Os insetos, além de desempenharem um papel essencial na manutenção do meio ambiente, são importantes bioindicadores da saúde ambiental. Em Curitiba, a presença desses pequenos animais nos parques mostra as alterações ambientais existentes no processo de urbanização e seus impactos na biodiversidade.
Conforme a definição da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), os bioindicadores são seres vivos da natureza, tanto da fauna quanto da flora, utilizados para avaliação ambiental. O professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná, Rodrigo Gonçalves, explica que existem dois tipos principais de monitoramento a partir do uso de insetos e de outros animais.
O primeiro é monitoramento ambiental, na qual o inseto pode acumular resíduos de inseticidas ou metais pesados e serve de guia para mostrar se determinado local está em exposição a algum componente tóxico. O segundo consiste no monitoramento ecológico, quando é analisado um determinado grupo de insetos para indicar o status de conservação de uma área demarcada: quanto mais espécies de um grupo específico mais conservada é aquela região.
Além disso, a escolha dos insetos ou outros animais como bioindicadores depende da área de vida. Um grande vertebrado (como o crocodilo) é maior e precisa de um habitat mais amplo do que um inseto — pode, então, ser considerado um bioindicador em maior escala. Em vista disso, os insetos podem complementar a outras espécies, como é o caso das aves. “Você também pode utilizá-los como formas complementares das aves, por exemplo, como indicadoras, podem corroborar ou não os dados de abelhas como indicadores. Então, um grupo não exclui o outro”, explica o pesquisador.
O professor ainda ressalta que existem duas questões principais em torno da escolha dos insetos ou das aves como bioindicadores em parques. Os pássaros são mais fáceis de serem identificados e muitas espécies já são conhecidas, diferente das abelhas e das borboletas. Outro motivo que leva a seleção dos insetos para o biomonitoramento é referente à amostragem, “Para você chegar a essas conclusões se uma área está preservada ou não, você precisa ter uma quantidade grande de amostras. E insetos, como são muito abundantes, conseguem fornecer dados suficientes para testes estatísticos, para poder validar o que está sendo falado, e isso é extremamente importante na ciência”.
Abelhas e borboletas e sua importância ambiental
Conforme um estudo realizado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, as borboletas são frequentemente utilizadas no monitoramento de alterações em sistemas agrícolas, florestais, naturais e urbanos, por serem mais sensíveis às mudanças. “As Borboletas são bastante utilizadas como indicadores ecológicos. Existem trabalhos que mostram que locais bem conservados tem muitas espécies de borboleta”, diz o entomologista.
O pesquisador aponta que, devido à dependência do pólen e néctar das flores, as abelhas são importantes bioindicadores, pois sua presença indica que as plantas estão saudáveis. Esses insetos também necessitam de outros fatores ambientais para se manterem vivos, como solo exposto, cavidades em árvores para a construção de ninhos e locais com substratos que possibilitem sua alimentação. No meio urbano, essas condições são determinantes para a presença delas em parques.

Impacto urbanístico na biodiversidade dos parques de Curitiba
De acordo com a Engenheira Ambiental, Karin Nohara, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, a preservação de parques e bosques na capital é dirigida com um planejamento urbano estruturado. “Nós somos regidos pelo nosso plano diretor, é ele quem vai determinar as diretrizes de preservação ambiental da cidade”.
A engenheira ainda enfatiza que Curitiba integra outros acordos e planos internacionais de sustentabilidade como o ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade) do C40, no qual, funciona como uma rede de cidades em prol da sustentabilidade, mitigação e adaptação às mudanças climáticas e os planos específicos para cada setor da cidade que são desenvolvidos seguindo as diretrizes do plano diretor.
Somado a isso, a Lei 15.511/19 ou Lei de Zoneamento, uso e ocupação do solo, é que delimita o que as orientações referentes ao que pode ou não ser construído e em qual local tem autorização para ter construções. “Seguindo esses instrumentos e mecanismos conseguimos manter, urbanisticamente falando, a cidade equilibrada, onde queremos desenvolver e onde queremos preservar”.
Nohara, aponta que os parques em Curitiba têm duas principais funções: a primeira destinada ao lazer e a outra como grandes bacias de detenção de águas pluviais, para que quando chova os rios e lagos dos parques sejam alagados evitando que a cidade tenha outros problemas de infraestrutura.
O estudo, conduzido pelo professor e pesquisador Rodrigo Gonçalves, analisou 10 parques de Curitiba com diferentes níveis de urbanização, a partir da coleta de abelhas em torno da área. A pesquisa busca entender se a quantidade de área verde em torno de um parque determina a quantidade de espécies de abelhas nele presentes.

Os resultados comprovaram que sim. Dos 10 parques analisados, o Passeio Público é o que mais impactos tem na biodiversidade, por conta de sua cobertura verde pequena e dos arredores urbanizados. Enquanto em outros parques, com áreas verdes encobrindo de 60% a 90% de sua extensão, o estudo determinou que existe uma presença maior de espécies.
Nesse contexto, a pesquisa evidenciou resultados de outros estudos, sendo eles: “Positive responses of flower visiting bees to landscape heterogeneity depend on functional connectivity levels” e “Responses of bees to habitat loss in fragmented landscapes of Brazilian Atlantic Rainforest”(Respostas positivas de abelhas visitantes de flores à heterogeneidade da paisagem dependem dos níveis de conectividade funcional” e “Respostas de abelhas à perda de habitat em paisagens fragmentadas da Mata Atlântica brasileira”, traduzido para o português) desenvolvido pelos pesquisadores Danilo Boscolo e Patrícia Alves Ferreira, através da Universidade do Estado de São Paulo.
As pesquisas indicam que se retirar mais de 50% da área verde do entorno do parque, como consequência vai impactar no número de espécies de abelhas e na perda do habitat desses insetos. Ou seja, em espaços verdes inseridos em ambientes urbanos (como pequenas praças e corredores de árvores) é necessário manter na sua composição 50% de espaços urbanos e 50% de locais naturais que auxiliam na preservação não só das abelhas como da biodiversidade como um todo.
O número de espécies de abelhas em locais agressivamente urbanizados, como o Centro de Curitiba, é menor do que os encontrados em lugares como a divisa entre Curitiba e São José dos Pinhais, onde há mais áreas preservadas. Logo, os parques atuam também como pontos de conservação de espécies nativas. “É importante que dentro desses parques, além da região visitada, é necessário áreas um pouco mais naturais, que não estão sendo fortemente substituídas por plantas exóticas. Porque é importante para a preservação manter as porções de mata naturais” diz Rodrigo Gonçalves.
“É importante que dentro desses parques, além da região visitada, é necessário áreas um pouco mais de locais naturais. Porque é importante para a preservação manter as porções de mata naturais”
Rodrigo Gonçalves, Professor do Departamento de Zoologia da UFPR

O cenário Curitibano na proteção dos insetos
Gonçalves alerta que, apesar do título de Cidade Verde, Curitiba ainda carece de políticas voltadas para os insetos, mesmo iniciativas como os Jardins de Mel, projeto realizado pela Prefeitura de Curitiba para fortalecer a população de abelhas sem ferrão, apesar do seu impacto educativo positivo ao aproximar as pessoas da conscientização ambiental, essas práticas não garantem totalmente a preservação das abelhas ou de outros insetos.
“Não é questionamento total, é só chamar atenção de que isso não vem necessariamente acompanhado com outras iniciativas que são importantes, porque já temos a presença de abelhas nos parques, não precisam necessariamente que esses insetos precisam ser manejados. O que é necessário é manter esforços para haver condições que possibilitem que elas continuem ocupando os parques”, enfatiza o pesquisador.


