qui 29 set 2022
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Por preconceito, mulheres empreendem em áreas”próprias”

Mais de 26 milhões de brasileiras empreendem no país. Setores ligados a serviços domésticos, beleza, estética e varejo de vestuário dominam nichos de atuação

Mãe e filha, Gisele Précoma e Milene Martins são sócias da Saint Premè, uma empresa no ramo do vestuário feminino localizada em São Bento do Sul, no norte de Santa Catarina. O sonho aguardado por quase 20 anos começou online, pelo Instagram, durante a pandemia. Os desafios para encontrar as mercadorias desejadas, os quatro quilômetros carregando sacolas, o estudo e a dedicação são minimizados por comentários machistas. ​​“Eu até lembrei de um episódio em que a Gi estava na prefeitura e um senhor falou: ‘Se nada der certo na minha vida, eu vou abrir uma lojinha de roupa’”, relata Milene. “Eu voltei naquele dia muito chateada”, completa Gisele.

Em novembro comemora-se o empreendedorismo feminino. Dados do Global Entrepreneurship Monitor, referentes ao ano de 2019, apontam 26 milhões de mulheres empreendiam no Brasil. Porém, mesmo que mais mulheres comecem a empreender no país, são os homens que lideram os negócios estabelecidos. No total, 18,4% dos brasileiros são empreendedores estabelecidos, enquanto apenas 13,9% das mulheres do país tem seus negócios estabelecidos.

A pesquisa “Empreendedorismo Feminino como Tendência de Negócios”, conduzida pelo Sebrae identificou que 68% das mulheres empreendedoras trabalham de casa


Além desses três nichos, o setor de alimentos também se destaca. “Esta dinâmica de nichos e setores é percebida há muito tempo em pesquisas nacionais sobre empreendedorismo feminino. Muito se dá pelo fator de empreender por necessidade. Ou seja, complementação de renda ou perda de emprego com carteira assinada. E aí as mulheres acabam indo para nichos que se identificam mais, ou com maior grau de retorno imediato”, avalia Marina Elena Miggiolaro Barbieri, gestora estadual do Sebrae conduzindo a pesquisa Delas: Mulheres de negócios

Desafios para empreender

Os desafios vão além dos clientes, do gerenciamento e das burocracias que acompanham todo empreendedor. “Eu gosto muito de colocar a mão na massa, fazer acontecer. Quando montamos o espaço, a decoração, foi tudo nós que fizemos. Até quando a gente foi comprar algumas decorações para trazer e instalar as pessoas ficavam perguntando se eu mesma lavaria ou colocaria. Nessas horas eu penso: ‘Por que não?’”, conta Gisele. A ampliação do espaço online para um local físico foi necessária por conta da expansão do público. A partir do ponto em que clientes de fora de São Bento do Sul pediam para provar as peças, a necessidade de se preservar apareceu. 

A exposição é um aspecto delicado para as empreendedoras. Caroline de Medeiros e Camila de Medeiros são irmãs e fundadoras da Artesania, perfil dedicado a artesanato. “Deixávamos os nossos telefones pessoais divulgados para encomendas. Como o nosso contato estava no perfil, acabamos recebendo mensagens de pessoas estranhas que não tinham nada a ver com a loja, não queriam fazer encomendas, então optamos por tirar esse meio de comunicação”, explica Caroline, que aponta a solução encontrada em restringir o chat do Instagram como canal para encomendas.

Camila é estudante de Ensino Médio e Caroline cursa Fisioterapia na Universidade Federal do Paraná. As jovens acreditavam que alcançariam um público mais velho, mas foram surpreendidas. “Uma coisa que eu vejo quando realizamos as entregas é que praticamente 90% são para as mulheres, e elas ficam felizes, falam: ‘Vocês são tão jovens e já fazem artesanato, já trabalham com isso’. Há boa aceitação”, analisa Caroline (Imagem: Arquivo pessoal).

Ao mesmo tempo em que o e-commerce abriu portas para o empreendedorismo feminino, a exposição e a desvalorização acompanham as empreendedoras. “Foi a nossa primeira encomenda para outra cidade. Ficamos animadas porque era uma encomenda diferente e atingiríamos um dos nossos objetivos. A pessoa encomendou e nós produzimos. Na época não tínhamos a noção de pedir um sinal para o cliente para começarmos a produzir. Compramos todas as embalagens para enviar o produto pelo correio. Quando chegou na hora do pagamento, a cliente sumiu. Ficamos com o produto e o investimento todo parado”, conta Camila. 

Empreender na internet

Mesmo com a experiência de 20 anos no comércio, a entrada no mundo digital foi um desafio para Gisele: “O digital acabou ajudando o digital. A gente precisava de ajuda dentro do meio digital e foi no meio digital que encontramos”. Já Milene fala sobre a importância dos cursos online sobre marketing digital que ela e a mãe fizeram no início da pandemia, para estruturar o negócio. 

Já para Caroline e Camila, as vendas via Instagram poderiam ser impulsionadas se a plataforma tivesse alguma forma de sinalizar uma segurança de compra. A credibilidade do vendedor poderia ser sinalizada a partir da otimização das verificações, ou pela implantação de um sistema de avaliações pelos próprios clientes.

Contudo, não é apenas de desafios que vivem as empreendedoras. Manuela, ou Manu Rosa como se apresenta nas redes sociais, especializou-se em pâtisserie na França e abriu a confeitaria Manu Rosa Bakery, em 2018, também no município de São Bento do Sul. Ela e o marido são sócios, mas a história com a gastronomia é mais antiga.  “Eu trabalhava muito durante o dia no escritório de advocacia, de noite dava aulas de confeitaria e nos finais de semana trabalhava com eventos”, revela Manu sobre uma rotina de dez anos conciliando o Direito com a confeitaria.

Após dez anos, a empresária Manu Rosa conseguiu focar energias exclusivamente para o trabalho na confeitaria, fundada em 2018 (Imagem: Arquivo pessoal).

A ganhadora do episódio do chá de bebê, do programa Que seja doce, da GNT, em 2016, também é mãe, esposa e dona de casa. “Precisa saber delegar bem, estar sempre por dentro e supervisionar. A minha função é desenvolvimento de novos produtos, um pouco da parte de marketing, porque eu acabo fazendo as postagens no Instagram, e estar sempre conferindo o que eles estão fazendo. Mas eu não estou 100% dentro da produção, o que me facilita muito até para poder cuidar do meu filho, pelo menos meio período do dia eu passo com ele. É difícil, mas você sendo dono do seu próprio negócio pode fazer os seus horários”, enfatiza a chef. 

Microeempredoras individuais

Gisele e Milene são microempreendedoras individuais (MEI), assim como Manu Rosa. Já Camila e Caroline de Medeiros gerem um negócio informal. As diferenças burocráticas são grandes, mas a rede de apoio marca as três histórias. Gisele e Milene contam com os conselhos de amigas empreendedoras, Camila e Caroline com a família, a mãe contadora, o pai que investiu dinheiro no começo e as avós que as incentivaram. Já Manu fala da importância dos funcionários: “A questão de funcionário é um grande desafio, você conseguir ter liderança, tocar a sua equipe, ter pessoas comprometidas. Hoje em dia eu tenho uma equipe muito boa, mas nem sempre foi assim. A questão de funcionário geralmente é a mais difícil dentro de um negócio. Todos os empreendedores que eu conheço, dentro ou fora da gastronomia, relatam isso”. Para ela, ter funcionários capazes de “tocar as coisas mais por conta” é essencial para que possa focar em outros aspectos da empresa.

Pesquisa realizada pela Rede Mulher Empreendedora em 2017 revela que as empreendedoras brasileiras dedicam no dia, em média, 7,5 horas para o negócio, 2,8 horas para os filhos e 1,8 hora para o lazer. Delas, 31% são MEIs como Milene, Gisele e Manu. As três empreendedoras acreditam que o modelo gerido tem as melhores condições em questões tributárias. Já 22% dos negócios femininos são informais, como a Artesania. Camila e Caroline revelam que não têm planos de formalizar a empresa a curto prazo.

Bruna Eduarda Rudnick
Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
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