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Das Aldeias às Salas de Aula

Formada em serviços sociais na Universidade Federal do Paraná, Ana Carolina Neres, 27 anos, precisa se fragmentar em várias partes para manter sua identidade cultural e pôr em prática os conhecimentos que adquiriu durante sua graduação - expondo os desafios que os povos originários enfrentam do ingresso à permanência no Ensino Superior.

“Ingressei no curso de serviço social na UFPR em 2017, com 21 anos. E conclui agora, neste ano (2023). O curso vinha bem de encontro com o que a gente, enquanto indígena, busca: ser reconhecido, ter os direitos validados, e conseguir caminhar em espaços reconhecidos enquanto pessoa. E a área de serviços sociais busca a efetivação do direito dos sujeitos, ela vai em conjunto com a questão de direitos humanos e indígena.

O primeiro contato com a instituição foi e é mais complicado para mim enquanto indígena, porque a gente convive em um espaço totalmente diferente. Eu fiquei cinco anos na UFPR, e apenas um grupo ou outro chega a ter contato [com os indígenas] sem ser o pessoal de antropologia. Então, realmente, é só quando é conveniente. Mostrar os indígenas é só no abril indígena. O setor litoral, nessa parte, é diferenciado, é aberto a discussões sobre a questão indígena, me senti bem acolhida.

A maioria dos estudantes ainda não tem essa consciência em relação à questão indígena. Um pouco é falta de informação mas também de interesse em saber. Eles acabam se conscientizando um pouco mais, na turma onde tem indígenas, mas a maioria fica meio alheio a essa questão. Com os professores é a mesma situação, quando tem estudante indígena na turma, consegue essa conversa com eles, um diálogo mais abrangente para trazer essas questões, mas acaba passando batido quando não tem ninguém que puxe por esse lado. 

Se tiver alguma outra dificuldade, psicológica ou financeira, a gente tem o amparo do NUEI (Núcleo Universitário de Educação Indígena), mas acho que poderia ter bem mais. Na época eu vivia com 900 reais, mas são várias questões que cercam todo esse permanecer na instituição e conseguir concluir o curso, principalmente o fato de eu sair da minha comunidade e viver numa cidade onde eu não conheço ninguém.

A taxa de estudante que desiste é grande e acho que tudo envolve essa questão de conseguir se adaptar nesse espaço totalmente devorador, porque acaba te consumindo de certa forma. Ter que trabalhar o tempo todo na sua cabeça que ali você vai aprender a questão acadêmica do curso, das disciplinas, mas em contrapartida tem que casar isso com os ideais de sua comunidade. Não adianta de nada vir de lá como uma profissional super ética, chegar na comunidade e querer aplicar isso goela abaixo [nos outros], sendo que não condiz com nada da minha realidade. Então o tempo todo a gente tem que pensar em como trazer isso para comunidade, e de que forma aplicar o que é discutido em sala.

Minha mãe concluiu o curso dela de pedagogia também na UFPR, em 2018. Na época em que ela tinha passado no vestibular, eu morava em Curitiba, na Kakané Porã, uma aldeia urbana localizada no Tatuquara. Morei lá desde 2008 e ficamos até 2021. Estudei dentro da comunidade até a quinta série, e depois disso, os alunos da Kakané Porã estudam fora, então conclui o ensino médio em 2013, integralmente em escola pública.

A partir do ingresso da minha mãe, eu já tinha prestado dois vestibulares na época, porque nessa parte de estudos ela sempre foi bem rígida e cobrou bastante com relação à formação. Rolou um cursinho, de 6 meses, como se fosse um preparatório da instituição. A galera do setor de educação orientava com relação à redação e ao português. Essa questão é o que pega, porque no vestibular indígena vale bastante a redação e a prova oral. No primeiro dia a gente faz a prova das disciplinas, de múltipla escolha, e a redação. No segundo dia é a prova oral, com temas voltados à questão indígena. 

O que tenho de mais interessante para mostrar aos outros é a fala. A minha língua. É uma forma de conhecimento ancestral mas também de comunicação exclusiva dos povos indígenas – cada etnia tem a sua. Meu pai é falante da língua, mas eu não. Isso é decorrente de todo o processo histórico de colonização que todas as comunidades indígenas sofreram. A Mangueirinha, em específico, onde a gente reside, fica localizada no sudoeste do Paraná, e sofreu bastante no período da ditadura militar. A maioria dos mais velhos, acima de 40, 50 anos, chegam a falar a língua, mas os mais novos, por ter sido proibido na época, vêm com essa questão de defasagem no aprendizado”

Mariana Souzahttps://marianasouzajor.wixsite.com/portfolio
Graduanda em Jornalismo na UFPR. Foi extensionista no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-UFPR) e do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP-UFPR). É interessada em temas como cultura, política e saúde.
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Mariana Souzahttps://marianasouzajor.wixsite.com/portfolio
Graduanda em Jornalismo na UFPR. Foi extensionista no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-UFPR) e do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP-UFPR). É interessada em temas como cultura, política e saúde.
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