qui 29 set 2022
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Preocupação com saúde mental incentiva ações em universidades federais

Levantamento do Jornal Comunicação mostra que em 12 das 69 universidades federais do país, além de ferramentas de ensino, docentes e estudantes procuram estratégias para lidar com crises emocionais

A educação foi um dos setores que mais sofreram impactos na pandemia, causando desgastes em todas as categorias da comunidade acadêmica. No início do surto de covid-19 no Brasil, o Ministério da Educação publicou a Portaria nº 345/2020, que autoriza a substituição temporária de disciplinas presenciais por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação. Assim, as universidades de todo país adotaram o ensino remoto com condições de acordo com o contexto e realidade de seu corpo docente e discente – muitas dispensaram, por exemplo, a obrigatoriedade do aluno em assistir às aulas ao vivo.

Segundo a Coalizão Global de Educação, lançada pela Unesco em março de 2020, mais de 1,5 bilhão de estudantes e jovens sofrem ou já foram afetados pelo impacto do fechamento de escolas e universidades devido à pandemia. A situação inédita tem causado estresse e ansiedade em alunos e professores; a consequência da situação pode ser duradoura e já é tema de diversas pesquisas.

O acesso e o uso de tecnologias essenciais para o ensino a distância (EaD) também foram desafios para a comunidade acadêmica. Vale lembrar que o padrão de acesso digital do brasileiro, segundo relatório da consultoria McKinsey & Company, não tem como foco principal a leitura e pesquisa: 83% dos brasileiros acessam principalmente aplicativos de mensagens; redes sociais ocupam 56% do uso; já leitura de notícias e mecanismos de busca é a principal atividade digital de 54% dos usuários. A pressão pelo domínio de ferramentas digitais causou estresse em professores que não estavam preparados para a migração do ensino presencial ao on-line com qualidade e atendendo, no caso das universidades públicas, o tripé universitário de ensino, pesquisa e extensão, o que reforça a necessidade de capacitação e acolhimento de demandas emocionais.

O Jornal Comunicação consultou as 69 universidades federais brasileiras existentes sobre a oferta de atendimentos para preservar a saúde mental, em especial de professores – do total, 12 responderam, das quais apenas duas não oferecem o serviço e outras quatro encaminharam as perguntas a outros órgãos da universidade; o restante não respondeu a tempo desta edição.

Contribuíram para esta reportagem: Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Cariri (UFCA), Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Universidade Federal do Cariri (UFCA)

A Universidade Federal do Cariri (UFCA), com campus sediado em Juazeiro do Norte, no Ceará, produziu em outubro deste ano a cartilha Primeiros Cuidados Psicológicos: estratégias de autocuidado e cuidado com o outro. De acordo com a psicóloga Ana Virgínia Silva Mendes, da Coordenadoria de Apoio ao Desenvolvimento Discente, o produto surgiu após uma roda de conversa para debater o acolhimento de demandas emocionais trazidas pelos estudantes aos professores, a pedido dos cursos de Agronomia e Medicina Veterinária. O documento está disponível de forma digital para toda a comunidade acadêmica e oferece estratégias para lidar com crises emocionais. Em casos mais graves, contudo, é imprescindível ajuda de profissionais.

UFCA produziu a cartilha em outubro deste ano para oferecer estratégias para lidar com crises emocionais (Foto: Reprodução/UFCA).

Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)

No Paraná, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) também desenvolveu cartilhas para aconselhar o corpo acadêmico. Além da Cartilha sobre o acesso à rede pública de saúde mental de Foz do Iguaçu e da Cartilha sobre ansiedade e estresse em tempos de pandemia, a Seção de Psicologia da instituição, vinculada à Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, produziu o podcast Saúde mental é fundamental (abaixo) e uma palestra sobre saúde mental na pandemia.

“No ano de 2020, as principais demandas estavam relacionadas a estados ansiosos, dificuldades nas relações familiares, estados depressivos, dificuldade na organização dos estudos, insatisfação com o curso e/ou orientação profissional e solidão, dificuldade nas relações interpessoais. Uma diferença marcante com relação às demandas dos anos anteriores é a dificuldade em relacionamentos familiares ter se configurado como a segunda maior demanda. A questão pode estar associada ao retorno dos estudantes a seus antigos lares e ao desafio da convivência no confinamento”, ressalta a psicóloga Vanessa Silvestro Viana, que trabalha na Unila.

Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

As queixas dos discentes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), do campus Governador Valadares em Minas Gerais, são semelhantes. Excesso de ansiedade, desânimo, autocobrança e procrastinação são os sintomas mais relatados pelos atendidos, segundo o psicólogo do Setor de Apoio Estudantil Lucas Nápoli. A universidade também oferece apoio psicológico para todos os servidores por meio do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor. Um projeto focado na capacitação de professores sobre cuidados com saúde mental já está em fase de planejamento.

UFMS, Unifei e UFG também ofereceram acolhimento psicológico para professores e técnicos, mas em menor quantidade da oferta aos discentes.

Infográfico: Mariana Souza

O estudo Impacto de Sars-Cov-2 e sua reverberação no ensino superior global e na saúde mental, publicado em junho de 2020 por pesquisadores da UFCA na revista científica internacional Psychiatry Research (da Elsevier), já indicava consequências na saúde de professores e estudantes. O fechamento das universidades e adoção do ensino remoto favoreceu o sentimento de solidão, estresse, angústia e a busca acirrada por novos conhecimentos. 

Em abril de 2020, o MEC lançou um portal para acompanhamento das instituições públicas de ensino durante a pandemia. A tecnologia é fruto da parceria entre MEC, UFCA, Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e Universidade Federal de Viçosa (UFV). Segundo o levantamento, 99% das universidades federais ofereceram atendimento psicológico para comunidade interna e externa. 

Em abril de 2020, o MEC lançou um portal para acompanhamento das instituições públicas de ensino durante a pandemia. Foto: Reprodução/MEC.

Ao todo, as instituições foram responsáveis por 3.519 ações de combate à pandemia em diferentes áreas de atuação – como produção de álcool em gel, distribuição de equipamentos de proteção individuais (EPIs) e desenvolvimento de testes rápidos de detecção do vírus; estima-se que 43 milhões de brasileiros foram beneficiados por esses trabalhos.

Mariana Souzahttps://marianasouzajor.wixsite.com/portfolio
Graduanda em Jornalismo na UFPR. Foi extensionista no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-UFPR) e do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP-UFPR). É interessada em temas como cultura, política e saúde.
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Mariana Souzahttps://marianasouzajor.wixsite.com/portfolio
Graduanda em Jornalismo na UFPR. Foi extensionista no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-UFPR) e do Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP-UFPR). É interessada em temas como cultura, política e saúde.