“O sistema jurídico está quebrado […] Eu também estou quebrada.” A frase dita por Débora Falabella em Prima Facie sintetiza a angústia da protagonista, que, após uma carreira defendendo acusados de estupro, passa a viver na pele o que sempre enfrentou nos tribunais. O espetáculo, apresentado nos dias 25 e 26 de março na Mostra Lúcia Camargo do Festival de Curitiba, levou ao palco, além de uma atuação premiada, um debate sobre justiça, ética e violência contra mulheres.
Na peça escrita pela australiana Suzie Miller, Tessa, personagem de Falabella no monólogo, é uma advogada brilhante, acostumada a vencer causas em que defende acusados de violência sexual. Vinda de uma família pobre, construiu sua carreira com base no mérito e na compreensão das narrativas da lei nos tribunais. Contudo, esse cenário muda quando ela é vítima de estupro. “De alguma forma, alguma coisa tem que mudar”, percebe, ao ter sua dor invalidada pelas mesmas estruturas que sempre defendeu nos tribunais.

Segundo a gerente de comunidades Beatriz Ponte, que esteve na plateia, a peça é uma experiência intensa. “Ver uma pessoa que trabalha no direito, sempre defendeu a lei e vivia pela lei, ver que a lei não é o suficiente para ela muitas vezes, me deixou bem abalada emocionalmente”, aponta.
O incômodo gerado pelo espetáculo é intencional. Para o professor de Direito Leandro Gorsdorf, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Prima Facie escancara os limites da legalidade: “Existe uma diferença entre lei e justiça. Muitas vezes, a lei pode garantir os direitos, mas não se faz justiça por meio do sistema de justiça. A palavra da vítima ainda é desqualificada — e isso precisa mudar”, destaca.
“Olhe para sua esquerda; olhe para sua direita”
Débora Falabella vive Tessa desde o primeiro dia da faculdade de Direito, no qual ouve da reitora que apenas dois a cada três estudantes do curso concluem a graduação, até o choque que é fazer parte de um dado estatístico. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma a cada três mulheres sofre violência. O primeiro monólogo da atriz já conquistou o Prêmio Shell, um dos mais importantes do teatro, na categoria Melhor Atuação. Prima Facie extrapola o drama individual e se insere no debate coletivo. A montagem brasileira já provocou discussões com figuras como a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia e a subprocuradora Raquel Dodge.

A encenação não é apenas denúncia, mas também um chamado à escuta. Para Ricardo Mancini, contrarregra da peça -profissional que administra os movimentos do palco-, ampliar a discussão sobre temas sensíveis e necessários nos palcos é um papel essencial dos artistas. “A gente está falando de um tema muito atual, está falando da mulher, está falando de violência. Quanto mais a gente tratar disso na nossa sociedade, quanto mais a gente entender que isso acontece e como pode ser combatido, é fundamental”, ressalta.
Ficha técnica
Autores: Marya Marcondes e Gustavo Gomes
Revisão: Rodrigo Matana
Edição final: Alana Morzelli