ter 30 nov 2021
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Pandemia marca aumento de sessões terapêuticas via computador

Estudo da OMS revela que o Brasil é o quinto país com mais pessoas depressivas no mundo. Tabu contra terapia vem diminuindo desde 2014.

A pandemia trouxe consigo mudanças na vida e no cotidiano da população. Além dos modos de convivência familiar, social e profissional, há também impactos na mente. Um estudo da Organização Mundial de Saúde conclui que “o conceito de saúde é bem mais abrangente que a simples ausência de doença: é um completo estado de bem-estar físico, mental e social”.

Os debates sobre saúde mental vêm se tornando cada vez menos tabu. Sempre existiu um estigma, como se fosse motivo de vergonha ou fraqueza, embora médicos afirmem que pelo menos 30% da população sofre ou possa vir a sofrer com problemas mentais, e 12% pode ter doenças graves. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os brasileiros são o povo mais ansioso do mundo, e o 5° mais depressivo.

Os números de procura por ajuda profissional vêm aumentando. Estudos do Instituto de Estudos de Saúde Complementar (IESS) mostram que entre os anos de 2014 e 2019, o índice de consultas com psiquiatras passou de 3,4 milhões para 4,9 milhões, um crescimento de 44,5%. No mesmo período, o número de sessões com psicólogos quase dobrou, passando de 9,1 milhões para 17,6 milhões. Além disso, as sessões de terapia ocupacional foram de 818,6 mil para 1,9 milhão, uma alta de 137,8%.

A psicóloga e mestranda em Psicologia Clínica na Universidade Federal do Paraná Adriana Porto avalia que houve em sua clínica, nas de seus colegas e no mestrado, um aumento de uma média de 50% da demanda por psicoterapia desde o terceiro mês da pandemia. “Quando as pessoas se deram conta de que a vida não voltaria ao normal tão cedo, foram se desorganizando psiquicamente. Os quadros de ansiedade e pânico aumentaram consideravelmente, mesmo nos pacientes que já estavam em acompanhamento só por questões de autoconhecimento antes da pandemia”, conta a profissional.

Ela relata também que com a entrada de 2021 foi observado um aumento da incidência de depressão, bem como uma maior resistência à medicação, pontuando que“o prolongamento do tempo de isolamento social, aumento das perdas de pessoas próximas e falta de perspectiva de retomada da vida presencial parece ter instalado nas pessoas uma espécie de ‘desesperança crônica’”. A profissional também conta que muitas pessoas passaram a desenvolver uma maior dificuldade nas interações sociais por causa da distância, isolando-se cada vez mais do mundo externo, o que agrava o sofrimento psíquico.

O isolamento social foi tido pelos especialistas de saúde como uma das medidas preventivas mais importantes para a contenção do vírus causador da doença. Logo, tudo e todos foram afastados, e de repente, viram-se isolados. Com isso, adaptações foram necessárias. Boa parte da rotina presencial passou a ser online. Inclusive, as sessões terapêuticas.

A psicóloga Adriana comenta que no início tudo era muito diferente, e que os artifícios do presencial fizeram muita falta, do afeto no aperto de mão, no abraço de cumprimento, dos recursos artísticosdisponíveis sobre a mesa, bem como o chazinho sempre quentinho da recepção. Com a carência de tudo isso, foi perdido também o calor e caráter humano, de acordo com a terapeuta. No entanto, muitos benefícios vieram na bagagem segundo a mesma: “de alguma forma houve um aumento da intimidade, pois passamos a conversar nas casas das pessoas. Muitos pacientes se permitem fazer as sessões sobre suas camas, enrolados em seus aconchegantes roupões e/ou cobertores quentinhos e com seus animais de estimação ao lado”.

Ademais, comenta que contratempos e gastos de deslocamento são evitados. Portanto, os dois lados – terapeuta e paciente – aos poucos foram se familiarizando à situação e se acostumando à nova saída que foi encontrada, com suas interrupções de sinal de internet, fones de ouvido… e pontua a especialista, que a grande maioriamanifesta a vontade de permanecer de maneira digital, mas sempre tem alguns (poucos) que relatam constantemente o desejo do retorno ao presencial.

Entre esses poucos, está Ana BeatrizCarrijo, discente de Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná, natural e residente de Foz do Iguaçu. A estudante já realizava terapia antes mesmo do período pandêmico começar, mas conta que no seu início, desistiu de fazer, pois sempre gostou muito de suas sessões presenciais, do espaço aconchegante, interpretava o consultório com um refúgio do cotidiano.Entretanto, sentiu necessidade e reatou. Embora todos esses problemas, ela aprecia a praticidade de poder levar sua psicóloga para qualquer lugar, inclusive em viagens, como é o caso: Ana está fora do país e ainda assim consegue ter o apoio da profissional. Porém assim que puder, quer sentir o calor humano de um encontro pessoalmente e em um cenário mais feliz ainda, tomar o chazinho quentinho da recepção.

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