seg 18 out 2021
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Os militares passaram pelo Paraná

Estudantes curitibanos fazem passeata em homenagem a Edson Luís Souto, de 17 anos, assassinado pela PM do Rio em 1968 Foto: Agência Estado

No início da madrugada do dia 31 de março de 1964, tropas militares saíram de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro com o objetivo de depor o então presidente João Goulart. No dia seguinte, sob o pretexto de garantir a democracia, começou-se a estabelecer um sistema ditatorial que se estenderia por 21 anos. Cinco décadas depois, paranaenses que foram diretamente afetados pela atmosfera de medo e repressão do período continuam lutando para que os eventos ocorridos na época não sejam esquecidos e, principalmente, para que não se repitam.

O jornalista Milton Ivan Heller, 82, é um deles. Perseguido pelo regime militar por pertencer ao Partido Comunista e acusado de subversão, ele se recorda da preocupação das classes conservadoras brasileiras  com a possibilidade de um Brasil socialista, à época do golpe. Influenciados pelo contexto da Guerra Fria, empresários, banqueiros, integrantes da classe média e até a Igreja Católica temiam a implantação de uma democracia popular, que daria especial atenção a trabalhadores e estudantes. O medo cresceu com a proposta das Reformas de Base, do então presidente João Goulart, que instauraria mudanças como a reforma agrária. O temor das camadas privilegiadas da população acabou legitimando o golpe em diversos pontos do país.

No Paraná, a história se repetiu. “Ser de esquerda era moda. O socialismo parecia estar avançando rapidamente: tínhamos a impressão de que ali estava o futuro. Isso ia contra os interesses da elite, que ficou aliviada quando os militares acabaram com a possibilidade de um golpe comunista”, lembra o jornalista, que foi processado já em 1964 e obrigado a enfrentar quatro anos de julgamento, com sessões semanais de cinco horas de interrogatório na Praça Rui Barbosa.

Segundo Heller, apesar da tensão política instaurada desde a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, o braço paranaense do Partido Comunista não acreditava em uma intervenção militar iminente. Repórter político do extinto Última Hora, ele conta que foi organizada uma reunião do Partido em Curitiba, que contou com a presença de Luís Carlos Prestes, dois dias antes do golpe. Nem mesmo Prestes considerava a ideia de um golpe. “Ele fez um discurso dizendo que estava apoiando o Jango e articulando a implantação das Reformas de Base”, afirma o jornalista.

Movimento Estudantil

 Uma das primeiras medidas do regime militar foi tentar desarticular a União Nacional dos Estudantes (UNE) e, consequentemente, as Uniões Estaduais Estudantis. Entre elas estava a União Paranaense dos Estudantes (UPE), extinta pelo Ministério Público Federal em 1968. Mesmo com todas as adversidades criadas pelo governo, as ações desses grupos foram protagonistas no período. Para o sociólogo e membro da Comissão Estadual da Verdade Márcio Kieller, que tem um histórico com movimentos estudantis e sindicais, é fundamental ressaltar o papel dos estudantes paranaenses. “A militância estudantil teve uma importância muito grande no Brasil todo durante a ditadura cívico militar. Em Curitiba, um dos principais pontos de discussão era o Centro Acadêmico Hugo Simas” diz, referindo-se ao centro acadêmico de Direito da UFPR.

A Universidade foi palco de grande parte das ações do movimento estudantil curitibano. Um dos episódios mais memoráveis foi a ocupação da Reitoria, em maio de 1968, motivada pela pressão governamental para tornar pago o ensino nas universidades públicas brasileiras. Milton Ivan Heller lembra que os conflitos não se limitaram à Reitoria. “Houve, inclusive, um conflito armado entre estudantes e policiais no Centro Politécnico”, conta.

Tortura

 Heller lembra, ainda, da Rua da Cidadania da Praça Rui Barbosa e dos quartéis do Boqueirão e do Bacacheri como principais pontos de retenção e tortura dos opositores ao regime. “Dei sorte por ter sido processado quando o regime de tortura ainda não estava estabelecido. O máximo que aconteceu com um colega foi o caso de um fotógrafo, que foi internado compulsoriamente em um hospital psiquiátrico”, conta. Um projeto do Fórum Paranaense da Verdade, Memória e Justiça deverá garantir que os locais onde houve tortura em Curitiba sejam identificados com monumentos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC).

Teresa Urban, vítima de um dos casos mais emblemáticos da tortura em Curitiba, recebeu uma homenagem da Comissão Estadual da Verdade, que passou a levar o seu nome em fevereiro desse ano. Teresa, que faleceu em junho de 2013, foi presa e torturada em dois períodos diferentes, por ser injustamente associada à luta armada e a Carlos Lamarca, um dos líderes da oposição ao regime. Márcio Kieller diz que a homenagem foi inspirada na Comissão Estadual da Verdade – Rubens Paiva, de São Paulo, e definiu Teresa como “um exemplo de coragem”. “O espírito da mudança do nome é o mesmo de todo o trabalho da Comissão. Queremos que as pessoas se lembrem para que jamais aconteça de novo” conclui.

 

 

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