seg 18 out 2021
HomeCulturaOs olhos no céu; os pés na terra

Os olhos no céu; os pés na terra

A percussão é rápida, pesada e diversificada, por conta de Emerson Calado, Rafa Almeida e Nego Henrique. O violão de Clayton Barros é o único instrumento harmônico. O palco mistura elementos cênicos, como bonecos em tamanho natural de arame armado com luzes diáfanas entre fumaça. O clima é mí­stico. No centro do tablado, José Paes Lira, o profeta Lirinha, olha para o céu, murmura algo longe do microfone. Parece rezar, silencioso como em uma igreja. Fala com Deus, que o ouve, não seu público. Começa assim o show de um dos grupos mais impressionantes desde Chico Sciense & Nação Zumbi: o Cordel do Fogo Encantado.
O Cordel surgiu em Arcoverde (Pernambuco), em 1997, como grupo de teatro, que misturava poesia e música, além de representar. Em 1999, o grupo pendeu para a música, depois de se apresentar no Carnaval em Recife. Os tambores de culto africano, juntos com o lirismo nordestino, forjavam algo novo na cena musical brasileira.
A presença de palco, oriunda desta ligação com o teatro, não tem similares no Brasil. A interpretação está encalacrada no Cordel, enquanto que nas bandas brasileiras são episódicas, pensadas para uma turnê, no máximo. Na história do rock, há diversas referências de shows cênicos, como Tommy (The Who), The Wall (Pink Floyd) e Voodoo Longe (Rolling Stones). Mas, no Cordel, não se tratam de megaproduções, de um esforço deliberado para colocar teatro em apresentações de música. A origem está na ausência de fronteiras da cultura popular, que não separa palco de platéia, nem música de poesia ou representação, de forma estanque como as belas artes fazem. O quinteto de Arcoverde é esta sí­ntese popular, sem forçar para isso.
No entanto, o grupo reelabora a cultura popular. Mantém as referências, mas realiza o esforço de misturar elementos e criar algo novo a cada música. São contemporâneos. Os ví­nculos são fortes, mas eles não repetem os esquemas da cultura popular, como explica Emerson Calado, na entrevista que deu para o jornal Caranguejo, em Antonina: “Eles (os artistas populares) são como mestres, mas preferimos a criação e não o que foi criado. Ou seja, não apenas reproduzir o que eles fizeram”.
Embolada, coco, macacatu, reisada, toré e literatura de cordel ganham peso em músicas como Chover, Morte e Vida Stanley e Palhaço do Circo sem Futuro, legí­timas filhas de um nordeste judiado, mas que ganham pernas para não apenas repetir esquemas. Diz Lirinha: “Porque a gente acredita que temos raí­zes, mas não como as árvores. Temos pernas e podemos caminhar. Acreditamos no trânsito e na divisão polí­tica dos lugares, que só cria submissão. Não temos nenhum receio de perda de identidade”.
As árvores são fiéis ao chão de onde brotam, concebidas no cio da terra, vivenciam a vida concreta do campo, das colheitas, das chuvas, dos ventos e das oscilações do clima. Tudo isso é tão presente na vida do nordestino quanto o próprio Deus. A versão de Cio da Terra, na voz de Lirinha, soa muito mais telúrica e mí­stica que em qualquer outra interpretação. A vida concreta e a vida mí­stica, o céu e a terra se misturam no nordeste.
O Cordel é uma árvore com pernas. Se manterá as raí­zes, só o tempo dirá. Transfiguração, o último trabalho do grupo, já inverte o processo anterior, que sempre começou com a elaboração do show e culminou na gravação do CD. Desta vez, a música veio antes. Para os crí­ticos, o álbum é o mais palatável, o que já gerou acusações de que era uma concessão ao mercado. Impossí­vel saber, por enquanto.
Em Antonina, o show foi breve, mais burocrático do que o normal. Mesmo assim, impressionante. O grupo fez exigências e foi pouco acessí­vel, como as vedetes do rock ou do cinema. Mau sinal. O Cordel está longe de perder suas raí­zes, mas pode ter colocado o pé neste caminho. Se o grupo levar ao extremo a crença na própria autonomia estética, pode virar uma árvore à deriva. Se alguns movimentos artí­sticos podem defender a arte pela arte, com caracterí­sticas cosmopolitas, para o Cordel isso seria o fim.
Os olhos de Lirinha seguem olhando o céu, mas se os pés não continuarem na terra o Cordel pode se tornar um arremedo estético de si mesmo. O grupo enfrenta o mesmo dilema das culturas populares quando se chocam com a modernidade: entrar e sair dela sem se perder e sem se petrificar. O Cordel é movimento, é renovação estética, é respeito pelas origens sem o compromisso de preservá-las, função que não lhe cabe. Por isso, é tão relevante para o cenário cultural. A cada show, a cada delí­rio da multidão, a cada novo fã conquistado, o grupo terá que se reinventar para não tomar o caminho fácil. Nem todas as portas que se abrem são do paraí­so.

No palco, o vocalista Lira parece rezar, o que contribui para a atmosfera mí­stica do show
Manuela Salazar
NOTÍCIAS RELACIONADAS

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Populares

Comentários recentes