascendendo a 32% em 1980, nos hospitais vinculados ao Inamps. Em 2000, o número atingiu 38% e, dez anos depois, 52%.

Para o obstetra Carlos Miner Navarro, as causas desse aumento são diversas. Segundo ele, tornou-se forte a crença de que a cesárea é mais segura e prática e a associação do parto normal a um procedimento violento, com medo e dor, além da desinformação sobre os riscos da cirurgia.

O curioso é que a prevalência dos procedimentos de cesariana sob os de parto normal não refletem uma preferência das mulheres pela cirurgia.  Segundo o Doutor Carlos Miner, pesquisas realizadas no Brasil sugerem que no máximo 30% das mulheres preferem cesárea, porém o sistema obstétrico brasileiro acaba convencendo muitas mulheres que optam pelo parto vaginal a serem submetidas a cesarianas, muitas vezes sem necessidade. “Outra razão para esse crescimento do número de cirurgias é conveniência para os médicos, hospitais, gestantes e familiares, que preferem agendar a cesárea para não ter que lidar com a imprevisibilidade do parto vaginal”, opina o obstetra.

Mas é preciso cautela: segundo a Secretaria de Saúde, as cesarianas triplicam o risco de morte materna e aumentam em 120 vezes a chance de problemas respiratórios no bebê. “A cesárea é uma cirurgia de grande porte, e apesar de ser muito segura com as técnicas atuais, tem mais risco de morte e complicações graves para a gestante e de prematuridade, dificuldades respiratórias e outras consequências para o bebê”, explica Miner.

Apesar do aumento do número de cesáreas, cresce também o número de partos humanizados, que buscam devolver o protagonismo da mulher durante o nascimento do bebê. Foto: Carlos Miner
Apesar do aumento do número de cesáreas, cresce também o número de partos humanizados, que buscam devolver o protagonismo da mulher durante o nascimento do bebê. Foto: Carlos Miner

Parto humanizado

O Doutor Carlos Miner é defensor da humanização do parto, movimento que consiste em adequar o espaço físico, a postura dos profissionais, compartilhar as decisões médicas e, no caso da assistência ao parto, devolver o protagonismo da mulher durante o nascimento do bebê. “Acredito que este movimento levará as mulheres a exigirem seus direitos a uma assistência respeitosa, de qualidade e baseada em evidências”, diz.

Esse movimento defende o acompanhamento de uma doula durante a gestação e o parto. Procedimentos acompanhados por doulas geralmente têm duração menor, menos pedidos de anestesia, menos casos com fórcipe ou vácuo-extração, menos cesáreas e mais relatos da gestante ter tido uma experiência positiva.

A coordenadora do grupo Doula Curitiba e diretora do Instituto Parto Ativo Brasil, Inês Baylão, ressalta que não há como determinar o momento certo para um bebê nascer. “O sinal verde, de que ele está pronto, só é dado por ele próprio e vem de dentro pra fora! Quem está de fora (mãe, pai, médico, toda a sociedade) precisa reaprender a esperar este sinal”, ressalta Inês.

A doula acredita que o modelo obstétrico centrado na figura do médico obstetra, a institucionalização do parto violento, a falta de informação por parte das mulheres, bem como a formação médica precária, podem ser fatores responsáveis pelo aumento das cesarianas. Conselho

Miner aconselha as gestantes que estão pensando em fazer cesarianas. “Diria para ela procurar se informar, em fontes confiáveis, sobre os prós e contras de cada via de parto e considerar também os interesses do bebê, e não apenas se preocupar com a dor ou com a opinião dos outros”, indica.

 

 

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